Divertidamente – Peter Docter e Ronaldo del Carmen (2015)

Por Gabriel Dominato

365361.jpg-r_160_240-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxA animação é uma mídia que possuí uma série de vantagens frente o chamado cinema liveaction. Uma delas é a virtual infinidade de possibilidades. Diferente de um cinema com atores, no campo da animação o universo a ser criado possuí muito mais liberdades. Primeiro porque o orçamento não muda muito com mais ou menos cenografia, com mais ou menos atores, em teoria, é a equipe de animação que irá realizar tudo, de forma que o orçamento para um mês de animação é muito mais constante do que um mês de filmagens reais.  De uns anos para cá porém, essa possibilidade ilimitada de criação não parecia estar fazendo muito efeito para a indústria, de forma que haviam mais sequências sendo feitas e ideias novas pareciam esgotadas. Com Divertidamente, parece termos uma reversão deste cenário.

IMG_0588A premissa do filme é genial: iremos perscrutar a mente de um menina de 11 anos pela ótica de seus sentimentos. Então temos a antropomorfização de seus sentimentos. A ideia é que a felicidade, a raiva, a tristeza e o nojo e o medo sejam pessoas (dentro da mente da menina, numa sacada metalinguística brilhante da Pixar), com personalidades atenentes aos estereótipos que representam. Claro, até ai, filmes com premissas brilhantes costumam sair com certa frequência, e os que frustram essa mesma premissa no desenvolvimento do filme não dá para contar no dedos. Mas ai reside o triunfo do filme, ele não funciona apenas como ideia, mas foi perfeitamente traduzido para as telas.

Pixar-Inside-Out-Trailer-2-5A forma como o estúdio encontrou para traduzir a formação da memória faria Freud sentir inveja de tamanha didática. Talvez fique mais claro aos adultos as transformações dadas ao fim de certos eventos chaves em qualquer vida, mas é certo que as crianças também conseguem sentir a sacada. Claro, tem aspecto de filme infantil, é todo colorido e fofinho, desde a personificação das emoções até os cenários, mas o roteiro tem uma profundidade muito boa, tal qual um Vida de Inseto havia uma análise crítica da exploração da classe operária pela classe dominante, mas que no filme a crítica era bastante sutil, em Divertidamente se tem uma séria análise dos eventos da vida humana e os efeitos deles para o amadurecimento. É claro que quem já passou por isso que irá ter a grande sacada do que o filme representa, embora ele possa ser visto pelo espectador como apenas mais uma aventura fofinha da Pixar.

divertidamente2A animação em si não se tem o que comentar, é o que todos já viram e gostam da Pixar (embora eu pessoalmente acho que os personagens dentro da mente da menina sejam por demais infantilizados, ainda se tem que relevar interesse de atingir  uma amplitude de públicos). É bem executada em todos os sentidos, desde a cenografia à trilha sonora que acompanha as cenas, neste departamento muito provavelmente todos que se interessem por animação irão se sentir gratificados.

divertida-mente-002O roteiro porém é o que merece destaque. Temos a pequena Riley, de 11 anos, que tem seu universo todo despedaçado quando o pai precisa mudar a família de cidade em virtude de negócios. Com o afastamento da sua cidade natal, sua amizade é afetada, e é mostrado de forma que dentro de sua mente exista um ilha da amizade, que começa a ruim. Durante o filme, várias outras, em virtude dos problemas que Riley passa. Mas a grande aventura em si se passa dentro de sua mente, onde seus sentimentos lutam para trabalhar em conjunto para salvar a saúde mental da menina.

É um prazer a parte ver Felicidade e Tristeza interagindo entre si, como uma metáfora para as oscilações tão presentes na vida, mas que de fato é uma elucidação de conceitos psicológicos com uma didática das mais simples. Em dada altura do filme, nos pegamos indagando como foi possível tamanha criatividade, porque são tantos momentos em que se fazem analogia de interações entre essas personificações das emoções e os efeitos práticos na vida real de Riley. O resulado obtido é louvável, e faz o título original Inside Out fazer um pouco de falta, embora convenhamos que, apesar de óbvio, o título nacional é um bel trocadilho.

Ouso dizer por fim, que ao menos para mim, Divertidamente se tornou o melhor filme da Pixar, me fazendo sentir emoções que só sentira há muitos anos no lançamento do primeiro Toy Story. É tudo muito bem executado, e o roteiro levar a Pixar onde ela ainda não havia ido. Sei que muitos de seus filmes agradam crianças e adultos, mas nesse filme em especial, ela conseguiu um novo patamar.

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Sobre sokoisdead

Apenas um cinéfilo.
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Uma resposta para Divertidamente – Peter Docter e Ronaldo del Carmen (2015)

  1. Novamente a Pixa acerta em um filme com uma grande carga de emoção e que propõe reflexão. Belíssimo.

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