Que Horas Ela Volta? – Anna Muylaert (2015)

Por Thiago Vieira

1aÉ comum ver cinemas lotarem em exibições que contam com a presença de atores, diretores ou outros membros da equipe responsável pelo filme em questão na sala. Mas e quando se trata do próprio personagem? Não é muito comum que um personagem se projete em meio à audiência e reaja à interpretação artística de sua própria realidade. “Assistir Que Horas Ela Volta?” numa sala de cinema frequentada pela classe média alta de sua cidade pode ser uma experiência surpreendente, justamente pela presença de várias “Bárbaras” (A personagem da recentemente revelada Karine Teles. Uma patroa cujo elitismo intrinsecamente subliminar nas micro-relações sociais aflora e escancara-se ao longo do filme).

1bA plateia reconhece Val, a personagem da talentosíssima (e sempre subestimada) Regina Casé. Não é à toa. Val cuidou de todos quando crianças e hoje cuida de seus filhos. Trabalha para a família há décadas, e já é (quase) membro da mesma. Val abdicou momentos importantes com sua família real e instantes cruciais para o amadurecimento de seus filhos para cuidar da ceia de natal daqueles patrões que sempre a trataram tão bem (e sempre a presentearam com um farto peru). Val, infelizmente, é produto de uma sociedade elitista, patriarcal e racista, regida pelos ideais de seus patrões. “Que Horas Ela Volta?” denuncia a alienação exercida sobre as milhares de Val ao redor do país, e vai além disso: O filme compra a luta dessas mulheres, defende sua liberdade e dignidade, transmitindo uma mensagem urgente.

1dA personagem de Camila Márdila, outra brilhante revelação, é simplesmente genial. Jéssica, mulher, nordestina e pobre, é a ferramenta que Anna Muylaert usa para promover a libertação da própria mãe. A personagem traz à tona o sentimento de superioridade e preconceito presente no pensamento das classes mais altas, nos momentos em que é considerada boçal e subversiva apenas por não se apassivar em frente ao tratamento inferiorizante reservado à ela e sua mãe. Jéssica foge da já tradicional (e intragável) figura do branco abastado e altruísta que surge comodamente para trazer iluminação aos oprimidos. O filme cospe no retrógrado (mas intrínseca e implicitamente presente nos roteiros de Hollywood) “White Men’s Burden” e o resultado disso é sensacional.

Apesar de ser regido pela simplicidade, sem extravagâncias visuais ou divagações filosóficas inseridas no diálogo, o filme aborda de forma contundente e corretíssima dezenas de temas que permeiam a discussão política e social do Brasil contemporâneo. A importância do acesso ao ensino superior por todas as camadas da sociedade, o machismo, incluindo a fetichização da mulher jovem e negra, a situação de segregação das empregadas domesticas e, principalmente, a cegueira quanto a todos esses fatores.

1cA surpresa vem quando percebe-se que as Bárbaras distribuídas pela plateia alienam-se completamente contra as críticas expostas no filme e abstraem qualquer potencial de desconstrução contido na obra. Uma parte do público parece insensível às situações vexatórias que uma relação patrão-empregada extremamente abusiva provoca durante o filme, gargalhando quase de forma sádica das humilhações implícitas e explicitas às quais a personagem de Casé é submetida, assemelhando-se ao público de alguma comédia vulgar qualquer. Cenas chocantes viram motivo de chacota, provando a precisão das críticas da obra.

O filme é essencial para qualquer um que queira entender, de forma contextualizada, as relações sociais do país. Junto com o documentário “Doméstica” organizado recentemente por Gabriel Mascaro, temos um combo perfeito. Enquanto as entrevistas realizadas pelas próprias crianças e adolescentes das casas abrem um panorama cândido da vida das empregadas domesticas, relatada por elas mesmas, o talento de todos os envolvidos em “Que Horas Ela Volta?” se vale da ficção para contextualizar tudo isso em nossa própria realidade. As duas películas carregam, além do tema, uma coisa em comum: Um realismo profundamente sincero.

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Uma resposta para Que Horas Ela Volta? – Anna Muylaert (2015)

  1. Alan Raspante disse:

    O filme é ótimo mesmo. E espero que chegue a indicação de Melhor Filme Estrangeiro no próximo Oscar. Força pra isso ele tem!

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