Limite – Mario Peixoto (1931)

Por Gabriel Dominato

1Mais que um filme, Mario Peixoto em 1931 criou um poema visual irretocável com seu Limite. Tão genial e visionário, Peixoto antecipara uma estética que viria a ser muito comum aos anos 1960, mas que até então pouco se havia visto. Carregado de simbolismos e signos em suas imagens, Limite está impregnado de influências do surrealismo e do cinema avant garde, sendo também referência dentro destes. Ouso porém afirmar que Buñuel levaria ainda décadas para realizar um filme com a maturidade que Peixoto já tinha em seu primeiro longa. Revolucionário em conteúdo e na forma, Limite é sem dúvidas um dos grandes êxitos da produção cinematográfica brasileira, possuindo todos os elementos que tornam uma obra atemporal: forma inovadora e a suscitação de questões que serão inerentes ao homem por toda sua existência. Aquela fotografia parece sofisticada ainda hoje, era de um modernismo tão gritante e um rigor técnico tão apurado que alavancou o cinema brasileiro no exterior, conferindo-lhe autoridade comparativa para entre os grandes diretores da época. Como o professor Carlos Augusto Calil da USP disse, Limite “Não é prosa, é poesia”.

2Três pessoas em um barco que conflui por um mar perolado pelo sol. Uma dorme no chão do barco. Outra espreita. Outro tristonha. O barco segue por esse mar por vários minutos a fio. Todo o filme é permeado por um forte senso de alegoria, metáfora após metáfora. Abrindo com uma mulher que está envolta por duas mãos acorrentadas. Mario Peixoto já dá o tom para onde vamos segue com esse barco, desolado por águas oníricas. Mario Peixoto parece muito mais preocupados em fazer o espectador sentir aqueles personagens, literalmente à deriva, do que fazer entende-los. Por isso, se abstém até mesmo do plano de fundo narrativo, pois nada disso importa. Em contrapartida, com a ausência da história, nos conectamos através de outros meios por aqueles personagens, ficando muito mais envoltos por sua essência através da sombra sob seus olhos, ou do sol refletindo sobre seus cabelos, do que se soubéssemos que eles estavam ali, no barco, por x ou y. É como em um sonho, onde as coisas são, apenas, estão ali, e naquele momento se deve aceitar como são, pois é da natureza dos sonhos ser como querem e, para se desfrutar integralmente da obra, é necessário se deixar levar junto com eles pela correnteza.

8Pelos símbolos iniciais já podemos notar angústia, desespero e uma prisão simbólica, a liberdade interior comprometida, que será exposta através da figura do homem no barco. Estes sentimentos permeiam todo a película. Peixoto foi vanguardista muito antes de Godard pensar em nascer, filmou primeiros planos de objetos muito próximo, pessoas de costas e detalhes como cabelos, recortando-os do resto, isolando-os e dando autonomia imagética, como não se costumava fazer. Seu rigor formal e experimentalismo iam aos extremos do que se permitia à época. As colagens deslumbrantes e fusões de imagens só se encontraria paralelo nos experimentalismos do cinema do leste europeu, quase trinta anos depois. Na forma, Mario Peixoto revolucionou mais que o Cinema Novo, vez que fez tudo isso na boca da criação, enquanto o cinema ainda se rastejava, enquanto o Cinema Novo subverte mais a narrativa que a montagem, Peixoto subverte ambos, com um primor descomunal, garantindo para sempre seu lugar nos cânones do cinema. Transgressor, fez fato que poucos dos que viriam depois conseguiriam, inseriu em sua subversão a poesia e o lirismo, que nem sempre conseguem se associar diretamente ao experimental que tende a ser agressivo e muitas vezes provocador, incapaz de despertar sempre o encanto. Mas Limite tem essa magnitude por alias essas duas vertentes de forma perfeita, ele inova na sua experimentação, enquanto entorpece pela sua beleza qualquer espectador.

