Filmografia #2 – Bela Tárr

Por Gabriel Dominato

b1No documentário I Used to be a Filmmaker (2013), um dos assistentes de produção de Bela Tárr diz “Com Bela Tárr é sempre difícil”, sorri, mas reitera, cada filme era muito difícil. O resultado é uma das obras mais coesas da história do cinema. Diretor húngaro, discreto, reservado, decidiu que em 2011 faria seu último filme e se aposentaria. Venceu mais prêmios que foi indicado, sendo 19 ganhos e 6 em que foi nomeado. Seu cinema é de um rigor tamanho que representa um desafio na feitura e quase sempre também ao espectador, pois seu ritmo se aproxima da vida, lento, o tempo realmente passa nos filmes de Bela Tárr, não existe suspensão, ao contrário, ele indica e quer que você olhe, olhe com atenção, se desarme de conceitos e veja simplesmente o que está na tela.

Dirigiu um curta metragem, uma trilogia e adaptou Shakespeare para TV, já demonstrando o talento quase sobrenatural que tem para com a imagem, a manipulação do tempo – cronológico e climático – e a direção de atores amadores, dos quais costuma extrair atuações dignas de qualquer grande ator/atriz do século. Apesar de gostar de trabalhar com atores amadores, durante toda sua carreira manteve vínculos estreitos com vários de seus atores, como é o caso de Erika Bók, que faz a pequena Estike em Sátántangó (1994), Henriette em O Homem de Londres (2008), que fora adaptado do escritor francês Georges Simenon, e também participa como uma das protagonistas de O Cavalor de Turim (2011), o qual até o momento consta como seu último filme, e segundo o diretor, garante ser o último, por razões que serão debatidas no decorrer deste artigo. Outro ator que sempre colabora com Tárr é Vig Mihály, o também talentoso compositor, que trabalhou com o diretor por 23 anos. Além, há 28 anos trabalha em conjunto com sua esposa Ágnes Hranitzky. Porém, sua carreira parece despontar como uma das mais significativas do cinema em 1988, quando inicia parceria criativa com László Krasznahorkai, e juntos escrevem Danação. A parceria funciona tão bem que escrevem juntos até por 25 anos, geralmente adaptando obras de Krasznahorkai.

bbNascido em 1955 na Húngria, Bela Tárr é um dos maiores diretores da chamada era pós-comunista do leste europeu, e talvez do mundo. Seu cinema questionou a essência do homem e narrou o homem com apenas sua essência, além dos horrores do regime soviético e os problemas  da burocracia na transição do comunismo para o capitalismo. Em 1978, quando inicia a carreira com Hotel Magnezit, e na trilogia posterior, Bela Tárr realiza falsos documentários ou mesmo filmes semi-documentais, às vezes se utilizando do sarcasmo na narrativa, outras da crueza das imagens – aspecto que mais tarde seria utilizado em todos seus maiores filmes –, mas sempre revelando as dificuldades de conviver neste regime comunista de transição. Ali um dos grandes temas de Bela Tárr já era prenunciado: a vontade de partir e sua impossibilidade. O mesmo tema seria revisitado em todas as outras obras de sua cinematografia, junto com o tédio da vida no desolamentos das planícies húngaras. Aqui ainda existe um humor, porque há o sonho de partir, que embora se saiba impossível, ou quase, ainda existe uma fagulha de que talvez, um dia, se possa abandonar aquele cenário. Mas a melancolia está lá, a tristeza está lá, a vontade de ir embora também, elas só aumentam no decorrer de sua obra, exceto talvez a vontade de partir, que com o aumento da tristeza, os sonhos se desvanecem, e se percebe que o partir é uma loucura impossível, então se chega em uma condição ainda mais essencial, existencial por vezes, que é o homem jogado contra sua própria essência, ao pouco que fato é perante o estado das coisas, tão simples e frágil como os animais que andam sem rumo no início de Sántántangó.

