Artigo #1 – Cold Fish – Shion Sono (2010)

Por Frank Vilar
(contém spoilers)

c1Shion Sono é um dos expoentes da nova onda do cinema oriental, que trouxe à tona no circuito comercial, principalmente por conta de remakes feitos nos Estados Unidos, o chamado “J-horror” (cinema de horror de origem japonesa) e o “cinema de gênero” atual de origem oriental. Esta nova geração de cineastas teve seu primeiro grande sucesso em Cure (1997), dirigido por Kyoshi Kurosawa, que deu passagem para o estouro internacional de – hoje clássicos – ótimos filmes de horror, como O Chamado (1998, Hideo Nakata), Audition (1999, Takashi Miike) e a franquia Ju-On (principalmente o de 2002, “The Grudge”, dirigido por Takashi Shimizu), e que também ajudou a dar visibilidade à nova onda do cinema da Coreia do Sul, com o lançamento do, provavelmente, mais importante neo-noir desde Chinatown (o filme de 1974, de Roman Polanski): Oldboy (2003, Chan-wook Park). Sono, que já filmava desde o fim dos anos 80, teve seu primeiro destaque em 2002, com o lançamento de Suicide Club (aqui no Brasil saiu como “O Pacto”), e desde então despontou como um dos mais prolíficos e exitosos cineastas do Japão. Os filmes de Sono, de uma maneira geral, lidam com o bizarro, e mantêm muitas vezes uma atmosfera onírica, onde se misturam sonhos, alucinações e a realidade concreta (que muitas vezes não é tão concreta assim).

Cold Fish é um exemplar do tipo de horror que Shion Sono faz. Um cinema que descende diretamente de Seijun Suzuki (principalmente no uso das cores para compor os quadros), Teruo Ishii e Yûji Makiguchi (no uso da violência extrema, sadismo e tortura para incomodar o espectador). Um filme relativamente obscuro, mas muito bem feito, produzido e construído, como é de costume no cinema nipônico em geral, e no trabalho do diretor Shion Sono, que ao lado de Takashi Miike e Kyoshi Kurosawa, é um dos grandes nomes da atualidade no cinema japonês.

c2Lançado em 2010, no Festival de Veneza, Cold Fish foge um pouco desse padrão onírico dos filmes do Sono, sendo um dos mais ligados ao “retrato fiel da realidade” da carreira do diretor. É baseado em diversos crimes reais, sendo a principal fonte de inspiração o caso do famoso dono de canil Gen Sekine e sua esposa Hiroko Kasama, que juntamente com um sócio, Nagayuki Yamazaki, em 1995, envenenaram, desmembraram e desossaram a um homem chamado Akio Kawasaki, como parte de um esquema de estelionato¹.

O roteiro foi escrito a quatro mãos pelo próprio diretor Shion Sono (que na época ainda assinava como Sion Sono) e o ilustrador e designer-gráfico Yoshiki Takahashi. Ambos são membros do grupo Sushi Typhoon, um selo de filmes “gore” (filmes ligados à violência explícita) do estúdio Nikkatsu, que é um dos mais tradicionais do cinema nipônico. É o terceiro filme produzido pelo selo, que foi fundado em 2010.

O filme começa com uma mulher (a atriz Megumi Kagurazaka, que aparece em vários filmes do diretor e é esposa dele) fazendo compras de maneira desleixada em um supermercado. Ela joga na sua cestinha vários pacotes de comida pré-cozida. Toda ação é pontuada pela edição, que combina os cortes rápidos da montagem com as batidas da trilha musical inicial. Um pouco antes disso, logo após os créditos do estúdio, um letreiro com as palavras “A Sion Sono film”, com fundos que alternam rapidamente as cores vermelho, azul, rosa, amarelo e verde, aparece. Mais para frente explicarei porque essas cores são importantes.

