Shara (2003) – Naomi Kawase

Por Samuel Costashara2

Morte, vida e memória são elementos recorrentes no cinema de Naomi Kawase. Shara (Sharasôju, 2003), que concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes no ano de sua estreia, é um bom exemplo da maneira como a cineasta entende e lida com estas questões. Um olhar panorâmico sobre conjunto de sua obra e como esta se entrelaça com sua vida pessoal, nos permite compreender um pouco melhor do universo e a filosofia presente em seus filmes. Boa parte deles são registros pessoais e autobiográficos, como Em seus braços (1992) e Céu, Vento, Fogo, Água, Terra (2001), o primeiro sobre sua busca pelo pai biológico e o segundo a maneira como lidou com a morte deste, Caracol (1994), Viu o sol? (1995) e Sol poente (1996), trilogia sobre a relação com a tia-avó que a adotou, Nascimento e maternidade (2006), no qual novamente aborda a relação com a tia-avó e com seu filho recém-nascido, entre outros trabalhos geralmente classificados como documentais. Nas suas obras ficcionais, como Shara e Floresta dos Lamentos (2007), Kawase não abandona estas questões presentes em sua vida pessoal e muito menos o caráter intimista de sua narrativa. Longe de uma abordagem individualista ou egoísta, Kawase parte de suas inquietações e experiências em uma busca por compartilhar e explorar sentimentos e emoções humanas junto ao espectador. Seus filmes não são feitos para serem apenas assistidos, mas experienciados e sentidos ritualisticamente. Cada uma de suas películas é um convite a uma experiência essencialmente sensorial. Ver e ouvir torna-se uma porta de entrada para outras sensações.

shara3A narrativa de Shara se desenvolve a partir do desaparecimento de Kei, um dos gêmeos filhos da família Aso que vive numa antiga cidade na região de Nara no Japão. Alguns anos se passaram e o que vemos a seguir é o cotidiano de Reiko, a mãe interpretada pela própria Naomi Kawase, Taku (Katsuhisa Namase), seu marido e pai dos meninos, e Shun (Kohei Fukungaga), o filho do casal e irmão gêmeo de Kei. Observamos de perto as atividades diárias destes sujeitos, os cuidados dos pais com a horta, as habilidades artísticas do filho, o trabalho cotidiano, as conversas familiares e a maneira como se relacionam e lidam com a ausência de Kei. Ao mesmo tempo, algo está por acontecer na cidade e mudanças permeiam a vida da família. Um festival baseado nas tradições locais está sendo planejado, Reiko está grávida e Shun timidamente explora seus afetos por sua amiga Yu (Yuka Hyyoudo). Experiências de dor e felicidade vão se entrelaçando e desembocam em uma grande contemplação à vida.

Os rituais são conhecidos por sshara 2erem momentos de efervescência e êxtase. De fato há momentos no filme, como na realização do festival, no parto no novo filho ou na cena do que nos parece um ritual religioso em um templo, em que as emoções são expressadas com maior intensidade, sejam se dor, tristeza ou felicidade. Há momentos em que vemos esses sentimentos transbordarem e vazarem dos corpos. Mas a contemplação de Kawase à vida não está exclusivamente na retratação desses momentos de “êxtase”, mas sim em todo o processo de construção de um ritual, nas coisas cotidianas e simples. Está no ato de colher um legume, andar de bicicleta, escolher qual a cor da sandália que irá usar no festival, nas conversas com pessoas próximas, em outras palavras, está nas conexões que realizamos nesse mundo, com humanos e outros seres (plantas, animas não-humanos, objetos, divindades, os mortos, etc.).

A chuva, as árvores, o vento, os parentes,oAvKgvu a casa, os amigos, os moradores locais e assim por diante, todos agem de alguma forma na construção destas conexões e de uma experiência especifica. A chuva, por exemplo, é de importância singular para alcançar o tipo de sensação manifesta na cena do festival, uma sequencia quente, alegre, molhada, com movimentos corporais e sons intensos. Uma das dificuldades que nós herdeiros do pensamento ocidental temos ao nos depararmos com essa abordagem no cinema, está na ausência de uma separação entre natureza e cultura. A indisposição ou uma compreensão simplista e romântica para com o este tipo de cinema não são incomuns. No fundo, o cinema de Kawase dialoga com toda uma filosofia, apenas aparentemente simples, mas de um alcance muito profundo: precisamos conceber que a chuva age, e ao agir, nos impulsiona a certas sensações, memórias e interfere nas nossas próprias ações no mundo.

A arte também é uma questão presente em Sem títuloShara. Shun desenha, Yu toca piano e Taku conhece e pratica a tradicional caligrafia japonesa (o Shodô). A arte é apresentada como algo intimista e essencialmente ligada às emoções e sensações.  Yu compôs uma música que não tem nome, mais importa a sua relação sensorial com tal peça do que cristalizá-la em um nome. Quanto à relação de Shun com a arte, é análoga à forma como a própria Kawase se relaciona com o cinema. A ausência de Kei mobiliza a criação artística de Shun da mesma forma que as inquietações pessoais de Kawase mobilizam sua criação audiovisual.

Quanto aos elementos técnicos do filme, como som, manobra de câmera e fotografia, são trabalhados de forma a explorar e estimular a sensorialidade do espectador. O registro e o destaque dado ao som ambiente transmite a sensação de imersão a quem assiste. A câmera tremida se aproxima da vida das vlcsnap-4115686personagens como se fosse alguém que observa aquele cotidiano. Ainda, a maneira como a câmera chega até estes sujeitos, se aproxima e se afasta, dá a obra o caráter de uma memória. É como se alguém que viu tudo aquilo tivesse recordando em sons e imagens.

Em síntese, Shara é uma obra duplamente sensível: no sentido afetuoso e humano, mas também como uma experiência sensorial. Kawase tem a habilidade de lidar com questões humanas delicadas, como a morte e o luto, e criar verdadeiras poesias cinematográficas. Uma poesia nada convencional, mas com um potencial catártico singular.

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