Mad Max – George Miller (1979)

Por Gabriel Dominato

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George Miller tem uma grande versatilidade, passando da animação (Happy Feet) ao drama (O Oléo de Lorenzo) até a ficção distópica de Mad Max, que é provavelmente seu melhor filme. O ano era 1979, mas a crise energética já era anunciada pela comunidade científica. Mas de fato, sempre se soube que o combustível fóssil era finito e que em breve iria acabar. O filme se inicia em um breve futuro – que para nós, agora no século XXI, é ainda mais breve – onde todo o combustível do mundo está para acabar, sobrando escassas reservas para abastecer a demanda de todo o mundo. Claro, não supre. Bandos de forasteiros então começam a formar gangues que, além de destruição desenfreada, caçam as ultimas reservas de combustível que existem. Neste primeiro filme isso não ficaria tão claro quanto na continuação que viria em Road Warrior, em 1981. Max é um policial que combate as gangues do asfalto, mas que decide se aposentar após um terrível acidente com um de seus colegas de trabalho.

m4Todo o pano de fundo de Mad Max se resume a isso, e nos outros filmes não vão além: combustível e conflito entre duas tribos opostas. Em vários aspectos isso poderia ter sido um problema dos mais graves enquanto narrativa que, embora sirva muito bem como metáfora para vários momentos da história americana e suas guerras motivadas pelo petróleo estrangeiro – hoje talvez o filme assuma uma postura política ainda mais acirrada do que na época. É preciso fazer justiça ao filme, apesar de seu roteiro ser aparentemente bastante básico, resguarda subtextos dos mais relevantes. George Miller dirige uma obra formalista com uma precisão das mais acertadas do cinema americano. É notável o preciosismo de Miller em todas as sequências pelas estradas, reproduzindo com rara habilidade as perseguições infindáveis entre Max e as gangues.

m7Mesmo Mel Gibson, que nunca foi um ator de grandes atuações, dentro da condução do diretor, funciona perfeitamente bem dentro do contexto. No ambiente quase pós-apocalíptico – que no segundo filme estaria todo ali – encontramos atuações das mais surtadas, em meio a uma certa violência sarcástica que remete à de Alex deLarge e seus droogies em Laranja Mecânica (1971), criticando de forma aguçada o absurdo dos conflitos que ocorriam do lado de fora das telas. É preciso ficar atento, pelo roteiro, para não se ater a uma visão superficial que possa remeter a uma violência gráfica desnecessária. Apesar deste não ser o mais violento dos filmes da franquia, é o que mais se justifica pela utilização da violência enquanto recurso narrativo.

E se temos todos estes elementos que funcionam tão bem em separado, o grande trunfo do filme é a união de tudo isso na montagem. A técnica utilizada para montar o filme imprimiu uma noção absurda de ritmo, fazendo sua breve hora e meia parecer uma experiência ainda mais curta, porque o tempo parece fugir do espectador, desde a primeira cena, e se mantém até a última sequência. Não existem momentos de vácuo narrativo ou oscilações, todo o excesso é cortado, de forma que o que se obtém no final é de uma concisão poucas vestes vistas em termos de ritmo – como exemplo, poderia citar Whiplash (2014), que possuí um estilo de montagem que se assemelha em ritmo. As junções escolhidas para formar as cenas se utilizam de takes e inserts precisos, que adicionam pungência à cena final, como por exemplo antes de uma colisão, vemos por um breve instante, quase rápido demais para os olhos, o rosto em close up com olhos arregalados de um personagem, resultando na sensação de que o carro passa por cima abrindo toda a cabeça deste, ainda que na cena vemos apenas um boneco cênico se despedaçando ao longe, quase imperceptível, a impressão que ocorre ao espectador é agoniante.

É necessário destacar um cena m5brilhante em especial que ilustra a maestria de George Miller na condução: alguém morre, mas não se vê uma única cena de violência. A cena é cortada e apenas um sapatinho caí no chão e uma bolinha saí rolando. Nós sabemos a tragédia, sem vê-la. Max então corre em desespero na direção da tragédia, mas a câmera não se aproxima. Podemos ver os corpos caídos, mas não os identificamos. Porém, Max caí de joelhos. Tudo fica claro, e nada precisa ser mostrado. É uma aula de cinema em menos de um minuto.

Ao contrário de uma grande quantidade de filmes de orçamentos milionários, o filme de apenas 350 mil dólares de George Miller permanece atual em forma e conteúdo até hoje, e ainda causa espanto o quão longe o diretor conseguiu chegar com o pouco que dispunha, alguns atores que na época não eram sequer conceituados (Mel Gibson ainda estava no seu segundo filme), e meia dúzia de carros velhos e modificados. É um daqueles filmes que um diretor novato vê e percebe que o que ainda manda na indústria é a criatividade sobre qualquer coisa. Com o decorrer da franquia a qualidade foi decaindo, agora ela volta em 2015 com Road to Fury, aguardemos se consegue obter o frescor do primeiro e recuperar o fôlego que perdeu em Além da Cúpula do Trovão.

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