c5Nesta cena inicial, grandes letras brancas, também seguindo a música, vão aparecendo enquanto a ação vai se desenrolando (a mulher preparando no aparelho de microondas o que trouxe do supermercado, o cenário é uma cozinha pequena, de aparência médio-classista). As letras dizem que “este filme é baseado em uma história real”. A mulher serve a refeição, e sua expressão facial é de tédio. Após alguns cortes rápidos mostrando isso, a música para e vemos três pessoas sentadas a uma pequena mesa redonda, de tampo de madeira, no centro desta cozinha. O som é apenas o do ambiente de cena. Esta é a mesma mesa onde a mulher preparou tudo. As pessoas são a mulher do início, um homem (o ator Mitsuru Fukikoshi) e uma garota mais jovem (interpretada por Hikari Kajiwara). Então o filme nos situa do local onde se passa a ação: bairro Saeki 1-3-2, Fujimi, Shizuoka, no Japão, na Loja de Peixes Tropicais Syamoto. As pessoas comem arroz com “hashis” (pauzinhos) distraidamente, de forma que demonstre o tédio da situação encenada. Ninguém conversa entre si, todos estão de alguma forma compenetrados na atividade de comer, cada um aparenta estar com a cabeça bem longe. A garota lê uma revista, enquanto os outros dois olham para os seus respectivos pratos. A montagem continua com cortes rápidos, não tanto quanto os da abertura, e permanece assim durante todo o filme, acelerando ainda mais nos momentos de maior tensão. Esta montagem dinâmica faz o filme ter um ritmo de filme de ação, ele não se prende a longas tomadas em nenhum momento. O trabalho de montagem é de Jun’ichi Itô, que faz parte da equipe de Sono e esteve em todos os filmes mais recentes do diretor. A equipe como um todo é composta por usuais colaboradores de Shion Sono.

A câmera fecha em cada personagem na mesa, de modo que suas faces se tornem visíveis para o espectador. O celular da menina toca, logo após isso a câmera volta para o rosto do homem, que põe na face uma expressão de desaprovação, mas tímida. Uma voz de homem é ouvida do outro lado da linha quando ela atende. Diz que a está esperando do lado de fora da loja. Agora tudo isso já sugeriu que se trata de uma família, composta por uma figura paterna, uma figura materna e filha adolescente. A garota sai de cena apressadamente, sem terminar o jantar. São mostradas imagens dela caminhando por dentro da loja, acendendo as luzes e aos poucos mostrando os corredores cheios de aquários, que são um pouco escuros. Isso sugere que a família trabalha e mora nos fundos de seu pequeno estabelecimento.

c10A garota sai da loja, e na cena externa percebemos que a ação toda se passa à noite. Ela, mesmo tendo saído o mais rápido possível da mesa, pede desculpas, “por fazê-lo esperar”, ao garoto que a aguardava do lado de fora, encostado em um carro esportivo vermelho. Um jovem de cabelo moicano loiro e jaqueta branca, com golas levantadas. Eles se beijam e a cena volta para a cozinha, de onde é possível se ouvir o som do carro dando partida. Os pais não falam nada, apesar das expressões faciais denotarem de que não gostaram do que acabara de acontecer, principalmente o pai. Logo depois, a mãe recolhe a mesa e coloca os pratos na lavadora. A câmera se aproxima do visor do aparelho de lavar pratos, mostrando a água enxaguando tudo.

Na cena que acabei de descrever vemos uma das muitas tomadas de câmera na mão, um recurso que reforça o aspecto “documental” que se fará presente no desenvolver da história. Por mais absurdas que algumas situações pareçam, e talvez por se tratar de um filme baseado num fato real, a maneira como isso é posto na tela tenta tornar tangível, ou seja, tornar crível ou “palpável” o que está sendo mostrado. A câmera na mão será usada em diversas cenas de Cold Fish, principalmente nas que envolvam violência. Este é um recurso usado muitas vezes no cinema de Shion Sono, mesmo em filmes que não lidem tão fortemente com o real.

Após isso vemos o casal assistindo à televisão na pequena sala de estar. A câmera de movimento passeia em um corte rápido por um pequeno corredor, mostrando todo o ambiente minúsculo da casa onde eles vivem. O homem tenta uma aproximação sexual com a mulher, que o repele dizendo que Mitsuko (a filha) pode voltar a qualquer momento, se levanta e sai de cena.

