Imperador Ketchup – Shuji Terayama (1971)

Por Gabriel Dominato

1Numa primeira vez, ao assistirem a obra de Shuji Terayama, os olhares estarrecidos da platéia costumam julgar o filme como apologético à violência ou abusos sexuais. Penso estarem todos errados.

Em 1971, o mundo havia sofrido uma revolução sexual nos anos anteriores, nunca a expressão da libido fora tão propagada e estimulada. Uma nova geração se insurgira contra todos os padrões estéticos e morais da geração anterior. Proclamavam o amor livre e a paz como valores norteadores para para protestar contra o que lhes fora imposto. Em 1967 Godard filmava seu profético “A Chinesa”, mostrando acontecimentos hipotéticos que viriam a  ocorrer no ano seguinte no que ficaria conhecido como Maio Francês, quando estudantes se rebelaram em Paris reivindicando direitos. Em abril do mesmo ano, teríamos a Primavera de Praga na Tchecoslováquia. Nagisa Oshima filmaria seu mais anárquico filme: “Diário de um Ladrão de Shinjuku”, que sintetiza muito bem o período de revoltas que ocorreu no mágico ano de 1968.

3É preciso compreender tal contexto para perceber como O Imperador Ketchup (Tomato Kechappu Kōtei,1971) fora concebido e em que ânimos estava o mundo por volta dos anos 1970, quando o filme estava em produção. Terayama suscita grande parte destes aspectos, principalmente a revolução que culminou no fim dos anos de 1960, numa espécie de fábula anárquica. Num futuro não muito distante, uma espécie de regime totalitário surgiu. Em seu núcleo de governo estavam apenas crianças, que criaram um estatuto para esta nova comunidade com três mandamentos obrigatórios: 1) Os Adultos que aborrecem as crianças usando a força física ou sendo muito protetores terão o seu estatuto de cidadão removido; 2) Os Adultos que roubam os doces das crianças, que proíbem a liberdade de expressão e a sexual e que tentam impor castigos em matéria de educação, serão punidos pela pena de morte; 3) Em nome de Deus, todas as crianças aproveitarão as suas liberdades: liberdade de conspiração, liberdade sexual, liberdade para praticar sodomia e liberdade para usar a Bíblia como papel higiênico. Terayama não faz concessões de nenhuma espécie, nem no texto e muito menos na imagem. Muitos, infelizmente, veem o trabalho como apenas imagens produzidas para chocar o espectador, numa época  na qual a inventividade estava no seu auge, Imperador Ketchup poderia parecer somente mais um filme, mas hoje, com a passagem do tempo, ele ainda persiste com forças inesgotáveis, pois canalizou o espírito de sua época revolucionária.

2No início uma emblemática frase de Karl Marx “Se a base do Capitalismo fosse o prazer ao invés do dinheiro, ele ruiria em suas próprias bases”. É nesta estrutura que funciona esta nova sociedade instituída pelos infantes, regida pelo prazer e pela vontade, na qual qualquer ameaça a estas são gravemente punidas. Estão em plena harmonia com suas libido e liberdade e estão confortáveis com seus corpos, sem pudor (quase nunca estão vestidos ou estão seminus). Este é um fator importantíssimo no cinema anarquista de Shuji Terayama, e pouco compreendido pelo publico em geral. O diretor faz um estudo,  não apenas neste filme mas desde seus primeiros curta-metragens em meados dos anos 70, assim como em seu grupo teatral o Tenjo Sajiki, sobre o nu. É um cinema de corpos e anatomia, onde as genitálias são mostradas com a mesma intenção de uma boca, as imagens sem nenhum pudor, estilizadas para uma cartografia anatômica, em que poucas cenas o nu conota sexualidade. No cinema de Terayama a nudez está associada tanto à ingenuidade como à libido, portanto é de grande importância entender os momentos em que o diretor trabalha com tal, afinal Terayama considera a sexualidade algo completamente comum – que de todo realmente o é – e está intimamente ligada ao ser humano, está na condição de humano ser um animal sexual, logo veremos muitas cenas onde o nu estará associado ao natural e ao erótico indistintamente.

4No tocante da trama, o “Imperador”  é uma criança que vive com várias concubinas adultas, pintadas de maquiagem branca – fato recorrente na grande maioria das obras de Shuji Terayama – com batons vermelhos e cabelos negros que suprem ao Imperador todas as necessidades da carne. Porém desta sociedade regrada pelo prazer e vontade, emerge uma espécie de fascismo, as crianças tem atitudes agressivas contra adultos, arrastam corpos por meio das ruas, matam animais sem propósitos de alimentação, o que nos leva a questionar até onde a completa liberdade é de fato, positiva. Se queremos ser livres, devemos ter em mente que carregaremos uma fardo pesado e constante, pois cada decisão tomada será mais grave em relação as tidas em uma sociedade onde a vontade é privada  e  os prazeres são limitados ou então reprimidos.

Terayama satiriza estas ações, onde o poder totalitário corrompe absolutamente, numa frase ao fim da película “Se você tem um bigode pode conquistar o mundo”, satirizando alguns dos grandes ditadores que o mundo já viu e criticando a liberdade inconseqüente. Outra critica pertinente é do isolamento do Imperador de seus súditos, que vivem nas ruas em situações terríveis, enquanto ele se desfruta com suas concubinas. Embora livres, os súditos do Imperador não tem os mesmos privilégios que este.

2A fotografia de Imperador Ketchup é algo a parte. Filmando com filtros muito diferentes dos convencionais, Terayama cria uma atmosfera onírica, onde coexistem tons rosados e roxos, e por vezes apenas matizes e semblantes contra um branco de alto contraste, como se nos fosse apresentado um outro mundo, uma hipótese. Acompanhado de uma trilha cacofônica, misturada com música clássica de Tchaikovsky e Liszt, somada a barulhos e ruídos estranhos, formando ainda uma atmosfera mais densa pela banda sonora experimental e anárquica.

O fato é que Imperador Ketchup realmente choca à primeira vista, independente dos quarenta anos de sua realização, e geralmente tal choque vem associado a uma aversão do espectador. Creio que isso ocorre porque não estamos acostumados a ver tamanha liberdade, mesmo hoje, tantos anos depois, em uma tela de cinema, ou mesmo  na vida real, ainda somos moralistas como a geração que criticava o filme nos anos 1970. Muitos lutaram por essa liberdade máxima de expressão, porém ,em suma, é o próprio ser humano, nu de tudo, de todos seus tabus e máscaras, que de alguma forma ainda não conseguiu aceitar tal liberdade quando manifestada em seu extremo, como está cexposta no filme de Terayama. As cenas não causam menos choque hoje do que causavam antes, com homens, mulheres e crianças nuas, entregues a todos os prazeres, seja o sexo ou a violência, guiados somente pelo desejo e nada mais, prontos para expressarem-se de forma livre e gritada. Nós ainda temos muito medo e pudor quanto a tudo isso, preferimos falar sussurrando entre quatro paredes. Atitudes que a obra de Shuji Terayama não tem, muito pelo contrário, ela grita a pleno pulmões e se expõe sem nenhum medo de qualquer consequência.

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