3Encontramos merecido prestígio à película de Mario Peixoto, embora como se discutirá abaixo, não todo o merecido, na restauração e exibição em 2007 no Festival de Cannes; a inserção da obra World Cinema Foundation, idealizada por Martin Scorcese e que tem por objetivo a proteger filmes que sejam marcos na cultura de cada país e que correm risco de se perderem pelo tempo. Vários estudos se realizam sobre a obra, dentro e fora do país. Em 2011 a cinemateca brasileira restaurou o filme que ganhou nova banda sonora pelo norueguês Bugge Wesseltoft (Terapia do Amor), que viera ao Brasil para executar ao vivo a trilha durante a apresentação da restauração. Recentemente no documentário da BBC A História do Cinema: Uma Odisséia (2011), Limite foi incluído como o único filme nacional que ilustrava o período dos fins do cinema mudo em convergência com o cinema falado, figurando ao lado de filmes como O Martírio de Joana D’arc (Carl T. Dreyer, 1928)e O Encouraçado Potemkin (Serguei Einsenstein, 1925), enquanto para o resto do cinema, o Brasil, na visão do documentário, não apareceria novamente com destaque até o advento do Cinema Novo. Não que se pretenda desmerecer aqui o período que vai de 1930 a 1950, mas é fato que lá fora, Limite se tornou o filme que representava o cinema brasileiro, e até os dias de Glauber Rocha, se ignorou a produção nacional quase que por completo. Aqui sabemos que houveram filmes maravilhosos nesse período, mas nenhum conseguiu tamanho destaque como o filme de Mario Peixoto. E considero um destaque merecido, as virtudes deste filme até hoje podem ser apreciadas, sendo que nem o tempo, nem as cores, nem a fala, foram capaz de diminuir a beleza dessa obra-prima atemporal do cinema nacional.

10Michael Korfmann em seu artigo On Brazilian’s Cinema: from Mario Peixoto to Walter Salles, comenta que o filme de Mario Peixoto costumava ser sumariamente descartado dos livros de história do cinema, não completamente, destacavam o brilhantismo de sua direção, mas nunca entravam no mérito do filme propriamente dito, devido ao desinteresse que provinha de tudo que não eram produções norte-americanas ou europeias. É com o crescimento do chamado cinema de margem, que é realizado em países na periferia da produção cinematográfica, com poucos recursos e geralmente debatendo questões pontuais de problemas locais, que as atenções se voltam para cinematografia do Brasil, principalmente com o Cinema Novo, quando se torna impossível negar a influência do cinema nacional na construção da cinematografia mundial. Uma vez rendidos a este cinema, com a atenção realmente empreendida na análise desses filmes, se constituí então a importância deste filme também lá fora, uma vez que aqui dentro sempre esteve consolidada. Outro problema que se relata não era a hegemonia cultural americano-eurocentrista, mas o fato de que não se falavam destes filmes porque eles nem ao menos chegavam a ter uma distribuição nestes outros continentes. Seja por uma razão ou por outra, o fato é que Limite levou décadas para ser reconhecido como a obra-prima que é e, talvez, se não tivesse sido reexibido em edição remasterizada no Festival de Cannes de 2007, talvez permanecesse até hoje em obscuridade.

5Korfmann (2006) revela que diferente de alguns países da América Latina, equipamentos cinematográficos foram trazidos ao Brasil desde muito cedo por imigrantes, tendo-se imagens que datam de 1898, retratando a Baía da Guanabara no Rio, e a produção cinematográfica propriamente dita também começa cedo, em 1908, não ficando muitos anos atrás do resto dos ditos países desenvolvidos, com a adaptação do livro de José de Alencar O Guarani. Então, em 1931, ano deste Limite, o Brasil já contava com uma certa cultura cinematográfica, que deu vazão para toda a vanguarda de Mario Peixoto se expressar de forma tão tecnicamente apurada. Porém, os meios pelos quais a arte brasileira tomou forma nos anos 1920, através do cubismo e expressionismo, teriam levado a sua consequência negligência para o autor, uma vez que ao retratar costumes populares, mitos, lendas e personagens folclóricos como plano de fundo para esses longas, acabava-se criando composições estéticas das mais refinadas, mas de teor político não tão elevado. De todos estes, os dois que mais se destacaram fora o próprio Limite e Gunga Bruta de Humberto Mauro de 1933. Enquanto o primeiro seria por muitas vezes aclamado o maior filme brasileiro de todos os tempos, fora o segundo a grande influência do Cinema Novo e de Glauber Rocha.