Há um corte para um close-up do rosto do homem, que vomita numa privada que fica praticamente off-screen. Ele termina de vomitar, aciona a descarga, mas volta novamente ao ponto inicial, em mais uma torrente de vômito. Ele acaba, pega um pouco de papel, limpa o rosto e a tampa do toalete. Enquanto o homem se limpa ouve-se o som do telefone tocar em outro cômodo. Um corte rápido mostra a mulher fumando fora de casa, em frente à loja, enquanto cai uma chuva torrencial. O homem atende o telefone na cozinha, e fica alarmado com o que ouve. Chama a mulher, Taeko, para sair, pois Mitsuko está com problemas. Enquanto se preparam para ir, o homem consola Taeko, que olha fixamente para a mesa de jantar. Ele diz pra ela que “não é culpa dela” (o que tenha acontecido com Mitsuko).

O modo como as personagens do homem e Taeko se relacionam denota uma relação fria entre ambos. E esta fala dele para ela mostra que há algo de ruim entre ela e Mitsuko também. Sem descrições, apenas por atitudes, o roteiro, atuações e edição em conjunto retratam uma família desgastada por problemas. Mesmo que não conheçamos ainda quais sejam eles, é importante destacar a maneira como estes três aspectos se congregam para sugerir isso ao espectador. E isso só é reforçado pela próxima cena, onde vemos um carro seguindo por uma pista em meio à chuva e somos informados da data onde a ação se passa: 19 de janeiro de 2009, segunda-feira, às 21:11. O filme conta o tempo dessa forma, para mostrar a velocidade com que as coisas que veremos durante o seu decorrer acontecerão.

c3O carro anda ao som da trilha, um piano tocando uns poucos acordes melancólicos. Dentro do veículo, o casal ao qual fomos apresentados. O homem e Taeko, que mal se olham, à caminho de onde quer que estejam indo. Ele está tencionando falar algo, mas guardando para si. Eles chegam ao estacionamento de um supermercado. Parado lá só um carro, uma Ferrari vermelha, que o homem observa enquanto ambos caminham para dentro do estabelecimento. Eles passam por todos os corredores e se dirigem aos fundos, na área restrita. Um pouco antes de entrarem, são observados por um homem de mais idade (interpretado por Denden) – que posteriormente se revelará como uma personagem-chave.

O som de uma bronca severa enquanto o homem olha pelo vidro da porta de uma sala. Um homem, que supomos ser o gerente do supermercado, grita com Mitsuko, que está ao lado dele, ambos sentados a uma mesinha de madeira com várias mercadorias espalhadas por cima. Ela está cabisbaixa, mas com uma expressão de empáfia, não de humildade ou arrependimento. O homem entra e pelo suposto gerente sabemos que seu nome é Sr. Syamoto (o nome da loja de peixes). Syamoto e Taeko – ela sempre calada – fazem uma reverência pedindo desculpas ao gerente pelo comportamento da filha, porém ele responde que isso não é suficiente, e os convida para que se sentem ao lado dele para resolverem a questão, já que a garota seria reincidente. Ele diz, muito nervoso, que vai chamar a polícia, e enquanto o Sr. Syamoto argumenta para que não faça isso, vemos o homem mais velho que estava parado nos corredores de compras entrar, e acalmar o Sr. Masuda (o gerente). O próprio homem, que se chama Sr. Murata, informa que foi ele quem denunciou a garota à gerência, e tenta apaziguar a situação, falando que a menina não repetirá mais o ato. Então começa a falar que comprou um pirarucu de 2 metros, Masuda se empolga com o assunto, e Murata pergunta a Syamoto se ele também vende peixes tropicais. Murata acaba conseguindo passar panos quentes em cima do roubo e convida a família de Syamoto para fazer uma visita à sua loja de peixes.

