Deus da Carnificina – Roman Polanski (2011)

d262eef1d80d28f4e5d9bd1f2b4c3ca9df493d447db27855c4606958699e93c5Eu não sabia o que pensar desse filme, deixei passar em 2011 por alguma razão,  e depois ele ficou naquele limbo das listas de Para Ver, naquelas pastas obscuras de torrents de anos atrás, e por muito tempo confesso que ele ficou por ali, legado ao esquecimento. Que arrependimento, o novo filme de Roman Polanski é um estudo sobre a moral digno de um Balzac.

Filmado entre quatro pardes, adaptando um peça de teatro homônima, Deus da Carnificina (Carnage) traz um elento estelar, com Jodie FosterJohn C. Reilly, Christoph Waltz e Kate Winslet em uma das grandes atuações dos quatro. Dois casais, aparentemente muito civilizados, resolvem se encontrar para apaziguar uma briga que houve entre seus filhos num parque. Partindo de uma premissa bastante simples, Polanski lança-se a uma profunda — e divertida — análise sobre a fragilidade do verniz social nas relações contemporâneas.

Se em um primeiro momento temos uma escritora, um vendedor, um advogado e uma, com a progressão das discussões que vão se dando no período de pouco mais de uma hora, estas máscaras vão sendo removidas. Existe essa noção de tudo está destinado a ruir, e que para tanto bastante apenas uma palavra, um gesto, um tom de voz. Os personagens bebem juntos em dado momento,  funcionando como um fator agregador por um instante, mas logo o álcool lhes sobe e serve mais como um catalizador dos desentendimentos deles. A análise se dá num microcosmos, se passando em apenas um cenário, a casa de um dos dois casais, porém, podemos sentir sem dúvida que o caso particular poderia servir como exemplo para o todo.

003Se temos no início a cordialidade, ao fim os egos vão sendo inflados, e a honra e a moral inicial que parecia ser apregoada como corolário para tais relações, vão sendo sumariamente descartadas, devido a uma risada, um olhar atravessado, uma palavra mais ríspida, e sendo progressivamente substituídas por um orgulho e mesmo um ódio inexplicável do outro. A maneira como o diretor suscita os limites das convenções sociais e sua fragilidade é feita de forma bastante sutil e acertada, transformando a pequena rixa entre os dois casais num verdadeira investigação filosófica sobre a moral humana contemporânea. Temos a personagem da Jodie Foster indignada com os caminhos que a discussão toma, o marido John C. Reilly assumindo uma posição niilista e agressiva, em detrimento da postura apaziguadora e amável ao recepcionar o casal oponente. Da mesma forma Waltz e Winslet vão revelando idiossincrasias, opiniões e atitudes que parecem ser novidade aos seus parceiros. No fim ninguém conhecendo nenhum deles, pois a essência dos personagens parece consumida e reprimida pelas convenções sociais, suprimindo o que eles de fato são, mas que exposto a uma maior pressão vem a se revelar.

002O espaço também deve ser destacado, por ser uma adaptação de uma obra de teatro com apenas uma locação, muitas vezes a coisa pode se tornar enfadonha e repetitiva, mas a forma como é abordado o espaço em cena  é brilhante, com muito bom uso da mise-en-scène e da profundidade de campo, o diretor faz parecer que a casa é pelo menos duas vezes maior do que de fato é, algo parecido com o que vemos em O Quarto de Jack (2015).

Tudo isso representado através de um humor negro no melhor estilo Todd Solondz, uma comédia sobre a hipocrisia humana, que  afinal reside em todos nós. É quase um rir para não chorar quando se pode ver tantas dos defeitos dos personagens existirem dentro de nós mesmos. Você pode até querer negar, mas no fundo se você negar estará apenas como os personagens reprimidos no começo do filme. No fim, é difícil aceitar, mas o Deus da Carnificina vive dentro de todos nós.

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