A Pele de Vênus – Roman Polanski (2013)

Por Maicon Firmiano

Roman Polanski e moral nunca foram temas que se entenderam muito bem. Em nenhum texto. Em nenhum filme. Desde os anos 60, seu nome é acompanhado de polêmicas, acusações, tragédias e um pouquinho de desconfiança pelo público geral. Situação irônica para o francês, que marcou seu lugar entre os melhores diretores de todos os tempos com filmes cravados na paranoia. Com locações claustrofóbicas que externam a psique perturbada de seus personagens, Polanski trouxe à vida mais histórias-de-um-lugar-só que qualquer um, imprimindo estilo e direção de mão forte em clássicos como “Repulsa ao Sexo”, “O Bebê de Rosemary”, “O Inquilino” (a chamada Trilogia do Apartamento) e o recente “Deus da Carnificina”.

Em 2013, ele comparece ao Festival de Cannes com “A Pele de Vênus” (La Vénus à la fourrure), sua última aventura ao reino das histórias em apenas um cenário. Com roteiro adaptado da peça de David Ives, o enredo começa quando em uma noite de chuva, o diretor de uma peça teatral baseada nos trabalhos do autor Leopold von Sacher-Masoch (considerado o pai do masoquismo), já frustrado com as opções testadas para a protagonista, recebe a visita de uma atriz atrevida que possui todas as “qualidades” que ele condenou nas concorrentes anteriores.

Brincando com mitologias e arquétipos de gênero, o filme (com roteiro adaptado por Polanski em parceria com o próprio David Ives) traz seus personagens e simbologias como peças de um xadrez onde os prêmios em jogo são status e poder. A batalha psicológica inicia quando Vanda, a atriz, chega com seu texto na ponta da língua, dominando a história de Wanda, a personagem, do início ao fim. Thomas, o dramaturgo e diretor da peça, leva seu material a sério e com uma empatia por seu protagonista (que Vanda exige chamar de Thomas ao invés de Gregor, como no roteiro) que o compromete moralmente. Um embate entre essas duas forças faz com que suas personas se confundam com as dos personagens da peça, ou apenas evidenciem uma projeção de caráter para a audiência. É como se chegassem a uma festa a fantasia que os obrigasse a se comportar como a roupa manda.

O fator metalinguístico que isso emprega à história nos confunde ao ponto de não sabermos o que faz parte da peça, ou não sabermos se aquilo tudo não é uma única historia, criando uma corda bamba entre o fantástico e a real.

Vanda consegue cena a cena, exigência a exigência, tomar as rédeas da situação. Thomas inicia essa interação em posição de poder, afinal é o diretor  subjulgando mais uma mulher candidata ao papel de Wanda. Esse poder exercido tem resquícios de como percebemos os gêneros na sociedade. Em um ponto, Thomas desdenha das trinta e cinco atrizes que leu, e afirma: “Eu me sairia melhor que elas, só colocar um vestido, um par de meias e pronto!”.

Ele as considera despreparadas e infantis comparadas à sua protagonista. Entra Vanda. Desajeitada e mulher tão cheia de manias quanto todas as outras, não aparenta ser a escolha digna, muito menos uma atriz talentosa. Assim como a persona teatral, ela deixa Thomas sentir-se em posição de poder enquanto sutilmente toma controle do teatro e seu subconsciente. O homem dominante, sem perceber, se entrega à mulher desqualificada. No final, a dominação subjuga as impressões de poder. Tudo termina como começou, só que contas acertadas. Vanda é a personificação da “personagem feminina forte” (termo que vários cinéfilos adoram usar por aí). É forte não por usar roupa colada enquanto dá uma surra em alguns marmanjos como as heroínas de ação, mas por ter total consciência e controle de sua própria história e condição.

Visualmente, atestamos o jogo de poder entre Vanda e Thomas pela movimentação gravitacional da câmera, que trabalha de forma subliminar para nos indicar o status quo da história e pra onde ela está se encaminhando. A disposição arquitetônica do teatro proporciona essa dinâmica, e eleva a abordagem de “campo de batalha” do enredo a uma reflexão interiorizada de temas como poder, gênero e relacionamentos. Polanski colaborou com seu diretor de fotografia preferido, Pawel Edelman. Em Deus da Carnificina, os dois já haviam filmado de forma brilhante os escandalosos impasses morais que podem acontecer dentro de quatro paredes, permitindo às lentes encontrarem os atores de forma orgânica. Aliando a fotografia à direção de arte, a equipe entrega um trabalho visual coeso, a paleta de cores é enriquecida com figurinos e adereçamento inteligente que amarram a simbologia da trama.

Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric (que com uma peruca canastrona, se aproxima ainda mais de um jovem Roman Polanski) têm uma química antiga, que funciona de forma genial para um conteúdo de dinâmica tão teatral. Assistir os dois é como assistir uma partida de tênis bem jogada, onde os dois competem de igual para igual sem deixar bola encostar o chão. Uma crítica recorrente é a idade de Emmanuelle em comparação a Vanda, escrita e interpretada por atrizes mais jovens no teatro. Sua entrega ao texto é tão natural que nos faz questionar se idade é tão importante na composição de uma história (e se caso essa situação fosse vivida por um homem, teria tanta repercussão).

Alguns filmes são tão poderosos que podem te deixar pensando sobre coisas para falar pela eternidade. Podem até te frustrar, por ilustrar o quão despreparado você é para interpretar seus temas.

A Pele de Vênus pode ser um filme sobre várias coisas. Sugiro que deixe sua moral dar o veredito.

 

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Sobre maiconfirmiano

Gaúcho, estuda Produção Multimídia na Ftec Faculdades. Gosta de Cinema, cultura Pop e etc ¯\_(ツ)_/¯
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