Interlúdio – Alfred Hitchcock (1946)

Por Thiago Vieira

475_posterHitchcock é daqueles diretores que dispensa apresentação, tanto entre cinéfilos quanto entre apreciadores casuais da sétima arte. Não é fácil, entretanto, escrever sobre sua obra. Seus medos, fantasias e obsessões se entrelaçam nas entrelinhas de seus filmes de forma sutil e silenciosa. Cada Hitchcock está conectado não só pela maestria técnica de sua direção, mas pelos temas subjetivos repetidos obsessivamente, como motivos imersos em diversos movimentos de uma sinfonia. Interlúdio, obviamente, não se distancia disso.

Interlúdio é um suspense noir estrelado por Ingrid Bergman e Cary Grant. Bergman é Alicia Huberman, filha de um agente duplo nazista condenado nos tribunais americanos pela sua traição. Suas relações passadas e uma gravação onde declara seu patriotismo, levam o governo americano a recrutá-la, por meio do tradicionalmente Hitchcockiano agente Devlin, para uma missão que envolve espionar nazistas refugiados no Rio de Janeiro. Previsivelmente, os protagonistas se apaixonam e a tensão das dificuldades da missão passa a se confundir com a turbulência causada por esse romance.

notorious-still-teacupsFilmado apenas um ano após a Segunda Guerra, o filme aproveita o clima de desconfiança da época para causar suspense, mas a questão dos nazistas foragidos dificilmente pode ser considerada um tema central. Comunistas, mafiosos ou qualquer outro grupo de “inimigos públicos” poderiam funcionar muito bem como substitutos, o que nos leva a perceber que esse plano de fundo é apenas um recurso de roteiro. O mesmo utilizado por Orson Welles em seu thriller O Estranho (também de 1949). Outros recursos como esse também aparecem ao longo do filme, como o popular “MacGuffin” (Elemento da história que aparenta motivar o protagonista, mas que, ao final, pouco importa), que aparece aqui como a substância química encontrada na adega do antagonista.

notorious-policeOutro elemento deixado em segundo plano é a própria cidade do Rio de Janeiro. Com sua beleza exuberante, a cidade habituada a encantar estrangeiros e a protagonizar os filmes que a escalam, é aqui apenas um recurso exótico do roteiro, se deixando admirar de forma tímida ao longo da película. A mise-en-scène, todavia, não deixa de ser interessante. A mansão e quartel general dos nazistas é grandiosa e carregada de estilo, representando com precisão a suntuosidade daqueles que estavam acostumados com o luxo da preponderante elite nazifascista.

4113_005914O filme é repleto de planos interessantíssimos para a carreira de Hitchcock, extremamente precisos e elegantes. Tudo no filme é preciso e elegante, afinal. A direção de Hitchcock é conhecida pela minúcia no trato dos aspectos visuais. Seu mais famoso plano, que se inicia mostrando de cima o salão onde ocorre uma festa e termina com um close na mão de Ingrid Bergman, que segura a chave da adega, onde os protagonistas descobririam o segredo nazista, carrega uma sensibilidade arrebatadora e extremamente necessária para o gênero de suspense. A cuidadosa utilização de closes para forçar a atenção do público aos elementos importantes da trama influenciou outros grandes diretores de suspense, como o norte-americano David Fincher (que praticamente só utiliza seus closes com essa intenção).

18845180.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxA elegância dos planos e da mise-en-scène se vê completa pelo charme dos protagonistas. Ingrid Bergman e Cary Grant representam perfeitamente seus papeis, não sendo à toa seu reconhecimento como grandes astros do cinema. O expressivo Claude Rains, como o antagonista Alexander Sebastian, também atua de forma brilhante. Sem o nível de excelência dos três seria impossível conduzir o tenso triângulo amoroso que culminaria em um dos finais mais simbólicos e emocionantes de Hitchcock. A escada representa, para Huberman e Devlin, a liberdade e a concretização de seu romance, enquanto, para Sebastian, sua desgraça. Cada degrau transposto pelos personagens aumenta a tensão da cena. O desespero do antagonista ao encarar as indagações de seus vingativos comparsas frente à situação estranha e sua consciência de que aquele será seu final criam um desequilíbrio capaz de congelar o público, eletrizado.

Também é interessante ver como, em plena década de 40, o filme lida com sexualidade. Nada é explicitado, mas sabemos exatamente o que acontece. Hitchcock dribla com sutileza o conservadorismo do cinema da época. Outra questão que pode ser observada é a misoginia arraigada no pensamento da sociedade. Alicia é constantemente acusada de devassidão e promiscuidade, inclusive pelo seu par romântico, devido ao seu estilo de vida liberal. A personagem é, em diversos momentos, desqualificada e vítima de comentários desagradáveis por parte dos personagens masculinos.

cary-grant-e-ingrid-berman-em-interlc3badioInterlúdio pode ser listada entre as maiores obras de Hitchcock, apesar de não ser tão única quanto Um Corpo que Cai ou consagrada como Psicose. O filme cumpre com louvor seu papel e supre as expectativas propostas, diferente de muitos filmes atuais do gênero. Não há quem possa questionar sua importância para as carreiras de Hitchcock, Grant e Bergman, sendo simplesmente essencial para os fãs do mestre do suspense.

5a

Anúncios

Sobre sokoisdead

Apenas um cinéfilo.
Esse post foi publicado em Cinema, Cinema Americano e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s