Um Estranho no Lago (2013) – Alain Guiraudie

ImagemPor Samuel Costa

Sexo, morte, erotismo e suspense. Do tesão à tensão, Um estranho no lago (L’inconnu du lac, 2013), do diretor francês Alain Guiraudie, é um thriller contemporâneo à altura dos clássicos do gênero. Críticos vêm comparando-o aos trabalhos de Hitchcock, e não é por menos, pois a obra faz jus à expressão “de tirar o fôlego!”. Vencedor do Queer Palm e melhor direção na mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes, o filme foi bem recebido em festivais, pela crítica e pelo público em geral. Recheado de nudismo e com cenas de sexo explícito homoerótico, o longa poderia facilmente ser alvo de crítica aos olhos de conservadores, mas a qualidade e o refinamento artísticos que trouxe novos ares a um gênero que já não está tão em alta não deu espaço aos discursos mais moralistas. Guiraudie nos presenteia com um filme poderoso!

A narrativa é daquelas que segura o espectador pela mão e o leva pelo universo da obra. Primeiro, conhecemos o cenário e o contexto onde tudo se desenrolará. A trama se passa inteiramente em um lago e suas mediações (a margem do lago, o bosque e o estacionamento). O local serve como praia de nudismo e ponto de encontros entre homens homossexuais que vão lá para nadar, conhecer outros caras, ter relações sexuais, etc. É verão e ImagemFrank (Pierre de Ladonchamps, que venceu o César de ator revelação por este papel) é um frequentador assíduo do lago, ótimo nadador e um homem com tendências à apaixonar-se. Conhece Henri (Patrick d’Assumçao), um cara solitário que vai ao lago em busca de tranquilidade a paz. Este não é um frequentador conhecido e Frank torna-se seu único amigo. A leve e sincera relação entre os dois é atravessada pela paixão e atração de Frank por Michel (Christophe Paou), um cara misterioso que anda acompanhado por um outro rapaz. Frank testemunha um assassinato no lago e, mesmo observando os riscos que o cerca, decide mergulhar em uma relação perigosa.

A sensação de desorientação quanto aos rumos do filme em suas primeiras sequencias, que apresentam o cenário da trama com aparente despretensão, torna-se a cada minuto em um crescente clima de suspense, mistério e perigo, levando o espectador à intensidades de Imagemtensão inesperadas. Nesse aspecto Guiraudie dá uma aula de construção de roteiro, faz com que os espectador se mantenha atento a cada momento, anuncia o que está por vir ao lado de uma constante incerteza. A narrativa é genial o bastante pra prenunciar o inevitável sem entregar o desfecho de mão beijada. Afinal, o desfecho não importa, o que importa é a condição na qual somos colocados como observadores dessa história. A conclusão é que terminamos o filme com o coração nas mãos, paralisados de tensão e expectativa.

Mas antes da tensão, o tesão. O erotismo e o perigo misturam-se e brincam com as sensações do espectador. O caráter erótico das cenas de sexo dialogam e jogam com a libido sexual do espectador, independente do gênero e orientação sexual. São belas sequencias que não tem o receio de explorar em imagens e sons o prazer sexual. Quanto ao nudismo, o estranhamento que pode causar no começo passa por um processo de aproximação e praticamente naturalização. Ao fim da obra este nosso tabu com o corpo nu está momentaneamenteImagem esfarelado. O filme não oferece espaço para polêmicas, olhares preconceituosos logo são rebaixados e enfraquecidos, afogam-se na “naturalidade” da corrente de imagens despudoradas.

Podemos questionar, o que se transforma de fato ao longo do filme? A trama que vai de uma ingênua despretensão a um thriller frenético ou o espectador que oscila entre o tesão e altas doses de tensão? Eu diria que ambos fazem parte de um mesmo movimento. Um emaranhado de narrativa e emoções que nos lembra o que é um bom cinema, aquele que nos afeta. Um estranho no lago não nos deixa sair ilesos.

ImagemOs aspectos técnicos do filme também integram este movimento. A fotografia oscila entre a claridade do dia, o brilho e as luzes que refletem sobre a água, e o escuro da noite, no qual pouco se vê e mal se sabe quem está ao seu lado. A ausência de trilha sonora dá espaço para o balanço entre os sons crus e tranquilizantes do lago e os barulhos misteriosos da mata, suspiros e gemidos, respirações de prazer e de medo, tudo atravessado pelo contínuo som do vento.

Para finalizar, cabe mencionar a figura do bagre. Ser misterioso que, exista ou não dentro do lago, segundo Henri, apresenta perigo aos banhistas. Mas quem é o bagre? Quem é o estranho no lago?

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