c6Às 22 horas, todos – Syamoto, Taeko, Mitsuko e Murata – saem do supermercado. A chuva ainda é muito forte. Murata então convida todos para irem à sua loja, àquela hora. Todos ficam estarrecidos quando veem que ele é o dono da Ferrari estacionada. Os carros seguem ao som da trilha melancólica em direção à loja de peixes Amazon Gold, chegando lá às 22:20. Murata explica empolgadamente sua filosofia de trabalho e mostra seu estabelecimento com uma alegria quase infantil. Ele corre, pula, dança ao som de uma música havaiana. Todos parecem estar muito interessados no que ele fala e mostra. Todos extremamente gratos pelo que ele fez por Mitsuko. Enquanto todos passeiam pela loja, que é enorme e bem organizada, a esposa de Murata, Aiko, aparece e se apresenta para todos. É importante perceber que quando os donos da Amazon Gold não estão em cena, a família Syamoto volta à postura inicial de não se falarem, de parecerem desconfortáveis, e esta postura muda para algo mais alegre quando eles voltam. Murata oferece amizade, quer continuar em contato e diz que foi o destino que fez com que eles se encontrassem. Syamoto tenta falar com sua esposa e filha, mas não obtém resposta, e quando Murata volta, brinca com elas e Syamoto percebe uma atitude positiva por parte de sua família para com o velho brincalhão, a câmera vai fechando lentamente no rosto de Syamoto, acompanhada por uma trilha pesada, que sugere um homem que guarda para si pequenas irritações. Percebemos que Syamoto começa a ter inveja de Murata. Após isso, há um corte um flashback de Mitsuko espancando Taeko e dizendo que ela não é sua mãe, perguntando quem ela pensa que é. Esta lembrança é de Syamoto, que observa ambas rindo e se divertindo com Murata. Neste momento o velho oferece emprego para Mitsuko, e pede para que Syamoto aceite que ela se mude para a loja. Ele explica que tem mais 6 funcionárias jovens como ela, e que todas recebem e trabalham muito bem. Todas vivem no alojamento, afinal, segundo ele, jovens não podem ficar em casa à toa. Syamoto escuta com um pouco de perplexidade no olhar. Murata então explica que já tinha isso em mente, e quando prometeu ao gerente do supermercado que Mitsuko pararia de roubar era pensando em contratá-la para trabalhar na Amazon Gold. Depois disso, pede para que seja levado à Loja de Peixes Syamoto, para que também possa conhecê-la. Às 22:55, todos saem – ainda chove – e seguem de volta para a loja de Syamoto. Murata pede para que Mitsuko venha com ele na Ferrari, enquanto sua esposa Aiko seguirá com os outros. No carro, a garota explica que Taeko não é sua mãe biológica, que morrera há três anos. Ela reclama que seu pai teria se casado imediatamente após a morte da esposa. Enquanto isso, Aiko conversa com Syamoto e Taeko no carro da família. Diz que seu marido é agressivo e intrometido demais. A trilha melancólica volta a tocar. Syamoto diz que Murata não os incomoda, que parece ser um bom homem. Aiko gargalha em um tom sarcástico ao ouvir isso.

Quando chegam à pequena loja de peixes, às 23:22, Murata mais uma vez toma as rédeas da situação e vai apontando e perguntando tudo. Vê acima dos aquários mapas de constelações, e Syamoto explica que seu hobby é olhar as estrelas e ir ao planetário em Fujino, acompanhado por Taeko, pois tem interesse por astronomia. Murata imediatamente convida Aiko para ir lá também, ambos se abraçam e falam de forma carinhosa, dando a entender que entre eles há uma relação mais intensa, contrastando com o atual estado de coisas entre Syamoto e Taeko.

Quando o casal vai embora, imagens da casa de Syamoto são mostradas, mais uma vez ao som da trilha incidental melancólica. Mitsuko e Taeko dormem profundamente, enquanto Syamoto olha para o teto, divagando sobre o universo. Imagens de um céu estrelado são sobrepostas, num corte suave, às do teto do quarto ao som de uma narração que será ouvida mais de uma vez durante o filme, que diz “a Terra, nosso planeta azul, surgiu há 4.6 bilhões de anos, e dizem que daqui a 4.6 bilhões de anos não haverá mais vida na Terra”. Superpõe-se às imagens das estrelas novamente o rosto de Syamoto, que agora está sentado numa poltrona, como uma poltrona de cinema. Está no planetário de Fujino, e ao seu lado estão Taeko e Mitsuko, conversando pacificamente com ele e entre si, elogiando sua loja de peixes. Uma valsa feliz toca, enquanto há um outro corte suave, mostrando a família Syamoto observando um aquário, sorrindo entre eles, abraçados. A suavidade dos cortes é para denotar que tudo não passa de um sonho do Sr. Syamoto. Sua fantasia ingênua. A valsa feliz aos poucos se mistura com acordes mais pesados e sobre a imagem da família que sorri aparece em letras garrafais vermelhas o título do filme: COLD FISH (em japonês).

