Interstellar – Christopher Nolan (2014)

Por Gabriel Dominato

1Deixe-me começar por uma das frases mais usadas na ultima semana nos fóruns de cinema: Christopher Nolan é um gênio. E sob uma certa perspectiva, eu preciso concordar: Nolan é um gênio da publicidade. O hype constituído sob a obra meses antes do lançamento fez vários fóruns e redes sociais colocarem o filme no status de obra-prima, e Christopher Nolan ser alçado a um dos melhores diretores da atualidade, senão o melhor, deixando nomes como Sokurov, Apichatpong, Wong Kar-Wai, Irmãos Dardenne, apenas para citar alguns, em segundo plano. Com apenas uma semana de seu lançamento, as adulações infinitas a sua pessoa cresceram ainda mais, em uma onda catártica que ocorre em todos os lançamentos do referido diretor norte-americano está nesta primeira semana de novembro, em seu auge. Múltiplos planos de realidade, dimensões a serem exploradas, e uma aparente complexidade de roteiro. Com esses dizeres poderíamos classificar A Origem (2010 ), mas estamos falando de Interestelar, o novo lançamento de Christopher Nolan. A despeito da grande comoção nas redes sociais, o novo filme do norte-americano parece encontrar a síntese de tudo que seu trabalho costuma ser criticado até hoje, e no que tange à novidade, ela é adaptada, seguindo os mesmos parâmetros de grandiosidade épica e grandiloquência narrativa, a qual Nolan nunca tem condições de dominar plenamente, o que torna Interstelar em mais grande filme potencial que se perde em sua própria ambição. 4O filme exala por boa parte de seus 169 minutos uma dose cavalar de lugares comuns e didatismos que incomodam sobremaneira, insultando a inteligência do espectador o tempo todo, de início ao fim. Nolan é um vendedor tão bom que grande parte de sua plateia sai da sala certa de ter consumido a experiência máxima que o cinema contemporâneo é capaz de oferecer. Adornado por um camafeu de efeitos deslumbrantes, pouco parece importar a superficialidade com que o fator humano é lidado no filme, todo engessado por explicações piegas do que o espectador deveria sentir por si só, mas não, Nolan o guia, mastiga e informa qual sentimento o seu espectador deverá ter em cada momento. Faz seu protagonista receber fitas de familiares para promover sentimentalismo dos mais forçados. Se existem subterfúgios nas obras cinematográficas, Nolan se ocupa se todos, força os conflitos, e tal qual A Origem, dá a solução mais fácil, recorrendo a aparente profundidade do roteiro, amarrando a história de forma insatisfatória. Além, considerando a relativa simplicidade do roteiro – porque a temática pode até ser complexa, mas o roteiro não é, muito menos a narrativa básica que Nolan se utiliza para seu grande épico – a qual ele mesmo se certifica de minar completamente com parênteses despropositados, onde explicará tudo que imagina que seu espectador não tem intelecto para entender, então guiando seu sentimento e compreensão. 6A artificialidade dos conflitos é um reflexo notório do erro de abordagem de Nolan: enquanto obras como 2001 e Solaris – obras quais se tem mencionado em comparativo ao novo filme do diretor de Batman – o espaço é apenas plano de fundo para representação do humano, pois no vazio celeste o elemento humano ganha destaque e peso, Nolan segue o caminho inverso, perdendo-se na sua contumaz megalomania, forçando noções épicas, e legando o fator humano a algo secundário, que ate pode soar primário em dados momentos, mas que por ser muito menos desenvolvidos que suas teorias mirabolantes do que há no fundo de um buraco negro, e deixando as questões importantes, como o que há no fundo do coração e mente humanas – questões primordiais na obra de Kubrick e Tarkovski – apenas como um alicerce para sua grande epopeia espacial de belos efeitos e emoções mecânicas. 3Christopher Nolan e um gênio. O vendem como o grande diretor contemporâneo, e sem muito esforço, consegue que tal imagem seja comprada por milhões. Não é a toa que o filme galgou o 17º lugar no IMDb, que nega a importância de tantos diretores brilhantes do cinema atual, mas que para Nolan existe espaço. O grande problema de Nolan é vender seu espetáculo como uma grande obra de arte que discute as questões humanas mais profundas, o grande problema e de Interstellar ser consumido como obra arte densa, e quando se produzem filmes de fato geniais, as salas restam vazias, porque não é arte como a de Nolan, que ocupa as horas, tenta abraçar a galáxia inteira, quando ainda não dominou nem os segredos da alma humana. Não é segredo, os grandes gênios, em fim de carreira, costumam cada vez fechar mais os braços, focando em si mesmos, porque enquanto não se compreende a essência humana, e não se compreende a si mesmo, querer abraçar todos os segredos do universo é uma pretensão que nenhum homem, sabido de sua ignorância,vai querer fazer. E se observamos os grandes mestres, eles não o fizeram, voltaram-se para dentro de si, e não para fora do mundo, e essa e a verdade que leva Nolan cada vez mais a fazer uma obra perecível ao tempo. Não existe problemas em se fazer épicos espaciais, mas os grandes filmes deste gênero foram feitos por diretores que entendiam o homem em primeiro lugar, coisa que fica clara que Nolan ainda tem muito que aprender. Interstelar é um sucesso de bilheteria, mas em termos de cinema, é mais do mesmo. interstellar

Anúncios

Sobre sokoisdead

Apenas um cinéfilo.
Esse post foi publicado em Cinema, Cinema Americano, Cinema Estadunidense e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s