Boyhood – da infância à juventude – Richard Linklater (2014)

Por Gabriel Dominato

001Richard Linklater (Waking Life, Trilogia Before, O Homem Duplo) é sem dúvida um diretor inovador e inventivo. Em seus quase 30 anos de carreira Linklater passou pela comédia, pelo drama, investiu em técnicas novas como a rotoscopia, se aventurou pela ficção científica e outros, trazendo em cada uma destas empreitadas um êxito, algumas mais que outras. Em Boyhood, trouxe algo que parecia inovação, mas não era.

Boyhood narra a história de Mason, por 12 anos, de criança a adolescente, quase chegando a ser adulto. O filme de 3 horas narra momentos cotidianos que contribuíram na formação da personagem dentro deste grande lapso temporal. Esta foi a inovação aparente que o filme trouxe, lhe rendendo indicações a vários prêmios e acarretando em um base de espectadores que o consideraram o melhor filme do ano. Não que a proposta não seja brilhante, mas em 1994 até 2013, ou seja 19 anos, o diretor contou a história do casal Jesse e Celine, com lapso temporal real, mostrando o relacionamento dos namorados com os mesmos atores. Boyhood pode ter feito isso em apenas um filme, enquanto a história de Jesse e Celine comportou três filmes, mas isso não isenta o fato de que Linklater repetiu a fórmula de sua aclamada trilogia por mais uma vez.

002A proposta, ainda que não original não exime o brilhantismo do filme, de muitas formas Boyhood é um ótimo filme, possuindo roteiro e direção pontual, com atores que respondem bem ao processo tão longo, em atuações como da vencedora do Oscar de 2015 por melhor atriz coadjuvante Patricia Arquette e no já antigo parceiro criativo de Linklater, Ethan Hawke, que sustentam o filme inteiro. O problema surge em Boyhood quando olhamos o filme de forma isolada. Enquanto o conjunto revela um esforço tão grande, os 12 anos de execução pesaram tanto nos critérios de avaliação, que se deixa de analisar sob a ótica do micro. E diferente de filmes que concorriam com ele, como Birdman ou Whiplash, em que as partes isoladas eram tão boas quanto o todo, Boyhood não se sustentaria enquanto uma produção convencional.

003Na direção não encontramos nada de ousado, todos os ângulos, enquadramentos, nada é muito inovador, é uma direção bastante convencional a bem da verdade, como, aliás, boa parte dos filmes de Linklater, ele nunca foi um grande diretor de cenas, muito mais diretor de elenco, sempre encontrando sua força no ator e no roteiro, em especial nos diálogos, coisa que é mestre e isso pode ser visto em Boyhood. O roteiro porém aqui não é consistente como em projetos anteriores. Temos, claro, as agravantes de que em 12 anos não é possível trabalhar com um roteiro tão fechado vez que tudo depende da disponibilidade de todos os envolvidos, mas sendo esta uma escolha do diretor, passamos a analisar como uma decisão tomada conscientemente, e por conta disso, encontramos um roteiro um tanto mediano, sobre o drama suburbano de uma professora solteira que se casa com dois alcoólatras, causando um drama não muito convincente para o pequeno Mason. A figura do professor universitário alcoólatra, que toma vodka com Sprite no almoço, o padrasto rígido militar, o pai que é virtualmente um Ethan Hawke reinpretando um papel de Jesse menos culto, são por demais caricatos, em poucos momentos a história faz você confiar nela. Não fossem os 12 anos, o roteiro seria muito menos bem sucedido, não que seja ruim, mas é convencional demais.

004Se a direção e o roteiro não são a salvação de Boyhood, os 12 anos somado de Patricia Arquette em uma das maiores atuações de sua vida, são. Quando entra em tela ela interpreta tão belamente o papel da professora fracassada, que consegue transpassar o clichê possível, que nos outros papéis não acontece, e dar dimensão a esta personagem, fazendo o resto dos elementos mais insólitos do roteiro se consolidarem. Não fosse por ela, não imagino o público embarcando com tanto entusiasmo na experiência. Patricia Arquette leva o filme quase que sozinha nos ombros, porque sua química com Ethan Hawke não funciona tão bem quanto a de Julie Delpy em Antes do Amanhecer, o que de fato faz ambos quase não contracenarem, e quando a câmera se desvia dela, o filme perde uma força considerável.

Concluo apenas que Boyhood não é o filme do ano, e que seu concorrente Birdman ter vencido vários prêmios que até então se destinariam a ele, em teoria, não é um equívoco. Mas Boyhood é divertido, é bom entretenimento, bom cinema, e se não é uma obra-prima, tal como gostam de acusar por aí, não quer dizer que não seja um belo trabalho cinematográfico que enche os olhos do espectador. Penso que Richard Linklater até hoje não fez nenhum filme a nível de um Fellini ou Bergman, mas fez uma série de filmes instigantes e divertidos, assim como Boyhood é. Nem todo mundo precisa criar obras definidoras de uma geração, Linklater criou um filme que soma na cinematografia contemporânea de forma positiva, e este já é um grande feito.

005

Anúncios

Sobre sokoisdead

Apenas um cinéfilo.
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s