c8Este longo primeiro ato, de mais de 21 minutos, serve para desenvolver as personagens e a ambientação. Todas as características deles que são importantes para que nós entendamos (ou para que mais para frente nos surpreendamos com) suas atitudes são postas em cena nestes minutos iniciais. O filme constrói sua narrativa através de sugestões, portanto o espectador deve ficar atento às atitudes das personagens e elementos de cena para que possa pegar toda a história. Através desse prólogo percebemos que Syamoto é um homem acovardado, sem iniciativa, prosaico e passivo. Taeko é uma mulher insatisfeita com seu marido, e apenas tolera a situação em que vive. Mitsuko é uma adolescente rebelde, que não aceita o novo casamento de seu pai e tenta descontar essa raiva que sente dele agindo de forma que contrarie a ele e sua madrasta. Murata é um homem “bom demais para ser bom”, e seu jeito invasivo e irritante não é por acaso. Aiko é uma mulher cínica, e o tempo inteiro dá mostras disso quando está em cena.

As cores que aparecem logo no início do primeiro ato serão elementos fortes na composição cinematográfica dos quadros. Elas – vermelho, azul, rosa, amarelo e verde – representam cada personagem aqui descrita até agora. Vermelho, Murata; azul, Syamoto; rosa, Aiko; amarelo, Taeko e verde, Mitsuko. Quando cada uma dessas personagens aparece como centro da ação, falando, algum elemento de cena, seja grande ou um detalhe, estará com sua cor correspondente. A fotografia do filme se utiliza desse recurso para montar quadros bastante coloridos e vivos diante da tela, sendo poucas as vezes em que a imagem se preencherá de tons de cinza.

Mitsuko enfrentará na Amazon Gold uma rotina militarizada. Isso é sugerido através da trilha sonora, uma marcha de tambores, e por um detalhe do tom de voz de Aiko na primeira cena após o prólogo. No entanto o filme se focará em sua maior parte do tempo no Sr. Syamoto. A trilha sonora varia entre o solo de piano melancólico, músicas irônicas – como a valsa do sonho de Syamoto ou a marcha militar na cena da loja – e peças pesadas (às vezes também irônicas, que no clímax tomam conta) nas cenas de violência e tensão. O diretor Shion Sono usa de humor negro em diversos momentos, e o trabalho musical de Tomohide Harada, responsável pela trilha sonora, se encaixa perfeitamente neste tom, juntamente com a edição de som de Hajime Komiya.

Cold Fish retratará aos poucos como a inveja, as provocações vindas de todos os lados e, por fim, o ódio, transformarão o pacato e praticamente inofensivo Syamoto num brutal e frio assassino. Nenhuma personagem do filme, vale ressaltar, escapa à definição de psicopata. Todas acabarão mostrando isto em algum momento.

Mitsuko fica feliz por se ver afastada do pai e da madrasta e se irrita todas as vezes em que Syamoto a procura na loja. Taeko acaba sendo seduzida por Murata, e isto servirá no fim como mais um motivo da transformação de Syamoto, já que Murata acabará revelando isto numa cena-chave, no ultimo ato, que desencadeará um clímax bastante violento.

A maneira como a história se desenha, principalmente na forma como Syamoto parte da passividade à agressividade e pelo jeito como Taeko cede ao abuso sexual de Murata são referências ao filme Sob o Domínio do Medo (1971, Sam Peckinpah) e esta referência é feita inclusive em um dos cartazes do filme (figura abaixo).