b2Em 1984 Bela Tárr realiza Almanaque de Outono, uma de suas primeiras incursões em cores, a qual ele tem preferência pela iluminação surrealista, e cores deslocadas, nada de realismo. Embora destoe do resto de sua obra em estética, câmeras fixas e cores, além de cortes, o que é impensável no decorrer de sua carreira com seus infindáveis planos-sequência; Aqui pode-se definir como o marco inicial de um ciclo que ocorrerá em todos seus longas. Primeiro, temos um microcosmo, uma família completamente disfuncional, que por fraternidade não seria definir como tal, mas que por povoarem a mesma casa e manterem relações podemos talvez usar este nome, embora seja errado. Ninguém jamais sai daquele lugar, tem-se a impressão, e quando saem, a câmera fica dentro da casa, jamais vemos o exterior, porque de fato existe aquela vontade de sair, de partir, mas ela não está acontecendo, o personagem está apenas ausente do quadro, mas ele não pode sair do contexto que está inserido. Tárr explora as relações conturbadas de um grupo de pessoas desvinculadas com tudo, que tem apenas um interesse em comum, o dinheiro da dona da casa. Aqui já fica claro o quanto a transição destes dois momentos históricos causa problemas nas relações sociais. A história progride como um pesadelo, as cores não nos deixam encarar aquilo como a própria vida, talvez um prelúdio, algo que veria. Tudo dá errado, mas é claro, é Bela Tárr, é necessário que se dê errado, a tragédia humana é matéria prima de suas obras. Ocorrem eventos chocantes ao final, mas ao término do filme, estas coisas aparentemente parece inevitáveis. Um filme brilhante, e um início de uma lógica que irá conduzir todo o cinema de Bela Tárr.

b3É em Danação porém que Bela Tárr e Laszlo Krasznahorkai iniciam um trabalho que é seminal e desestruturante ao espectador. Porque, aquele que ousa parar e ver a obra de Tárr só tem a opção de permanecer sem chão após vislumbrar as desventuras do protagonista, realmente amaldiçoado. Como toda a população de personagens de Bela Tárr, vaga sem rumo, talvez no primeiro plano ou no que é obrigação, na satisfação da fome ou na bebida, estupor para enfrentar o tédio cotidiano. As tramas em Bela Tárr geralmente não representam nada, leia-se as histórias de fundo, o que importa nestas histórias é apenas a forma como isso impulsiona os personagens e os fazem interagir entre si. Aqui retornam temas como amor, um amor distorcido e violento, e a vontade de partir. Porém, ao invés da casa, agora temos a rua, a cidade, o tamanho de seu escopo aumenta. Aqui as características que iriam predominar em sua obra já aparecem, algumas não tão extremadas como seriam nos anos seguintes, mas já basta claras: o trabalho descomunal e rigoroso com que trabalha o preto e branco, os longos planos-sequência e uma exemplar manipulação do tempo. O estudo da pobreza, a melancolia e tristeza dessa terra árida se inicia aqui, e é iniciante notar que um dos assistentes de Tárr em depoimento fala que essa visão da pobreza, do condenado é o seu diferencial, enquanto outros diretores optam por explorar uma estética que se aproveite dos elementos da problema, Bela Tárr os utiliza de forma neutralizada por tomadas de grande lirismo e poesia, o que não deixa o espectador cair no dramalhão de sentir pena pela pobreza do indivíduo, mas ao contrário, tem uma conexão, porque são ambos humanos, e na fronteira final, nada além disso, conceito que fica claro na cena da invasão do hospital de As Harmonias de Werckmeister, onde, perante um velho nu, frágil, despido de tudo que não sua essência humana, os individos, instigados a praticar violência pelo príncipe – alguns consideram referência a Hitler, embora Bela Tárr sempre disse odiar símbolos, que nunca havia feito alegorias em seus filmes – se viram, e vão embora. É um êxito sem tamanho, vence o France Culture Award em Cannes por melhor direção estrangeira, e daí sua carreira só obteve picos de brilhantismo.