9Limite foi apresentado a alguns grandes nomes do cinema com Maria Falconetti e Orson Welles em passagem pelo Brasil, mas também foi levada para fora, sendo exibido em Londres e Paris, e visto por Sergei Einsenstein (O Encoraçado Potemkin, 1925), que escreveria um artigo intitulado Um Filme da América do Sul sobre o filme, que mais tarde se revelaria escritor pelo próprio Mario Peixoto como foram de tentativa de reconhecimento. Georges Sadoul intitulou o filme como “A Obra Prima Desconhecida”, alcunha que remetia ao fato de que o mundo todo acaba ouvindo falar sobre Limite, mas de fato, poucos o assistiram à época de seu lançamento.

Ismail Xavier, renomado estudioso do cinema e professor da USP, comentou em palestra que uma obra de arte como Limite se diferencia das outras pelo fato dela “puxar o freio” e obrigar o espectador a parar para olhar. Se referenciando ao sistema de produção capitalista, no qual o ritmo vertiginoso é característica prima, onde não se tem tempo para se ver e ouvir nada, a obra de Mario Peixoto causa um grande contraponto, uma vez que rompe totalmente com a lógica capitalista de práxis e ideologia, se entregando a uma tarefa completamente à execução da ideia, sem que no entanto seja a forma afetada, uma vez que nenhuma concessão foi admitida pelo diretor, ao arcar integralmente com o custeio da produção, não tendo intervenções do sistema e do mercado, sendo como o próprio Mario Peixoto afirmou, uma obra de linguagem pura.

5Para muitos Limite é o primeiro e único exemplo de cinema experimental durante a era do cinema mudo. Esta experimentação, indica análise fílmica no próprio site do Mario Peixoto, fica indicada desde os “i” do título da obra, que irão dar a linha mestra ao filme. Os personagens estão sempre limitados por estas linhas que formando triângulos e cruzes, e nas sequências de memória, estas estão sempre limitadas, não se podendo alcançar o todo. Este é outro aspecto que se reproduz na parte formal do filme, existe toda uma fragmentação em sua montagem, que à época era muito sofisticado, tendo-se amparo na ausência de cronologia e nos flashbacks que hoje são recurso comuns para a linguagem do cinema, naquela época ainda estavam em construção, e a forma como Mario Peixoto os utiliza é tão madura, que mesmo hoje, ainda é difícil achar muitos paralelos no cinema que se utilizaram tão bem dos mesmos recursos narrativos. Ainda indicam que uma possível significação do título Limite advinha de que o cinema mudo estava no limite de se tornar cinema falado, era uma era que se findava, e Mario Peixoto queria testar todas as descobertas feitas pelo cinema nas duas décadas anteriores e levá-la ao ápice onde poderia chegar. Ainda, pode ser visto como um filme que estava atrelado a um contingente de limitações técnicas e financeiras, uma vez que o próprio Mario Peixoto o financiou sozinho, condicionando técnicas e abordagem cinematográfica às possibilidades que o momento da feitura do filme (1930) oferecia. Então existe uma polivalência de limites dentro do contexto do filme, mas sendo financeira ou narrativa, o limite que mais se destaca é o da forma, que eleva ao extremo possível a linguagem narrativa da época, indo até onde era possível no final da era do cinema mudo.

