Flores Partidas – Jim Jarmusch (2005)

Por Gabriel Dominato

01É inegável que a forma como Jim Jarmusch aborda o amor tem um apelo todo especial para qualquer cinéfilo. Há algo que tange dimensões onde dificilmente outros filmes adentram. Neste Flores Partidas (2005), o diretor de Estranhos no Paraíso (1984) e Sobre Café e Cigarros (2003), após longo período abordando temáticas recorrentes, parece ter atingido aqui aquela nota melancólica que invariavelmente um diretor de longo tempo de ofício costuma atingir. É uma desesperança terna, onde se preconiza a impossibilidade das coisas, é sabido que o fracasso é certo, ainda assim, por meio de uma abordagem tão humana, atinge-se de fato uma ternura, ainda que amarga.

Broken Flowers 2005 rea : Jim Jarmush Bill Murray COLLECTION CHRISTOPHELBill Murray protagoniza a trama como Don Johnston, homem de vários amores passadores, aparentemente incapaz de manter um relacionamento duradouro, fato que já se apresenta em uma das primeiras cenas do filme com a ruptura entre Don e Sherry (Julie Delpy). Eis que recebe, porém, uma carta, sem remetente, avisando que Don teria tido um filho há muito com uma de suas ex namoradas, o que o obriga, embora movido alheio a sua vontade, a revisitar este passado e aqueles amores idos. Murray é a própria melancolia terna, com um rosto sempre cansado e um olhar pesado, já prenuncia a impossibilidade do sucesso de sua viagem.

03O roteiro nem sempre se mantém vigoroso, vez ou outra parece que vai descer ladeira abaixo, porém, um trunfo, talvez o maior deles, do filme, é o seu cast. As antigas namoradas de Don são todas interpretadas por algumas veteranas do cinema que aqui encontram-se com desempenhos formidáveis: Jessica Lange, Sharon Stone, Tilda Swinton e a já mencionada Julie Delpy. A forma como Bill Murray interage com estas atrizes consegue apaziguar quase todo problema de roteiro, que embalado por uma trilha sonora soberba que transcorre durante a parte onde o filme se faz road movie, embora não o seja num sentido clássico, acaba deixando uma sensação de satisfação. Claro que muito poderia ser de diferente, por mais que seja dominado profundamente pelos atores, os diálogos não são dos mais profundos ou capazes de prender a atenção, e por vezes sente-se como se eles não importassem além da interação entre aqueles atores que já possuem, hoje, um status mítico. E acaba valendo a experiência de fato por estes fatores, uma vez que, ao fim da curta jornada de Don, temos a impressão de que o roteiro é incapaz de provocar mais que uma experiência palatável. Mas existem tantos outros fatores que acabam valendo pelas partes, ainda que o todo seja um tanto deficiente.

05Jim Jarmusch, que dedica o filme para Jean Eustache, sabe o que está falando quando fala de amor, não é à toa que evoca o grandioso mestre francês e sua magnânima obra A Mãe e a Puta (1973). O amor que então se debateu nos jovens franceses dos anos 1970, continua sendo um amor atual para a geração atual, e para a própria geração de Jarmusch, que também é a de Eustache. É como dito ao princípio: uma nota melancólica. Tal como no filme do francês, é sabido que o amor não costuma triunfar, e não se deve ser exaltado, coisa que nenhum dos dois faz. Toda via, não se deve ser lamentado, e Jarmusch não o deixa de fato, ecoando as reminiscências que se ecoam até os dias atuais. Embora trágico, o amor nunca é dado como lamento, mas como experiência, necessária, e da qual, a lembrança jamais pode escapar.

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