b4Os trabalhos de Bela Tárr são de um rigor extraordinário, lembrando o que citamos sobre todos seus filmes serem difíceis de se realizar. De 1988 a 1994 fica sem filmar longas, passando apenas por um documentário e um curta-metragem, e quando se iniciam as filmagens, levam-se mais 6 anos para concluir a obra, mas que obras, é nada mais nada menos que Sátántangó, um épico do cotidiano com 7h30 que relata a transição de um pequeno grupo de agricultores para o capitalismo, decidindo vender sua pequena fazenda e partir. Novamente o tema do dinheiro entra, e é claro, a ambição também se faz presente, alguém tem a ideia de ficar com todo o dinheiro para si. Uma casa, um indivíduo em uma cidade, agora um grupo de pessoas em uma pequena fazenda, o escopo aumenta. Agora Bela Tárr tem vários tipos de pessoas com quem lidar, e o faz de forma maravilhosa, vários atores retornam, fazem as melhores atuações de suas vidas e algumas das melhores do século XX. A cena inicial do filme, conforme referido no início, são literalmente 10 minutos de vacas saindo do curral e perambulando pelo pasto morto, a esmo, sem rumo, sem destino, e é talvez uma das analogias mais fortes do filme, uma vez que ilustra a postura dos personagens de Tárr perante o mundo, e não apenas neste filme, mas em todos os outros de sua filmografia a contar de 1994. As sete horas e meia de Sátántangó conferem uma potencial quase inédita no cinema, se equiparando a romances seminais como A Montanha Mágica de Thomas Mann ou Ulysses de James Joyce. O filme é tão monumental que é dividido em 3 partes, para que possa ser feita a troca de rolos, intervalos, e o espectador possa brevemente esticar o corpo, mas quem sobrevive à experiência única que o filme proporciona possivelmente não volta a experienciar a realidade da mesma maneira, há algo que nos toca de forma incontornável, não se pode esquivar do efeito catártico da obra. Tanto é que a pensadora e escritora Susan Sontag certa vez disse que ficaria feliz de poder vê-lo uma vez por ano pelo resto de sua vida. Não é uma tarefa fácil, mas altamente recompensadora. Venceu o Caligari Film Award no Festival de Belim, mas não muitas vezes foi projetado durante sua existência, uma vez que a mesma gera uma demanda de tempo da sala ocupada e de disposição de público, mas é certo, que quem teve a sorte de ver tal obras, jamais pode pensar o cinema, e talvez mesmo a vida, da mesma forma.

b5São mais 6 anos sem filmar de 1994 até 2000, quando vem As Harmonias de Werckmeister, que sintetiza tudo apresentado na carreira de Tárr, não de forma tão intensa quanto de Sátántangó, mas ainda assim primorosa, narrando uma noite da vida do jornaleiro e astrônomo amador Valuska, que entre sua jornada de buscar os jornais e entregar cada um deles, transita por uma alegoria da Húngria e o jugo militar da qual sofria. Sonhador, por vezes até tolo, Valuska transita como um fôlego, a sensibilidade, talvez a arte que ainda exista, pela cidade. Então temos a casa com um grupo, a cidade com dois indivíduos, depois uma fazendo com um grupo, e agora uma cidade e um grupo ainda maior, e é importante relembrar este detalhe porque em Sátántangó as pessoas ainda tinham sonhos de fugir daquela vida com o dinheiro que tramar para roubar, mas em Werckmeister, o único que parece ainda acreditar nas coisas é Valuska, que confrontado com uma baleia, se rebela contra deus, o criador da enorme baleia que chega no circo. Mas o circo ainda assim é a arte, a baleia parte dele, porém, em dado momento ele encara a baleia e a recrimina pelo quanto de problemas ela criou. Aqui se faz uma livre interpretação do final trágico de Valuska, sua recriminação à baleia e os fatos que ocorreram no filme O Cavalo de Turim em 2011 fazem crer que a arte também cria problemas, porque ela faz acreditar que é possível partir, que existe um sonho, e que é possível realiza-lo, iniciar uma nova vida, um novo lugar, mas apenas Valuska acredita nesta ideia em Werckmeister, e no último filme de Bela Tárr esse sonho nem mesmo existe, não é que não acreditem na ideia de partir, nem se deseja mais, tão desiludidos se encontram com o estado das coisas, então, nesse estado tão árido, onde só há vento e melancolia, e a luta pela sobrevivência, de que serviria a arte. Parece que Bela Tárr levanta esse questionamento da serventia da arte, e não é à toa que após realizar O Cavalo de Turim, decide que não fará mais filmes. Talvez porque a arte muitas vezes não serve de nada, e outras tantas talvez crie mais problemas que soluções. É algo a se pensar.

