Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) – Alejandro González Iñarritu (2014)

Por Gabriel Dominato

1Alejandro Gonzáles Iñarritu retornou, após um filme de menor repercussão (Biutiful), ao derradeiro drama humano. Ao espectador mais atento, os signos estão todos lá: as vidas que estão conectadas por uma tênue, porém inexorável, linha, que une os destinos de todos; os personagens à beira do abismo, que precisam da destruição antes da redenção. Apesar de termos um visual diferente de filmes anteriores, que talvez não remeta diretamente ao diretor mexicano de 21 Gramas e Amores Brutos, este é um filme tipicamente iñarritiano, sobre as interconexões entre desconhecidos aparentes e seus dramas decorrentes. Porém, desta vez, Iñarritu decide sair do microcosmo das relações privadas e se incursiona nas relações culturais, tanto quanto nas pessoais, de forma a propor uma crítica severa sobre a indústria cultural contemporânea.

2Logo na abertura os créditos inicias remente a Jean-Luc Godard (Acossado, Demônio das Onze Horas), com palavras que brotam na tela, de início desconectadas, mas que foram as frases do prólogo do filme. Seja coincidência ou não, Iñarritu vai atacar a indústria da cultura, tal qual Godard já havia feito nos idos dos anos 60 com seu Desprezo (1963), ao mostrar como a indústria do cinema obrigava os realizadores a amenizar os roteiros até ele se tornar algo palatável ao público em geral. Em Birdman a premissa é a mesma. Porém, ainda, além da crítica do diretor francês, Iñarritu vai criticar também o espectador desta indústria, que conformar-se ao enlatado e encara a arte como meio de fuga e não de reflexão da realidade. A forma, no entanto, que o direto o faz é louvável: ele não critica esta falta de vontade do espectador em ver uma obra que seja crítica e densa, mas entende como uma condição, onde não existe esta percepção entre arte e entretenimento, sendo uma escolha, talvez, por esta falta de escolha. A forma como realiza a análise é digna de louvor, sendo que ele não condena as ações do espectador que opta pelo entretenimento puro, dando a ideia de leveza para esse alívio da realidade que é o cinema blockbuster, e vemos esta ideia traduzida literalmente no próprio personagem de Keaton, talvez uma forma de isentar do peso da ignorância, que ali, no personagem, se torna uma virtude, sendo ela o único possível freio para sua destruição, mas ele opta por ver, por ser. A jornada que vemos é ele pagando o preço de abrir os olhos.

4Birdman é o nome do personagem que Michael Keaton interpretava nos cinema há décadas atrás, no qual ficou estigmatizado e não consegue se livrar. Iñarritu é ácido, vemos a fonte do cartaz de Birdman 3, que aparece em várias sequências no camarim de Keaton possui a mesma fonte de Homem de Ferro, sendo a referência clara, ainda mais após breve cena de entrevista com Robert Downey Jr., que é mostrada na TV. A crítica é focada em um dos astros de Hollywood mas serve a todos: Johnny Depp, Chris Evans, Heath Ledger. Alguns, quando o personagem vira persona, e passam a ser a forma como o ator se mostra, mesmo após o filme concluso. Outros, como Ledger, mais destrutivos, quando o personagem entra na alma do ator e de lá se recusa a sair. O personagem de Keaton está mais para esta segunda categoria. O seu alter ego do cinema, mesmo após décadas, ainda existe dentro de Keaton, mesmo conversa com ele, o relembrando da era de ouro, onde ele era o grande astro da indústria. Ele lembra que Keaton veio antes de todos, era o maior deles. O personagem de Keaton, entretanto, considera Birdman como passado, e um tanto inglório, de forma que quer se redimir, criar uma verdadeira arte, pela qual deixará seu legado e pelo qual poderá ser bem lembrado pelas pessoas. É daí que parte a premissa do filme, de Keaton tentando realizar uma obra séria de teatro, no intuito de entrar para a posterioridade.

_AF_6405.CR2Frente a esta proposta, Iñarritu parte discutir a realidade – palavra um tanto insólita nesta obra do diretor – da indústria cultural, e das grandes dificuldades de se realizar uma obra que possua algo de real e profundo. Fica claro como é necessário abrir mão de muitas coisas no processo. A máxima tudo pela arte nunca pareceu tão cabível quanto nesta obra. Keaton está em sua atuação mais inspirada em anos, leva o filme com vigor, mas não sozinho, Edward Norton e Emma Stone estão em momentos sublimes de suas carreiras. É alto já notório a forma como o diretor consegue levar seus atores a um nível superior de onde estavam. Estas ótimas atuações, aliadas a um roteiro de grande originalidade e forte teor, dão vazão para Iñarritu extrapolar os limites da narrativa visual, utilizando-se de cortes invisíveis, se tem a impressão de estar assistindo ao filme em tempo real, não deixando o espectador ter o alívio do corte. Tal qual na vida, Iñarritu evoca o compromisso do espectador em testemunhar em tempo real a trama – ainda que haja nelas lapsos temporais – não existindo chance para se eximir, como se estivesse propondo um compromisso ao espectador que hoje, com as facilidades da mídia, assistem cinema em doses periódicas, não se entregando à experiência total da cinematografia.

Ainda, como de costume, os personagens de Iñarritu são multifacetados, essa necessidade de Keaton fugir da ignorância de que se refere o título é uma ânsia pela eternização simbólica, uma forma de fugir da temeridade da morte, tema tão recorrente na cinematografia do mexicano. Em um momento do auge de sua interpretação, Emma Stone realiza um monólogo, se referindo às pretensões de grandeza pelas quais ser humano tende a se deixar levar, servindo como um ponto de exclamação das nossas fragilidades. O paradoxo apresentado é que desejamos ser lembrados, mas ao mesmo tempo tentamos esquecer o nosso próprio passado, a ânsia da imortalidade contra a vontade de obliteração. É claro que ambas não podem jamais coexistir, e que delas só decorre a destruição, porém, dada os personagens não conseguem nunca perceber o antagonismo das próprias vontades, o que causa uma sumária aniquilação. Porém, como dizia no epílogo de 21 Gramas “Quando se queimou a perda, os milharais cresceram verdes novamente”. A cena final de Birdman revela essa crença recorrente de Iñarritu que da destruição surge algo novo. Vida, talvez. Porém, da destruição da ignorância também surgem coisas novas, mas se estas são boas ou não, cabe ao espectador julgar.

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