Wiener Dog – Todd Solondz (2016)

wd1Todd Solondz é responsável por algumas das melhores comédias de humor negro do cinema americano contemporâneo, diretor de filmes como Bem-Vindo à Casa de Bonecas (1995) e do que talvez seja sua obra-prima Felicidade (1998), todos filmes que tocam em profundos estigmas da sociedade americana, passando por temas bastante conturbados, e neste Wiener Dog não é diferente, a viagem de um cão basset que passa pelas mãos de quatro estranhos durante 1h20, servindo com elo entre os personagens, numa história que ilustra a solidão de uma América nada parecida com a imagem utópica hollywoodiana, ao contrário, uma viagem que retrata a decadência dos ideais que foram retratados durante mais de um século pelos estúdios.

A ideia central do filme talvez esteja na frase dita por Greta Gerwig, ao dar carona para um grupo de imigrantes que quer voltar para o México, na qual ela indaga o porque deles querem votar ao México, uma vez que lá, supostamente, está um lugar tão perigoso e violento agora, e um dos imigrantes responde que sim, mas que pelo menos não se sentiriam tão sozinhos como aqui, na América, nos Estados Unidos. Existem filmes que são profundamente americanos, que embora partilhem de aspectos da existência e humanidade de outros países, possuem signos extremamente próprios e reconhecíveis, coisas como A Estranha Família de Igby (2002) Garden State (2004) e Pequena Miss Sunshine (2006), todos parecem ter uma coisa em comum, essa dificuldade de gerar conexões, ou bondage como os americanos dizem.

WIENER-DOG, Danny DeVito, 2016. ph: Linda Callerus/©IFC Films/courtesy Everett Collection

WIENER-DOG, Danny DeVito, 2016. ph: Linda Callerus/©IFC Films

Essa alienação que americano médio vive parece ser um dos maiores fatores para essa solidão cronica que assola os Estados Unidos, tanto é que  lá surge a Geração Prozac; tem até uma piada que diz que o que o futebol é para o brasileiro, a psicanálise é para o americano. E de fato esse é o retrato que vemos neste filme e em uma pancada de produções que datam desde talvez os anos 1960, jovens deslocados, sem conseguir de fato tornar-se uma engrenagem do sistema, sem empatia com suas famílias, ou as pessoas ao redor, de fato perdidos, como o cachorro basset, Wiener Dog (cachorro salsicha), que dá o título da obra.

O filme apresenta aquele humor que não faz rir, ou se há um riso é aquele riso nervoso, porque embora possa se classificar como humor  o que Todd Solondz realiza no filme, este humor tende a quase cruzar aquela tênue linha, arranhando a superfície da tragédia. É um pouco aquilo que dizemos de rir de si próprio, rir das desgraças da vida, mas ainda assim o filme deixa bem claro em tom que é um risada irônica, que na verdade estamos lidando de temáticas muito sérias com humor, uma vez que talvez o humor seja uma das maneiras mais eficazes de se chegar até estes temas espinhosos, uma vez que uma abordagem muito séria pode partir facilmente descaminhar-se para algo que não alcança a coisa de fato, ou a ultrapassa, bordeando a pretensiosidade. O humor é uma zona muitas vezes segura, onde alguns autores acabam se escondendo para não ter que lidar com a densidade de certos fatos, mas quando bem usado como no caso de Deus da Carnificina (última resenha do blog) de Polanski ou este Wiener Dog, passa a ter resultados formidáveis.

wd3Neste filme, como sempre, temos um pessimismo quase tangível; em dada cena, durante o arco do personagem de Danny DeVito, um ex-aluno deste, numa entrevista para a faculdade de Cinema onde este estudara, é indagado a respeito de qual conselho daria para os jovens estudantes, ao que ele responde: desistam, você aprende a fazer um filme fazendo. É como se antes mesmo de começar, tudo estivesse fadado ao fracasso. Para analisar isso, vamos olhar um pouco a estrutura do filme.

São quatro arcos narrativos, onde cada protagonista foi dono do cão basset. Primeiro temos um menino, e quando com ele o cão se chama apenas Wiener Dog, ou seja apenas cão basset no inglês. Depois o cão passa para uma mulher, Greta Gerwig (Frances Ha), que o chama de Doo Dee, que em inglês é cocô (como em I have to doo dee), porque quando ela pega o cão, ele está sofrendo de uma forte diarreia devido a uma barra de granola que o primeiro dono dá para ela. Depois é a vez de Danny DeVito pegar o cachorro, e então ele é um homem mais velho, com uma carreira de professor insossa numa faculdade de Cinema, e um roteirista frustrado. Por fim, uma senhora bem velha, que está já num andador, e ela nomeia o cão de Câncer.

wd2Então temos o cachorro passando por todas as fases da vida humana e numa análise mais próximas vemos que do início da vida até seu fim as coisas tendem a se deteriorar, até ficarmos velhos e sozinhos, abandonados pela família, exceto por uma neta que aparece uma vez a cada quatro anos para pedir dinheiro, e tudo que te sobra é: Câncer. Mais ao fim esta mesma senhora vai ser apresentada a versões dela de como ela seria se tivesse se casado com o verdadeiro amor, se tivesse dado mais gorjeta, se tivesse gostado de fato das pessoas; e por fora ela pouco mudou em cada uma de suas versões, mas por dentro ela sabe, apenas olhando o que teria mudado. O filme parece questionar o tempo todo as escolhas que vão nos levar de ser um menino bastante comum até se tornar num velho solitário, como é a própria América, os personagens, todos tentam se conectar em dada altura. O menino como  cachorro. A mulher com um antigo amigo. Danny DeVito está fazendo um roteiro, algo significativo, arte. A neta da velha vem pedir dinheiro para ela para que possa financiar o namorado Fantasy, que é um artista que trabalha com instalações, ao mesmo tempo que imagina que ele a trai. Numa entrevista no filme, um calouro é questionado porque ele quer fazer Cinema. Porque quer fazer arte? E ele não sabe responder. E sinceramente, como poderia? O filme indaga muito para que serve a arte, no fim das contas, se tudo está fadado a acabar com a escolha errada, esteremos perto do fim sendo encarados pelas versões do que poderíamos ter sido, e que não fomos, e nunca mais poderemos ser. As escolhas parecem todas fadadas a dar errado, mas talvez seja isso que é estar vivo, não poder controlar os impulsos, errar, mas tentar enquanto for possível se conectar com o outro, e enquanto tentarmos, ainda valerá a pena. Não vale?

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