Paterson – Jim Jarmusch (2017)

imagesUm grande amigo chegou em mim por estes dias e disse “Paterson nem parece um filme, parece a vida real”. Eu ainda não tinha assistido ao filme, e foi a última coisa que fiz em 2017, e devo dizer, como meu amigo estava certo!

Alguns filmes elevam a categoria do cinema como potencial narrativo perfeito a patamares inimagináveis, Jim Jarmusch neste seu último filme faz isto de uma forma tão sincera e poética, que dizer que Paterson é apenas um filme parece diminuí-lo. Lembrou-me num primeiro momento a poesia idiossincrática de Yasujiro Ozu, esta forma de capturar as fagulhas invisíveis do cotidiano, que lá estão, e que apenas um olhar muito atento é capaz de desvendar.

1477419667580fa293ea0a6_1477419667_3x2_mdO diretor nos empresta seu olhar impregnado de amor por suas personagens, em especial o personagem-título (e também a própria cidade onde decorre a ação, que é homônima), que é um motorista de ônibus na cidade de Paterson, mas que também é um poeta nas horas vagas, e um grande poeta. Vemos essa relação o tempo todo: a poesia surge dos lugares mais inusitados, um motorista que escreve poesias, uma cidade que tem nome de poesia, e de onde visitantes do mundo vem conhecer, devido a seu poeta mais famoso William Carlos Williams. O tempo todos temos o relance de conversas e cenas, e em tudo, absolutamente tudo, vemos o olhar apaixonado do diretor pelos detalhes.

Paterson-2016-de-Jim-JarmuschTalvez a estrutura seja o grande mérito do filme, além de Adam Driver – sem dúvida um dos maiores talentos de sua geração. Temos a ação transcorrendo durante uma semana na vida de Paterson, segunda a segunda, acompanhamos a jornada diária deste personagem tão mundano e ao mesmo tempo tão fascinante – talvez por estas razões mesmas – dividir-se entre dirigir o ônibus do transporte coletivo da cidade de Paterson e escrever poemas inspirados em seu trajeto diário. Numa das muitas cenas belas do filme – e novamente, belas por sua singeleza – temos Paterson contemplando uma caixa de fósforos Ohio Blue Tip, depois, no decurso das horas, as palavras vão brotando, vislumbramos seu processo criativo, durante um dia todo, gestacionando frase a frase o que de início não aparentará ser um grande poema, mas logo depois, revela-se algo de beleza extraordinária (como alías, boa parte dos poemas compostos para o roteiro). Peço licença para reproduzir esta poema na íntegra:

Love Poem: We have plenty of matches in our house/ We keep them on hand always/ Currently our favourite brand/ Is Ohio Blue Tip/ Though we used to prefer Diamond Brand/ That was before we discovered/ Ohio Blue Tip matches/ They are excellently packaged/ Sturdy little boxes/ With dark and light blue and white labels/ With words lettered In the shape of a megaphone/ As if to say even louder to the world/ Here is the most beautiful match in the world/ It’s one-and-a-half-inch soft pine stem/ Capped by a grainy dark purple head/ So sober and furious and stubbornly ready/ To burst into flame
Lighting, perhaps the cigarette of the woman you love/ For the first time/ And it was never really the same after that/ 
All this will we give you/ That is what you gave me/ I become the cigarette and you the match/ Or I the match and you the cigarette/ Blazing with kisses that smoulder towards heaven.

220910-paterson-jim-jarmusch-adam-driver-poet-bus-driver-reviewPenso que a construção da narrativa da semana de Paterson ocorre como o processo criativo do personagem de Adam Driver na segunda-feira, aos poucos vamos conhecendo as sutilezas e detalhes, às vezes tão pequenos mas tão fantásticos, que tornam este um dos mais interessantes personagens dos últimos anos. Num primeiro momento Paterson parece um homem mundano, simplório até demais para chamar atenção, mas dentro de suas contradições brota-se poesia, e muito disso em virtude do trabalho genial – há algo de divino nesta atuação – de Adam Driver. Tudo na composição deste personagem é tão bem delineado, os gestos, a introversão, nada do artista sofrido que trabalha duro para tentar pagar sua arte, Paterson é tangível, está inserido num contexto onde tais utopias não lhe afligem, nem mesmo tem planos de publicar seu material, escreve poesia porque é necessidade, porque a vê no dia a dia e precisa capturá-la. A namorada Laura, Golshifteh Farahani – mais linda que as estrelas em céu sem nuvens – é a única que insiste para que faça cópias e que considere publicar. Mas isto não faz parte do personagem, ele escreve inspirado por seu herói William Carlos Williams, porque a poesia o inspira, porque a cidade onde viveu seu herói o inspira, seus habitantes, todas as idiossincrasias.

Brody-PatersonAinda tenho coisas de Jim Jarmusch para ler, mas até agora, Paterson está um platô acima de todos os outros. Aliás, das duas últimas décadas, Paterson se destaca, em minha opinião, de muita coisa que foi produzida. Não é um filme necessariamente fácil, por seu ritmo e conteúdo, mas não há dúvidas de que se trata de uma pequena obra-prima, tão delicada e sincera, que como disse meu amigo, não é um filme, são porções da vida, da poesia cotidiana, da que não vemos, da que é invisível aos olhos, e que Jim Jarmusch é extremamente gentil em nos ajudar a vislumbrar as pequenas fagulhas que vagam ocultas nas esquinas.
timthumb

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