Viagem a Citera – Theo Angelopoulos (1984)

Por Vagner Reis

viagem a citeraAngelopoulos faz este Viagem a Citera no intuito de apresentar o contexto histórico que a Grécia se encontrava em 1984, local e ano que o filme se passa, a fim de evidenciar as mudanças sociais que ocorreram após a subida do partido PASOK, que tinha como slogan e estratégia política o movimento Pan-Helênico; o filme relata a realidade e as transformações sociais em um período conturbado da Guerra Fria em que a Grécia queria ter autonomia para poder trilhar sua própria política de forma que não viesse a entrar completamente no viés político nem da URSS, nem dos EUA. Desse modo, o diretor elenca algumas questões a serem discutidas por meio dos personagens e de suas atitudes, os quais tem visões capitalistas ou socialistas, dependendo qual personagem se analisa. O título do filme foi escolhido propositadamente pelo diretor, pois, de acordo com a mitologia grega, Citera é a ilha dos sonhos, onde cada pessoa se dedica à sua felicidade, isto é, o significado atribuído à ilha tem um intuito de diálogo entre o Passado e o Presente, no momento em que “Eles” se encontram por meio da figura dos personagens da nova e da velha geração. Sabendo-se que o filme trata-se do retorno para Citera de um homem que se refugiou na URSS, já fica atrelada a proposta do diretor de um homem que busca felicidade e regresso em Citera, em seu país natal, e quais são os embates ao se deparar o Passado frente ao Presente.

3É a partir desse ponto que o diretor e também corroteirista, Angelopoulos, narra a história de Spyros (Manos Katrakis), um ativista político comunista, que parte de Citera, refuginado-se na antiga URSS, devido ao seu exílio e perda de cidadania no seu país, mas que retorna depois de 32 anos para a sua cidade. Dessa forma, existe um embate entre vidas e histórias diferentes de um homem, que deixou sua família na Grécia, e que, quando volta, encontra percalços para se relacionar com sua antiga esposa e familiares que também estão totalmente modificados. Por outro lado, existe outra história que conflui com a de Spyros quando ele se depara com seu filho, Alexandros (Giulio Brogi) e sua esposa Katarina (Dora Volanaki), ao mesmo tempo em que existe um estranhamento e um desconhecimento dessas pessoas que são familiares, mas que se modificaram com o tempo e nada mais parece se recompor; por exemplo: no filme, há poucos diálogos entre Spyros e seus parentes, pois não há muitos assuntos e pouquíssima afinidade, sem saber, ao menos, o que falar ou o que perguntar, então, muitos momentos de silêncio são constantes durante as cenas.

0Alexandros, filho de Spyros, é um cineasta melancólico que está produzindo um filme sobre certo refugiado político, porém, se depara com dificuldades para realizá-lo, um dos motivos é que muitos atores parecem não servirem para atuar no papel de seu filme apesar de existir uma grande gama de candidatos para tal papel principal de exilado político. Assim, Alexandros coloca em dúvida o êxito de sua futura obra e também de sua vida com algumas cenas de desânimo do personagem e muito silêncio, inclusive porque o tema da produção do filme de Alexandros começa a ficar secundário conforme as cenas vão avançando e alguns momentos de indecisão sobre o seu casamento e a relação sexual com outras mulheres aparecem para marcar esse conflito existencial. Como exemplo sobre os problemas pessoais e de esperança na vida de Alexandros, existe uma cena que elucida essa problemática; quando ele entra em um bar, dentro do qual está sua amante que lhe cita uma frase: “Às vezes, eu descubro, com terror e alívio, que já não acredito em mais nada. Nesses momentos, eu me volto para o meu corpo. É a única coisa que me faz lembrar que estou viva”.

Parece algo desconexo apenas para dar efeito ao diálogo do filme, porém com o desenrolar da atuação de Giulio Brogi (Alexandros), existe, nessa frase, um ar de ligação entre o personagem e a frase que se combinam, cada qual servindo como base de interpretação para o outro. Sendo assim, é um filme que requer atenção não só nas atuações dos atores, mas também na relação que existe entre os diálogos e os personagens dentro de cada cena.

