Whiplash: Em Busca da Perfeição – Damien Chazelle (2014)

Por Maicon Firmiano

18912c36ca_600x450_ebd6600ebdUma criança tem medo do escuro. Em seu quarto, o único lugar no mundo em que se sente segura, teme que algum monstro abominável e sem coração tire o seu sono. Em Whiplash, o pesadelo dessa criança se materializa na foma de Terence Fletcher (J. K. Simmons).

Fletcher, condutor de um notório conservatório musical de Nova York, apresenta a Andrew Neimann (Miles Teller), um estudante e aspirante bateirista, a oportunidade de uma vida: integrar a banda de jazz que Fletcher conduz. Os métodos do mestre para atingir o potencial de seus alunos fazem Andrew chegar ao limite e até questionar seu sonho.

Dirigido e escrito pelo estreante em longas Damien Chazelle (de pasmem, apenas 30 anos), Whiplash começou sua trajetória

Oscarizada em 2012, quando Chazelle adaptou seu roteiro como um curta-metragem, pretendendo garantir a o financiamento do projeto. O curta rendeu o prêmio do júri no festival Sundance de cinema em 2013, repetindo o feito (agora recebendo os prêmio de júri e público com o longa) na edição de 2014. Com poucos créditos de direção e alguns como roteirista, Damien chega aos longas com os pés na porta e uma atitude narrativa na mesma medida sutil e embasbacante.

Os filmes que acabam se impregnando na memória coletiva por mais tempo são aqueles que frequentemente têm dois aspectos em comum: o que nos fazem mais perguntas do que dão respostas e os que apresentam histórias análogas e com carga simbólica suficiente para nos fazer transportar sua história para a vida real. Whiplash é bem sucedido por oferecer esses aspectos com maestria, estendendo os tapas de Fletcher à cara do espectador. Seus personagens nos questionam o quanto vale sacrificar para chegar à perfeição, quais são os limites físicos e psicológicos da dedicação, e quais são as consequencias da nossa autocrítica.whiplash_5-620x413

Logo no início, Andrew pratica em uma sala escura, seu porto seguro, onde nenhum monstro pode lhe causar pesadelos. Se estivesse escrevendo aquelas analogias piegas de críticas de jornal, poderia divagar que esse momento representa a mente do artista, a mente de quem cria e a mente de quem se vê em momentos de questionamento, um labirinto de ideias brilhantes ou um cômodo sombrio e inóspito.

Nessa primeira sequencia, o filme se introduz com as batidas militares de uma bateria, e cristaliza o objetivo da história em poucos minutos: o conflito aprendiz x mestre, apresentando Andrew a Fletcher, uma força exterior que surge e some nas sombras e o faz duvidar de seu potencial. Seu futuro mentor arrebata a percepção que o músico tem de suas habilidades, funcionando como uma personificação da consciência destrutiva que todos aqueles que duvidam de si tentam esconder.

whiplash-international-trailer-A câmera de Damien e seu diretor de fotografia Sharone Meir, sabe exatamente como capturar momentos decisivos, em que o jogo de poder entre Fletcher e Andrew dá a tônica às sequencias, e momentos lúdicos, como quando corta para instrumentos e nos aproxima da mecânica da banda que padece com o mentor obcecado. Cenários intimistas encurralam o protagonista e são iluminados com o objetivo de potencializar o senso de mistério e perigo, engrandecendo as ações e reações corrosivas dos personagens, aspecto realçado na composição que faz questão de empurrá-los para pontos distintos do quadro. Vale destacar a banda, formada por músicos profissionais, tocando com Miles Teller (que toca piano, sax e bateria) e conduzidos por J. K. Simmons (formado em música e regência), que juntamente com a trilha sonora incidental criam um anti musical, onde os números cheios de dança e alegria são substituídos por dor e sangue.  Roteiro e edição redimem um enredo batido, que na condução eletrizante de Damien Chazelle, tem na primeira e na última sequencia momentos que de tamanha energia se tornam inesquecíveis. Como um tapa bem dado.

O filme acaba sem respostas e sem certezas, deixando um gosto amargo quanto ao futuro de Andrew. Valeu a pena?

Talvez os monstros só apareçam se eles estiverem lá o tempo todo.

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Sobre maiconfirmiano

Gaúcho, estuda Produção Multimídia na Ftec Faculdades. Gosta de Cinema, cultura Pop e etc ¯\_(ツ)_/¯
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