O Grande Hotel Budapeste – Wes Anderson (2014)

Por Gabriel Dominato

O Grande hotel budapesteWes Anderson sempre surpreende, ainda que virtualmente realize todos os seus filmes da mesma forma. Quando lançou Moonrise Kingdom (2012), as expectativas, que eram grandes à época, foram preenchidas, mas estava lá tudo de novo: os personagens estranhos, famílias disfuncionais e/ou de estrutura diferenciada, a paleta de cores e simetria rigorosas; mas no fundo, o filme de 2012 contava apenas mais uma história, um conto de fadas no caso de Wes Anderson, por alguma razão, isto bastou. Agora com seu Grande Hotel Budapeste, o diretor norte-americano repete os feitos do passado, mas com um diferencial primordial em comparação aos outros, que será debatido logo abaixo.

GHB_9907 20130130.CR2Apesar de haver uma aparente repetição da fórmula, o novo filme de Wes Anderson traz uma inovação no conjunto da obra, ou se esta palavra não se fizer a mais acertada, ao menos aprimora todas as técnicas narrativas do diretor em relação ao resto da carreira. Se pegamos por exemplo Bottle Rocket (1998), o primeiro filme do diretor, a destreza com que ele conduz a narrativa é muito inferior, não que fosse ruim ao momento, mas ele aprendeu as sutilezas do roteiro, aumentou a desenvoltura do aspecto visual, que antes já era primado, mas depois se tornou primoroso. O rigor com as cores também pode ser visto aumentando no decorrer da carreira, e fechando em Grande Hotel Budapeste como a culminação destas experimentações nas películas anteriores. Embora Moonrise Kingdom já fosse uma espécie de síntese para estes estudos, é neste novo filme que Wes Anderson se encontra perfeitamente em todos os aspectos.

Cinemascope-O-Grande-Hotel-Budapeste-7As cores estão ainda mais coerentes que no resto de suas obras, obedecendo uma paleta de cores quentes, que mais tarde irá contrastar com outra de cores frias. A harmonia encontrada entre os tons é muito equilibrada, compondo até mesmo cenas de vermelho com roxo, cores que são arriscadas para uma fotografia harmônica, podendo destoar bruscamente, mas o qual o diretor executa muito bem, valendo a pena citar a cena do elevador, que contém tais cores e apresenta o maior choque visual do filme pela intensidade e contraste das cores.

o-grande-hotel-budapeste-filme-14De novo também temos em destaque a simetria de níveis quase compulsivos, onde praticamente todo o filme pode ser dividido em duas metades iguais e harmônicas na cena. Claro que existem exceções e partes onde a simetria comprometeria a composição da cena, pois nem sempre um objeto oferece possibilidade de ser dividido em dois durante uma sequência, mas onde não pode, Wes Anderson burla a simetria construindo uma harmonia tal qual na pintura, equilibrando os dois lados do quadro compensado por elementos visuais de igual magnitude. A simetria do norte-americano não se vê parecida desde Kubrick com os planos de enorme rigor técnico, embora naquele a simetria é muito mais um recurso estético, enquanto para este era muito mais uma ferramenta narrativa. É impossível citar quais momentos a simetria se apresenta, pois permeia todo o filme, mas as cenas externas são talvez as que mais possibilitem ver o rigor da técnica do diretor, em especial as tomadas do hotel.

grandbudapest2Mas sem dúvida o grande êxito deste novo filme de Wes Anderson é a destreza narrativa, que ocorre em multiníveis e nos é contada com muita leveza, mas com firmeza. É a história de um escritor que está contando a memória de quando conheceu o dono do Grande Budapeste, que por sua vez está lhe contando sua história, mas que também é a história do antigo concierge do hotel. Citando desta forma pode parecer confuso, mas na execução o diretor fez com tal magistria que não se perde em um só momento, tendo um roteiro muito bem constituído e fechado, o que por si é um mérito e demérito, porque  a história é só o que se apresenta, não existem possíveis lacunas, todos os fatos nos são apresentados, não cabendo muito ao espectador para imaginar. Os personagens são exageros, mas belos exageros, consistentes dentro daquele próprio universo, são críveis, mesmo que tão extraordinários, figuras encantadoras, mesmo os vilões e antagonistas, possuem um charme enorme; este sendo um dos grandes talentos de Wes Anderson: criar personagens sólidos e carismáticos.

Este Grande Hotel Budapeste mostra que Wes Anderson é um dos últimos grandes contadores de histórias do cinema, e digo história no sentido de fábula, conto. O cinema atual não está mais tanto interessado em contar narrativas tradicionais, preocupado muito mais com questões sociais e com a própria linguagem do cinema, mas o diretor norte-americano ainda tem apreço pelos contos de fadas, e na insistência de os contar, aprimorou ainda mais a bela linguagem que já possuía, tornado este filme em um belo deleite não apenas visual, mas em uma história de fadas moderna deliciosa de se ver.

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2 respostas para O Grande Hotel Budapeste – Wes Anderson (2014)

  1. Pingback: O Grande Hotel Budapeste – Wes Anderson (2014)

  2. claquetegirls disse:

    Grande filme.

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