11082679_344246265786423_2146864906_n

(Cold Fish) (Sob o Domínio do Medo)

Murata acaba se revelando um golpista rodeado de cúmplices: sua esposa, seu advogado – chamado TsuTsui – e o motorista do advogado, Okubo. Syamoto é usado num golpe que envolve um senhor chamado Yoshida, que acha estar entrando numa negociação de peixes com Murata, que oferece a ele um peixe amazônico por um valor absurdamente acima do normal e traz Syamoto para a negociação para dar mais credibilidade ao golpe, já que Syamoto também é negociante de peixes. Yoshida acaba sendo envenenado durante a conversação, e Syamoto é levado por Aiko e Murata para uma cabana numa floresta, isolada de tudo, para que lá se livrem do corpo dele. O casal se diverte enquanto esquerteja e desossa o defunto, horrorizando Syamoto, que está muito assustado com a situação toda. O tempo continua sendo contado através de dias, horas, minutos. Em apenas três dias Syamoto passa de uma vida “pacata” para estar envolvido em um homicídio brutal. Os ossos de Yoshida são queimados num barril no quintal da cabana, as cinzas são espalhadas pela floresta e pequenos pedaços do corpo são jogados num riacho, para serem comidos pelos peixes.

A família de Yoshida tem ligações com a Yakuza (a máfia japonesa), portanto Murata é obrigadoa juntamente com todos os seus cúmplices e Syamoto – este a contragosto -, a bolar uma história que convença os bandidos que eles não tiveram nada a ver com o sumiço do homem. Syamoto é ameaçado o tempo inteiro por Murata, que lembra a ele que tem sua filha sob custódia e pode fazer o que quiser quando quiser. Murata é sádico, e sempre se aproveita para provocar Syamoto de todas as formas possíveis.

TsuiTsui tem a intenção de trair Murata, e mantém um caso com Aiko. O advogado assedia Syamoto para que se junte a ele para derrubar o dono da Amazon Gold, mas acaba caindo numa emboscada armada pela própria Aiko, que assassina o advogado e seu motorista Okubo. Um detetive da polícia entra em contato com Syamoto, e diz que Murata é responsável pelo sumiço de várias pessoas. O detetive pede colaboração, mas Syamoto se acovarda e teme pela vida de sua filha.

Mais uma vez, Syamoto é levado por Aiko e Murata à cabana para se livrar dos corpos de TsuiTsui e Okubo. A maquiagem, o “gore”, é bem realista e a violência em cena é explícita. Um trabalho que preza pelo realismo, realizado por Yoko Kinebuchi e Yoshihiro Nishimura, responsáveis pelos efeitos especiais.

Neste meio tempo, todas as aparições de Taeko e Mitsuko são para demonstrar que o desprezo que ambas sentiam por Syamoto só cresce e cresce. Elas não estão cientes dos assassinatos. Durante a desova dos cadáveres, Murata provoca Syamoto para que transe com Aiko na caçamba do carro onde levaram os corpos. Syamoto tem o seu óculos quebrado por um golpe de Murata (referência ao filme do Peckinpah). Murata discursa, enumera todos os fracassos do Sr, Syamoto, bate nele, conta tudo o que fez com a Taeko, explica o quanto é poderoso por desafiar a máfia, a polícia e quem mais queira se meter no caminho dele. Ele quer despertar o ódio em Syamoto. Quer que o homem fique agressivo, bata nele também, tome algumaatitude violenta. Após várias provocações, Syamoto começa a bater nele, porém o ódio que sente é tamanho que ele desaba, chorando copiosamente, como uma criança. Depois disso, Murata o empurra para que transe com Aiko, que o masturba até que ele consiga uma ereção. Enquanto é literalmente empurrado por Murata para penetrar a mulher, Syamoto encontra uma caneta no casaco jogado ao lado de ambos. O velho entra no carro para olhar por outro ângulo a cena de sexo, e se espanta quando Syamoto apunhala o pescoço de Aiko com a caneta esferográfica. No momento seguinte, Syamoto também apunhala Murata e este é o ponto de virada da personagem. Enquanto sangra, Aiko observa o ataque extramente brutal de Syamoto ao seu marido, que desfalece muito ensaguentado por conta de várias punhaladas feitas com uma caneta. Aiko, que tambem está ferida e sangrando, gargalha enquanto vê o marido ser assassinado.