b6Sete anos depois, em 2007, Bela Tárr adapta um romance de Georges Simenon. É notável a capacidade do diretor em desconstruir narrativas para debater os temas a que se propõe. O Livro que adapta, título homônimo, O Homem de Londres, é uma simples história policial com o qual Bela Tárr consegue isolar completamente para fazer sua análise, que dialoga diretamente com os temas já passados, em especial o conflito gerado pelo dinheiro, tal qual Sátántangó e Almanaque de Outono, porém, aqui a forma como o dinheiro se insere é outra. É interessante notar que Bela Tárr conta ao invés da perspectiva do detetive Maigret, como é no romance, mas pela visão do homem que toma para si o dinheiro do crime que Maigret está investigando. O detetive de fato aparece poucas vezes na trama, mas nem sua presença nem o crime de fato é capaz de quebrar a imobilidade e estática daquele povoado, parece que estão todos paralisados e ali nada mais é possível. Em das ultimas cenas do filme, algumas pessoas se recusam a aceitar este mesmo dinheiro, e um outro personagem coloca os envelopes contendo maços em seus bolsos contra suas vontades. A crítica é sutil mas inequívoca. Neste Homem de Londres ecos de toda a carreira do diretor são encontrados, vemos os bêbados de Sátántangó que dançam um tango ao redor do bilhar madrugada a dentro, o garçom que aparece também em Sátántangó e As Harmonias de Werckmeister. Até a trilha em momentos remete a filmes passados, embora com ligeiras modificações. O escopo da obra de Bela Tárr parece querer se fechar novamente, são menos personagens e pela primeira vez a narrativa segue uma trama aparente, embora o diretor o faça somente na intenção de estudar o drama humano, que chega ao auge quando uma das personagens, em um longo plano sequência, chora em frente da câmera, mas sem mover um musculo do rosto, é quase um milagre, e não é a primeira vez que encontramos esse nível de atuação nas obras do húngaro. O crime é resolvido, o inspetor vai embora, e tudo segue estático. Mesmo após 37 anos de carreira, Bela Tárr não parece cometer um único deslize em sua carreira, criando mais uma obra, rigorosa como todas as demais e melancólica como todas as outras.

b7Então tudo acaba, e de fato acaba, em O Cavalo de Turim, de 2011, o qual Bela Tárr fecha sua filmografia – tinha mesmo vontade de enterrar a sua câmera nas planícies onde filmou o filme como espécie de funeral. Aqui é uma casa e dois indivíduos, o escopo volta ao inverso agora, e também ao contrário, os ambientes fechados que pareciam guardar mais sonhos ao início da carreira são os que agora não revelam mais nenhuma sequer, a vontade de partir não mais existe, nem se pensa nela. Um pai e uma filha e a necessidade de conseguir cozinhar suas batatas para se manterem vivos. Não há mais a possibilidade nem do sonhar, nem das palavras, pouco se fala, é uma tempestade e simboliza um apocalipse simbólico, que se dá com o fim da água no poço, o que leva ao fim comerem as batatas cruas, e por fim nem mesmo querosene resta, o lampião se apaga, e só resta o som do vento. O filme parece encerrar uma série de questionamentos iniciados em 1994, e que a resposta por fim é negativa. O filme é dotado de uma grande desolação, um senso de impossibilidade, até o pai tem um dos braços paralisados, a filha que prepara as batas começa a lidar com a falta de água, e o que resta quando acaba tudo, quando se está na fronteira humana onde se fica despido de tudo, de sonhos, de ideias, de vontades, ficando restrito às necessidades biológicas prementes. Há como viver quando não se existe mesmo a possibilidade de sonhar um lugar melhor? Para Bela Tárr, aparentemente, não.

Bela Tárr comenta que um dos pontos que o levou a desistir de gravar é que um dia ao voltar da Alemanha para as regiões onde gravara Sántántangó quase 20 anos atrás, não vivia mais ninguém, todos haviam partido. Seu tema desde o início era o desejo de partir, a sua impossibilidade, mas no entanto, seu povo havia saído daquelas planícies, as mesmas das quais os personagens de O Cavalo de Turim sempre observam, porém nunca ultrapassam. Uma vez que não sobrara mais ninguém ali, a razão de se filmar se perdeu, mortos ou partidos, não sobrava mais ninguém, não havia mais razão de se filmar. Deixa assim uma das obras mais coesas de todo o cinema como legado, a progressão e desenvolvimento no decorrer de cada um dos filmes segue uma lógica admirável, uma coerência ideológica e que pulsa e grita nas imagens de seu cinematografista Fred Kelemen, no que eu costumo chamar de atmosfera inequívoca, onde, por serem as imagens dotadas de uma potência tão absurda no sentido do que querem produzir, não há como o espectador passar isento de seu efeito, então ver a filmografia de Bela Tárr é como sentir por um momento toda a aridez, melancolia e tristeza deste povo tão simples, tão pobre, mas que, como afirma o próprio diretor, é humano, muito humano. Talvez, ainda mais que um brilhante realizador Bela Tárr tenha sido algo muito mais importante e muito mais raro: um grande humanista.

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