1Concernente à história do filme, antes da chegada de Spyros a Citera, Alexandros, ainda dentro do bar, vê um senhor de idade avançada que lhe chama a atenção por algum motivo, mas que não é revelado prontamente, todavia, ele resolve seguir esse homem até chegar a um porto e encontrar uma mulher que lhe avisa sobre a chegada de seu pai. Desse modo, ele parte correndo para o encontro de um navio que está chegando para atracar, até que Alexandros vê o seu pai, que é extremamente semelhante ao senhor que ele viu no bar. Há uma conversa pelo filme todo em que um acontecimento está conectado com outro a seguir, um recurso comunicativo interessante usado pelo diretor que contribui não só para o entretenimento do filme, mas também para a curiosidade de fatos que podem ocorrer posteriormente e que já foram anunciados antes, isto é, uma forma bem cativante de manter a atenção no filme buscando esses paralelos.

2O diretor, Angelopoulos, ainda continua na elaboração do tema do “retorno”, do “passado” e do “mito de Citera”, uma vez que Spyros realmente resolve permanecer em Citera com sua antiga família e encontra velhos amigos, e vários acontecimentos, assim como revelações do passado, são feitas e que acabam frustrando, em certo ponto, a expectativa de sua volta e da estabilidade familiar e fraternal. No entanto, todos permanecem juntos e eles vão visitando e passando pela cidade até chegar a uma antiga propriedade da família, que se situa em uma região afastada, e que Katarina e Alexandros estão pensando em vender para uma empresa que quer construir um hotel de inverno naquele local; notícia que enraivece Spyros. Nesse ponto, é possível perceber uma síntese daquela primeira indagação feita no início desta análise sobre as relações entre passado e presente, inclusive porque é essa cena, de descoberta, por parte de Spyros, da possível venda de sua antiga terra, uma das mais emblemáticas do filme, porque é nela que existem muitos recursos técnicos condensados: zoom out, filmagem que se distancia; paleta de cores azuis e pálidas; e o silêncio. Todos esses recursos corroboram para impactar com um cenário um pouco desolador e a perspectiva frustrada de Spyros do que a sua antiga Grécia estava se tornando.

A maior característica do filme, sem dúvida, é o silêncio, não é para tanto que Viagem a Citera é o primeiro filme da trilogia de Angelopoulus denominada “Trilogia do Silêncio”, composta conjuntamente por “O Apicultor” (1986) e “Paisagem na Neblina” (1988). Muitos diálogos acontecem no filme pelo “não-dito”, isto é, uma sequência de olhares ou um silêncio com a perturbadora presença de pessoas quietas que formam, no filme, um ponto forte, sobretudo, porque sugere diversas interpretações para cada acontecimento em virtude de cada experiência de uma pessoa quando assiste ao filme.

Por fim, além cythera6de ser um filme que ganha em muitos pontos pela história e pela direção, é um filme político, uma vez que várias analogias e críticas sociais são feitas por meio da presença do Passado, personificado na figura de Spyros, com o Presente, incorporado por toda a família em Citera. No final do filme, o diretor parece propor um caminho de interpretação sobre esse diálogo da Grécia de Spyros da década de 1950 e da Grécia da década de 1980, quando o filme é gravado e lançado. As diferenças das épocas estão em destaque nos personagens pelas ideais e falas, sobretudo, no momento da descoberta da possível venda das terras que marca um contraponto entre os personagens que têm convicções políticas divergentes, além de intuitos contrastantes. É interessante, mas não prioritário, procurar as críticas sociais que o filme propõe sobre propriedade e também o debate sobre a Guerra Fria que era o tema mais levantado naquele momento, mesmo que agora ainda muitos prefiram nem tocar no assunto. Ademais, “Viagem a Citera” também é um filme de proposições individuais e crises pessoais que envolvem os personagens e pode provocar muita identificação.

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