Aiko promete total submissão à Syamoto, que ordena que Murata passe pelo mesmo procedimento que as outras vítimas após eles seguirem de volta para a cabana. Syamoto diz que tem outros assuntos a resolver.

Syamoto segue até a Amazon Gold e arrasta a filha para o carro para levá-la de volta para casa, sob os olhares espantados dos clientes e funcionárias da loja de peixes. Eles voltam para casa, e violentamente o marido obriga Taeko a preparar e servir o jantar para todos. Taeko olha para Mitsuko sem entender tanta brutalidade. Enquanto eles comem, o garoto que liga para o celular da filha de Syamoto no primeiro ato do filme volta a telefonar e a chama novamente para sair. Syamoto tenta impedir que ela vá, mas Mitsuko no mesmo instante segue para a frente da loja, onde o rapaz a espera. Syamoto acaba espancando ambos, e arrastando a filha desafalecida para dentro da loja de novo. Depois disso ele volta para a mesa, termina de comer, e arrasta Taeko para a sala, onde a estupra em frente à filha desmaiada.

Após bater e deixar ambas desmaiadas, Syamoto segue de volta para a cabana, onde Aiko está desmembrando Murata. Lá ele a espanca, batendo com uma imagem da Virgem Maria na cabeça dela. Eles lutam, e Aiko acaba levando uma facada no estômago e se arrasta para morrer ao lado do corpo esquartejado do marido. Syamoto telefona para o detetive de polícia que falara com ele antes, contando tudo o que ocorrera até agora e dizendo para que siga até a floresta. A polícia entra em contato com a família de Syamoto, que também segue para o local. Lá, Taeko tenta abraçar Syamoto, mas também leva uma facada do marido na barrigae cai desacordada no chão, provavelmente morta. Chegou a vez de Syamoto de acertar as contas com a filha Mitsuko, mas diante dela ele corta o próprio pescoço e cai no chão, sangrando. Mitsuko observa o pai morrer e gargalha de felicidade, ao som de uma valsa alegre, como no sonho do fim do primeiro ato. Sobrepõe-se suavemente sobre o close-up nos olhos moribundos de Syamoto, que tem o corpo inteiro lavado em sangue, a imagem do planeta Terra, azul e belo, diante do espaço estrelado que ele tanto admirava. Todas as ações do climax e do fim se passam no dia 31 de janeiro de 2009. São 12 dias de uma viagem que vai de um “céu” hipócrita de pessoas frias e falsas a um “inferno” de sádicos violentos e sem sentimentos.

Em Cold Fish, Sono trabalha e subverte o clichê do “homem-comum” que encontra a redenção para seus sofrimentos através da violência, presente no aqui mesmo referenciado Sob o Domínio do Medo (Dustin Hoffman como o matemático que se vinga de seus “bullies”) e em outros filmes como Desejo de Matar (Charles Bronson matando bandidos pela cidade depois de ter a família brutalizada) e outros vários exemplos, até mesmo do cinema oriental recente (como no chinês Um Toque de Pecado, de Zhangke Jia, de 2013). Sono faz com que esta “violência redentora” acabe também atingindo a sua personagem-central, mas mesmo assim este fato não altera o contexto no qual vivia antes desses atos violentos (a filha de Syamoto gargalha diante da morte de seu pai, ou seja, ela continuaria o odiando independente da postura que tivesse diante da vida). O diretor brinca com o sadismo do próprio espectador, coisa que nestes filmes citados também acontece, mas ao mesmo tempo frustra as expectativas com sua conclusão irônica. Tenta assim, diferenciar sua história das demais do mesmo tipo. A esperança, a “virada na vida”, pode não trazer nada. Pode trazer apenas mais sofrimento. A felicidade pode não depender muito do que você faça da sua vida. Depois de um certo ponto, inclusive, ela pode nunca mais voltar.

Nota 1: Mais informações sobre o caso real podem ser lidas no seguinte link (em inglês) http://migre.me/oD1U1.

c7

Anúncios

Sobre sokoisdead

Apenas um cinéfilo.
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s