Um Toque de Pecado – Zhangke Jia (2013)

Por Frank Charles

tian_zhu_ding_xlgA escalada da violência como veículo de catarse e redenção não é novidade no cinema. Peckinpah tem um belo exemplo – talvez eivado de um moralismo tacanho e de um machismo exacerbado – que é Sob o Domínio do Medo, onde o dócil matemático interpretado por Dustin Hoffman “lava a alma” com o sangue de seus inimigos. Na literatura o exemplo que me vem à mente é O Cobrador, do Rubem Fonseca, o protagonista exigindo dos símbolos de tudo o que ele nunca teve na vida o troco pelos seus sofrimentos pessoais, usando essas figuras simbólicas como cordeiros no altar do sacrifício. Jesus Cristo lavando os pecados da humanidade na cruz talvez seja o mais eminente registro literário dessa visão. O sangue é o sumo do corpo para a limpeza desta entidade abstrata que a moral tem o costume de chamar de “honra”.

Zhangke Jia (O Mundo, Em Busca da Vida) nos dá a sua versão dos atos violentos como ferramenta de expiação dos males interiores com o seu Um Toque de Pecado (Tian zhu ding, 2013), filme que ganhou o prêmio de melhor roteiro em Cannes 2013, roteiro este assinado pelo próprio Zhangke Jia e baseado em casos reais publicados no site de notícias Weibo.

UMTOQUEDEPECADO1Um caminhão de tomates caído na estrada, um assassino numa moto e quatro jovens ladrões que encontram a morte por tentarem roubar a pessoa errada. Um prólogo que é mais ou menos um resumo de como as histórias deste filme serão apresentadas para o espectador.

Elas se mostram como diferentes formas de manifestação da brutalidade – seja ela contra outras pessoas, seja autoinfligida –, sendo resultados do ponto de ebulição de vidas solitárias, corações amargurados, frustrações financeiras e morais. As quatro personagens principais são um operário solteirão e de meia-idade que se rebela contra a corrupção dos chefes de seu vilarejo, um assaltante e assassino que usa seus crimes como forma de livrar sua família da miséria extrema, uma recepcionista de casa de prostituição que se vê às voltas entre o caso com um homem casado e as humilhações do trabalho, e finalmente um jovem depressivo que não sabe dar rumo à sua vida. Ícones representativos de uma China moderna, que ainda tangencia suas velhas tradições, mesmo mergulhada num mar de tecnologia e desenvolvimento astronômico em alta velocidade. É clichê afirmar isso, mas é o que é.

UMTOQUEDEPECADO3As histórias têm ritmos parecidos: o início e desenvolvimento lentos; breve, porém profunda, construção das personagens e seus dilemas; e clímax violento com uma conclusão relativamente rápida. Todas permeadas por encontros dos protagonistas das histórias seguintes com situações que envolvam os das anteriores.

A palavra ‘pecado’ é usada no título e até na tradução das legendas, provavelmente por ser um conceito mais próximo de nós ocidentais, porém o último segmento, que envolve uma personagem budista, nos mostra que esta palavra não é bem a correta para definir o que talvez o escopo dos argumentos dos contos que compõem o filme queira mostrar. Talvez a palavra ‘carma’ tenha um sentido mais próximo do original, utilizando-se o conceito oriental.

UMTOQUEDEPECADO2O roteiro é profundo, muito bem escrito e construído em relação às personagens, mas como é baseado em diferentes histórias reais, pode parecer sem um liame comum fora a ambientação e a conceptualização. As atuações são razoáveis. A fotografia não uma maravilha, porém não é ruim. O ritmo pode ser muito devagar em determinados momentos. Há alguns flertes com o cinema exploitation que o cinéfilo mais atento perceberá (em um dos contos é impossível não recordar o clássico de ação Lady Snowblood).

Um Toque de Pecado é um representante digno do bom cinema oriental que vem sendo feito nos últimos 15 anos. Não é uma obra-prima, mas vale a conferida.

A-Touch-of-Sin-Stills-Xiao-Hui-Luo-Lanshan-04-Copyright-Xstream-Pictures-Beijing_1

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