Esplendor (2017) – Naomi Kawase

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Por Samuel Costa

Imagem, som e a tradução do visual em sonoro.  Estas são questões que aparecem em primeiro plano no longa-metragem Esplendor (Hikari, 2017), de Naomi Kawase. O filme estreou no Festival de Cannes, concorreu à Palma de Ouro e levou o prêmio do Júri Ecumênico. A obra trata de um tema importante e pouco explorado no cinema: o uso da audiodescrição como meio de acesso das pessoas com deficiência visual às narrativas cinematográficas. A partir deste ponto de reflexão, Kawase constrói personagens que se entrelaçam em uma narrativa de camadas que possibilitam diferentes leituras das quais destaco duas. Por um lado, temos uma leitura superficial, que visualiza a sensibilidade da trama e que cai num sentimentalismo que não vai além do lugar comum. Por outro lado, temos personagens complexos, que se entrelaçam com temas pessoais de Kawase que são abordados desde o início da carreira da diretora. A reflexão sobre a audiodescrição e esta segunda camada/leitura da trama fazem da obra um filme autoral complexo e pertinente.

A personagem Misako (Ayame Misaki) é uma audiodescritora de obras cinematográficas, ou seja, trabalha produzindo descrições de filmes (especificamente dos elementos visuais das narrativas) voltadas para pessoas com deficiência visual. Para adequar e aprimorar o seu trabalho ela participa de exibições de filmes com pessoas cegas e com baixa visão nas quais ela é responsável pela audiodescrição. Nestes encontros eles debatem como melhorar a descrição antes que seja oficialmente lançada com o filme. Nestas reuniões, Misako conhece o fotógrafo Masaya Nakamori (Masatoshi Nagase), que está em processo de perda da visão. A princípio, ambos possuem um relacionamento conflituoso que, aos poucos, vai se permeando de compreensão e afeto. Ainda, a trama inclui a relação de Misako com a mãe, que vivencia uma demência e vive longe da filha aos cuidados de uma terceira.

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A primeira camada do filme está dada na sinopse, é evidente, tende a um certo sentimentalismo e romantismo raso, característico de um cinema mais comercial e palatável – que lembra o longa anterior da diretora, O sabor da vida (An, 2015). Na segunda camada, mais profunda e filosófica, percebe-se questões marcantes na cinematografia de Kawase: o sentimento de abandono e perda, a família, a potência e sentido do cinema.

Quando saí da sessão de cinema, esta segunda camada ainda não me era nítida e minha sensação era de certa decepção. Mas como ocorre com todo bom filme, a obra, felizmente, me inquietou e me acompanhou por horas e dias que se seguiram.

Na segunda camada do filme é fundamental um personagem que aparece apenas por meio de uma foto: o pai de Misako. Este a abandonou, assim como o pai de Naomi Kawase. A diretora trata do tema do abandono do seu pai e da relação com o mesmo em outros filmes, como em Em Seus Braços (Ni tsutsumarete, 1992) e Céu, Vento, Fogo, Água, Terra (Kya Ka Ra Ba A, 2001). Em Esplendor, o pai de Misako vive em suas memórias e também nas da mãe, que ainda espera pelo seu retorno. A sensação de abandono, as memórias e a espera pelo pai lançam uma rede de complexidade para compreender a relação de Misako com Nakamori. O que aparenta ser apenas o gérmen de um romance (que fica numa primeira camada/leitura da obra) ganha aqui outras extensões que se conectam com as memórias e o sentimento de perda de Misako.

Com relação ao tema da audiodescrição, este traz fôlego e novidade ao filme. A obra é potente tanto em suas reflexões metalinguísticas quanto em juntar o conteúdo à forma. A diretora não apresenta de modo didático o que é a audiodescrição, mas introduz a temática ao espectador por meio da própria forma do filme, explorando som e imagem. Em uma das primeiras cenas, por exemplo, vemos o que Misako observa e ouvimos a sua voz num exercício de descrever tudo o que ela vê.

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A personagem de Misako tem suas preocupações e frustações com relação ao seu trabalho. Afinal, como traduzir o visual em sonoro? E no decorrer deste dilema vamos percebendo que aos personagens cegos a potência do cinema continua presente na imagem e no som. A diferença é que, neste caso, a imagem objetificação da tela de cinema dá lugar à imaginação. A tradução, portanto, não corresponde apenas à transição do visual ao sonoro, mas se efetiva na relação entre o visual, o sonoro e o imaginativo.

Um outro elemento que não pode passar batido no filme é a importância da luz, que, por sinal, corresponde ao título original do filme – Hikari (光) em japonês significa “luz”. A fotografia do filme é permeada por momentos diurnos, pela claridade, pelo sol, por prismas. Na medida em que a imagem visual, aquilo que vemos, é composto por luz, tal elemento no filme é central para pensamos a questão da perda. A perda da visão, da profissão de fotógrafo (no caso de Nakamori), do pai, entre outras coisas que perdemos ao longo da vida. A perda é acompanhada de sofrimento, como vemos no caminho das personagens, mas não é representada como algo meramente negativo. No filme, a perda da visão, que acomete Nakamori, não implica na perda da imagem ou do cinema, mas sim em uma outra forma de construir a imagem e se relacionar com o cinema. Imaginação é imagem, assim como o é a memória. Kawase apesenta neste filme a possibilidade de pensar o cinema não exclusivamente como audiovisual, mas como imagem e som em suas diversas possibilidades (imaginação e som).

A consciência da perda como parte da vida, e a vida como uma trama de múltiplos caminhos e possibilidades, traz o marco catártico em Esplendor. Tal catarse está tanto na relação de Nakamori com a visão como na relação de Misako com as memórias do pai. O filme não possui o mesmo impacto narrativo de obras como Shara (Sharasôju, 2003), Floresta dos Lamentos (Mogari no Mori, 2007) e O Segredo das Águas (Futatsume no Mado, 2014), cuja particularidade da linguagem contemplativa deslocam o espectador de modo muito mais explícito. Contudo, Esplendor não é uma obra menor de Kawase e, talvez, seja um dos filmes mais densos e complexos da diretora.

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