A Noite Americana – François Truffaut (1973)

n0Ver A Noite Americana (1973) é para quem, como considera personagem Ferrand acha o cinema maior que a vida, uma experiência de deleite. Feito em bases similares do que mais tarde, em 1982, Wim Wenders faria seu O Estado das Coisas, ao narrar uma equipe de produção de um filme e as dificuldades de se produzir o produto final que vemos na tela. Narrado com doce sarcasmo, Truffaut apresenta o set de filmagens de A Chegada de Pamela, um romance típico de Hollywood, melodramático e leviano, mas ao contrário, com a metalinguagem bem humora que o diretor opta para abordar a história gera no espectador uma experiência memorável. Hollywood também foi uma das razões do término da amizade mítica entre Truffaut e o amigo de longa data Jean-Luc Godard. Ao término de A Noite Americana Truffaut recebe uma carta de tom bastante ríspido de Godard, condenando sua concessão em dirigir um filme em Hollywood, alegando que teria se vendido ao establishment. Truffaut responde com uma longa carta em mesmo tom. A amizade finda-se ali.

É fato que A Noite Americana, apesar de ser um belo filme, é mais convencional que outros filmes de Truffaut, ângulo e montagem são mais convencionais, mas o espectador sente que é um filme do francês, os personagens, a encenação está tudo ali, quando o personagem de Jean-Pierre Léaud diz sua primeira fala, é como se ouvíssemos Antoine Doinel reverberando pela tela, embora talvez em uma versão mais imatura. O filme é carregado como sempre de uma visão muito particular de Truffaut e semi-biográfica.

n5É curioso o fato, mas compreensível, que as filmagens do filme em si sejam uma tragédia. O personagem de Truffaut diz em dado momento que filmar um filme é como uma volta diligência no Velho Oeste, onde você espera que seja uma boa viagem, mas quando no meio desta, apenas deseja que ela acabe logo. Mais tarde comenta ainda que o diretor faz planos de se fazer um bom filme, e no meio das filmagens, torce para somente possa termina-lo. Isso sumariza muito do filme, que aliás, o título diz referência a um efeito do cinema em que se filma durante o dia com um filtro para que na tela se pareça noite, efeito que seria utilizado no filme fictício que estão realizando. Acompanhar a jornada na tentativa da equipe realizar o filme é uma incursão ao amor pelo cinema de Truffuat, e apto a aflorar o do próprio espectador, abarcando os mais diversos aspectos necessários em uma produção, como a escolha do diretor por cenários, cenografia e vestuário, a contratação de atores, responder uma infinidade de perguntas, sem mal ter tempo de pensar, e apesar de ter uma visão pessimista da profissão apesar de suas dificuldades, ainda assim a metalinguagem do filme denota um senso muito grande de amor ao ofício, como diz informa o personagem do produtor certa hora “Imóveis é que dão dinheiro, se estou nessa área é por amor”.

Nada é muito excepcional em A Noite n3Americana, ou talvez seja um filme excepcional, mas parece pouco porque estamos vendo uma obra de François Truffaut, um dos mais revolucionários renovadores da linguagem do cinema nos anos 60, diretor que trouxe efervescência ao lado de Godard na cena francesa do cinema ao levar a câmera para as ruas e filmar in locus ao invés da construção de cenários falsos. Talvez seja isso que falte no filme afinal, vemos Truffaut fazendo um elogio ao cinema, mas é ao cinema de estúdio, e não ao cinema de rua, de câmera na mão e improvisos no qual o conhecemos e pelo qual o amamos. Para o espectador ocasional, sem essa ardente paixão que o cinéfilo carrega pelo cinema, poderá parecer até um filme bastante comum, mas apesar de qualquer pesar, Truffaut apresenta essa máquina de construção de sonhos de forma tão apaixonada e tão sincera que não há como, nos rendemos como se ele estivesse fazendo uma tomada nas ruas da França entre algum improviso de momento de Jean-Pierre Léaud.

nn4Por outro lado, é louvável a Truffaut se arriscar tanto, ir gravar em outro sistema de produção, em outro país, fora de sua zona de conforto, e ainda assim produzir uma obra com sua assinatura tão visível e evidente, seu senso de humor e sua alma se presentifica o tempo todo e em certas partes quase acreditamos ser um documentário sobre o diretor na produção de um de seus filmes, uma vez que ele interpreta a si mesmo, tal qual aparece em entrevistas e outras gravações, sempre sério, mas simpático e polido ao mesmo tempo, uma figura amável de olhos fechados mas gentil. É uma boa forma de se lembrar deste sujeito incrível que dirigiu alguma das grandes obras da Nouvelle Vague, ainda que todos lembremos dele pela saga de Antoine Doinel, esta é outra que persevera o tempo, porque acima de qualquer coisa, é um registro de um amor atemporal que Truffaut tinha pela sétima arte, como ele diz certa hora “Pessoas como nós só somos felizes no trabalho”. E em cada frame deste filme se nota.

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