7Encontramos a metáfora da memória na fluidez do rio, que corre constante e sem ser possível parar, a cada curva do rio, encontra uma memória, que está limitada por si mesma, pela própria capacidade de lembrar, e ademais, porque a corrente jamais para de fluir, e é preciso continuar adiante. Peixoto, no artigo associado a Eisenstein, dirá que não se quer mostrar nada em Limite, se quer fazer sentir, e este sentimento seria obtido através da câmera, que segundo ele teria “rara precisão e engenho” para gerar “angustiantes acordes de uma sintética e pura linguagem de cinema”. Mario Peixoto deixava claro que suas intenções não era a narrativa desde o princípio, a viagem pela fluidez da memória e os sentimentos que viriam a despertar no espectador eram seu objetivo. Devido a isso foi severamente criticado posteriormente por Glauber Rocha que afirmou que Limite era “incapaz de compreender as contradições da sociedade burguesa”, sendo desta forma uma “contradição historicamente ultrapassada”. Esta mesma ressalva que fora feita por Korfmann que ressalta a ausência de preocupação política na vanguarda do cinema mudo brasileiro, acabou causando outra contradição, onde a cinematografia de fora abraçava nosso filme lendário, sem ter acesso a ele, e Glauber, após ter acesso, e não foi logo de início, criticando-o muitas vezes pelo seu teor sem mesmo tê-lo assistido, negou o filme como revolucionário, sendo Limite desconsiderado pelo Cinema Novo.

13Mario Peixoto escreveu o roteiro do filme na intenção de que Humberto Mauro ou Adhemar Gonzaga o filmasse, porém, ambos recusaram o filme, indicando Edgar Brazil, um cinegrafista alemão radicado no Brasil, de quem garantiram, poderia, e o fez, realizar os movimentos intrincados de câmera que o roteiro de Peixoto requeria. Financiando o próprio projeto em auxilio de Edgar Brazil que desenvolver materiais especiais que iriam permitir a execução das sequências que Mario Peixoto tinha em mente, e que com aparato convencional não seria possível, se utilizando também, para alcançar a fotografia genial de Limite filme pancromático com alta sensibilidade para tons de cinza, o que garantiu contrastes de beleza riquíssima, que pode ser facilmente notado nas camadas de sombra pintadas sobre os rostos dos personagens quando dos close-ups e ainda no brilho da água sob o sol, que reluz com incrível intensidade.

Por volta dos anos 1959 as cópias de nitrato de Limite começam a se deteriorar, então o filme que já era tido como mítico passou quase vinte anos fora dos circuitos, retornando às telas somente em 1978, após uma restauração dedicada de Plínio Süssekind e Saulo Pereira de Mello. Sua mística chegou a tal ponto que algumas pessoas chegaram a afirmar que o filme não existia, e que Maria Peixoto era uma lenda apenas.

11Encontramos fortes influência dos artistas de vanguarda como Man Ray e suas fotografias que expressavam situações oníricas e absurdas, que dialogava tão bem com o surrealismo. Ainda, pelo fato de não ter quase intertítulos, o filme segue como retrato visual quase exclusivo, o que reforça a carga poética e anula ainda mais a narrativa. Não raro as influências do chiaoscuro do expressionismo alemão podem ser encontradas nos vales de sombras que permeiam todas as paisagens e rostos, que nunca são iluminados diretamente pelo sol, ainda que abaixo do mesmo. Seus contornos são sempre delineados por sombras, o que reafirmar o tom onírico e surrealista, pois os personagens, tal qual os sonhos, nunca se encontram perto o suficiente para os tocarmos, mas em contrapartida, nunca estão longe o suficiente para fugir de nós. Mario Peixoto tinha admiração confessa pelo cinema alemão e russo, tendo-os conhecido em viagem para a Europa aos 19 anos, estando entre suas principais influências F.W. Murnau, Ernst Lubitsch, Vsevolod Pudovkin e Sergei Einsenstein, voltando após, em 1929 para poder assistir a obras que não estavam disponíveis no Brasil. Estas influências ficam bastante claras na forma como as figuras humanas são desenhadas e seus contrastes com as paisagens, sempre evocando a grandeza que o cinema daqueles países costumava apresentar em suas obras, porém, se utilizando delas de uma forma muito mais experimental e metafísica.

Hoje porém, após muito, Limite tem estatuto de obra prima da sétima arte, tendo sido demonstrado pelo tempo sua atemporalidade. É e continuará um dos melhores filmes da cinematografia mundial e Mario Peixoto merece figurar entre Dreyer, Lang, Griffith, Einsenstein e Murnau.

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Fontes:

Mario Peixoto [http://www.mariopeixoto.com/limite.htm]

KORFMANN, Michael. On Brazilian Cinema: from Mario Peixoto’s Limite to Walter Salles. Senses of Cinema (online journal). Issue.

 

 

 

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