Tatuagem (2013) – Hilton Lacerda

Por Samuel Costa21027962_20130813135949495

“No futuro, o amor e a liberdade serão como num filme” Frase de divulgação de Tatuagem.

“A única coisa que nos salva, a única coisa que nos une, a única utopia possível é a utopia do cu…” Polka do cu – DJ Dolores.

Ambientado em 1978, período marcado pela censura institucionalizada da ditadura militar e também por sinais que indicavam o esgotamento do regime ditatorial, engana-se quem pensa que Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda, é um filme sobre o passado. Enquadrar a obra a um único tempo seria uma injustiça, pois a mesma conflui passado, presente e questões e aspirações para o futuro. No que diz respeito à arte e política é contemporâneo e poderoso, belo e candente. Entre vários prêmios e festivais, o longa foi vencedor na categoria melhor filme, melhor ator (Irandhir Santos) e melhor trilha sonora no Festival de Gramado de 2013. Se pensa que desconhece outros trabalhos do diretor, muito provavelmente está enganado, Hilton Lacerda foi roteirista em Amarelo manga (2002), Árido movie (2004), Baixio das bestas (2007), A festa da menina morta (2008), Capitães da areia (2011), Febre do rato (2012), diretor do documentário Cartola: música para os olhos (2006), entre outros reconhecidos trabalhos do cinema brasileiro. Em Tatuagem o cineasta nos oferece uma dose generosa do que há de potente no cinema pernambucano, brasileiro e mundial. Não tema em tomá-la e experimentar os seus efeitos estético-políticos, artístico-antropofágicos, afetivo-intelectuais.

tatuagem-111978 foi o ano até o qual perdurou o AI-5 que, entre outras questões, institucionalizava a dura censura sobre a imprensa e produções artísticas no Brasil. Nesse contexto, a narrativa de Tatuagem acompanha o trabalho da trupe teatral pernambucana Chão de Estrelas, um grupo de artistas que busca manter suas apresentações e shows recheados de conteúdo político subversivo em plena ditadura militar. As apresentações misturavam música, teatro, cinema e poesia, tudo em consonância com um formato estético-político anárquico e antropofágico. Permeado a essa exaltação da arte, a trama nos apresenta a relação amorosa entre um dos artistas, Clécio (Irandhir Santos), e um jovem recruta do exército, Fininha (Jesuíta Barbosa), que conhece a trupe ao procurar por seu cunhado Paulo, mais conhecido como Paulete (Rodrigo Garcia), psssara entregar-lhe uma encomenda a pedido de sua noiva. Ao conhecer esse universo completamente novo, Fininho se encanta pelos artistas, pelas ideologias libertárias e por Clécio. Portanto, toda a trama é permeada por essa tensão entre as liberdades, dos sujeitos e da arte, e a censura, os moralismos dominantes e a repressão.

O longa é um ótimo exemplo de junção entre forma e conteúdo. As questões e ideias abordadas, sejam elas de cunho artístico, políticos, afetivo ou moral, (a psicodelia, liberdade sexual, amor livre, experimento de drogas, etc.) estão anexadas a uma estética ligada ao ideário antropofágico que foi reelaborado nos anos 60 e 70 pelos movimentos de contracultura no Brasil. Tal estética produzia e explorada em Tatuagem, emaranha-se com a estética do filme em si. O espectador facilmente fará suas conexões entre o filme e certa tropicália a la Novos Baianos – as imagens de um filme dentro do filme nos lembra Novos Baianos F.C. (1973), de Solano Ribeiro – , uma certa estética do lixo, cinema marginal,6 artistas e intelectuais localizados no cenário da contracultura brasileira. A trupe Chão de Estrelas reúne um turbilhão de referencias e ideias e regurgita isso em forma de um deboche subversivo, o filme de Lacerda traz esses elementos para um contexto artístico-cinematográfico contemporâneo.

A boa receptividade que teve entre os críticos, festivais nacionais e internacionais, advém da qualidade do conjunto da obra. As atuações de Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa e Rodrigo Garcia são marcantes, cada um com personagens com características muito distintas as quais os três trabalharam de maneira formidável. A trilha sonora poderia ser um show a parte, mas é um show integrado, conflui com a proposta estética da qual falava acima. DJ D2ieqmwsunmghphqjyo2ywubaeolores desempenha um trabalho fabuloso com a trilha original e também há de se destacar a canção Volta do pernambucano Johnny Hooker. A fotografia também é muito bem executada e foi premiada pela crítica no Festival Sesc Melhores Filmes – no qual Irandhir Santos também foi premiado pela crítica e pelo público como melhor ator.

Tatuagem é um filme atualíssimo em termos de cinematografia, de arte e de política. A censura e a repressão militar presentes no filme não é algo tão distante dos nossos dias como pode parecer, basta prestar atenção em como a grande mídia oblitera e manipula as informações que chegam a nós, ou olhar para a violência institucionalizada que ocorre diariamente contra pobres, negros, povos indígenas, manifestantes, entres outros sujeitos. Ainda, vivemos em um mundo cheio de moralismos ao redor do corpo e sexualidade que impedem debates mais abertos. Impede que sujeitos tenham direitos simples como amar. Mas, felizmente, temos a arte e sua subversão criativa!

Sem título

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