Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum – Joel e Ethan Coen (2013)

Por Gabriel Dominato

Inside Llewyn DavisInside Llewyn Davids – Balada de um homem comum tem como plano de fundo um cantor folk tentando ganhar a vida no mundo da música, porém, fosse apenas isso não teria o hesito que tem, o que transforma este novo filme dos irmãos Coen em algo tão singelamente belo é o fato que o filme se constrói como uma canção folk, narrando a vida de Llewyn no ritmo que teria uma canção de um Bob Dylan, contemplando a vida do homem moderno (na década de 1960), sua relação com a cidade e suas relações sociais, e nisso reside a força da película. Llewyn, enquanto perambula de bar em bar fazendo seu nome como cantor folk, irá cruzar com vários personagens icônicos e absurdos, que trazem o segundo grande mérito do filme. Sua construção é feita de uma forma tão bem delineada, que a verossimilhança faz o espectador se interessar pelas figuras apresentadas, porém, a melhor parte disto é que a forma como se apresentam ainda dá para quem vê ter margem de compreensão daqueles personagens, não sendo entregue, no entando, todo seu psicológico, como costumam fazer alguns filmes que almejam por delinear completamente a psique de suas personagens, embora isso acarrete em um problema com a premissa do filme, que será abordado abaixo. Outra ressalva, que não envolve diretamente os personagens, mas está diretamente ligada a eles, é a direção de atores, enquanto Oscar Isaac (Llewyn) tem uInside Llewyn Davisma ótima performance em cena, o desempenho de Carey Mulligan (Jane) está apenas razoável e o de Justin Timberlake (Jim) é tão artificial que o gato de Llewyn atua melhor que ele; Timberlake, de quem a escolha para o elenco nunca me fez sentido, era esperável a atuação superficial, mas a de Mulligan, que até então havia feito outros trabalhos memoráveis como Drive (2011) e Educação (2009), foi decepcionante. Em contrapartida encontramos atuações pontuais de John Goodman, Bradley Mott e Jerry Grayson, dando tangibilidade aos coadjuvantes menores, que por vezes, se destacam mais que os citados acima.

Inside Llewyn DavisPorém, se a construção dos personagens é bem feita, existe algo no roteiro que parece retardar o desenvolvimento da relação entre aqueles. As situações se repetem incessantemente, existindo um reforço grande demais em informar ao público a situação difícil que Llewyn está passando em sua vida pessoal e profissional. Poderiam ser apresentadas diversas situações para abordar os perrengues do protagonista, porém as mesmas, ao invés de variadas se reverberam sempre no mesmo tom: um gato que foge o tempo todo, a ex-namorada que aparentemente o odeia e o bar onde vai tocar. Mais de um terço do filme se focam na repetição destes eventos. Certo que a repetição funciona como recurso eficaz para apresentar as dificuldades do jovem Llewyn, ela também revela uma ausência criativa, que, já conhecida pelos filmes dos Coen, poderia ter sido muito maior, como dos vários outros títulos dos mesmos. Porém, poder-se-ia ver ainda este Inside Llewyn Davis como uma guinada em outra direção dos Irmãos, pretendendo um retrato menos satírico, embora ainda esteja permeado pela sátira habitual, e mais humano, focando-se muito mais no espírito das coisas do que na irônica das situações, como costuma ocorrer nos filmes dos Coen.

Inside Llewyn DavisNa segunda parte finalmente é impressa uma noção de movimento na trama, embora ela se dê devido a uma movimentação física dos personagens, rompendo, enfim, com a estática da primeira parte. Porém, ainda assim, a progressão do roteiro não se altera tanto quanto o movimento de câmera parece imprimir, uma vez que a estrutura da segunda parte também se mantém constante, anulando o movimento iniciado e retardando a desenvoltura da trama. Não que um filme precise chegar a algum lugar, ao contrário, o mérito de alguns filmes reside justamente em não chegar a lugar algum, porém o novo filme dos Irmãos Coen não é um daqueles filmes contemplativos/reflexivos, no qual a imobilidade dos personagens se torna de fato um instrumento narrativo, na verdade o que acontece é o oposto, transitando entre as situações que revelam aos poucos o estado frágil de Llewyn, nenhuma delas consegue se impor, uma vez que nenhum dos conflitos é ameaçador para construir uma situação verossímil, e que juntas, ainda assim, também não parecem aptas para consolidar o roteiro, já que entre suas idas e vindas, não se foca em nenhuma das situações.

8Apesar do filme tomar grande fôlego na parte final, o que incomoda mais é que chamando Inside Llewyn Davis (por dentro de Llewyn Davis, em tradução livre), o filme acaba e só o que temos é uma noção distante de seu interior, que se apresenta mais pelo exterior na sua relação com os outros personagens do que em suas ações. Se a intenção era um retrato intimista de Llewyn, realmente um acesso a seu interior, o filme falha neste ponto, e só considero que esta seja a premissa por conta do título, porque apesar de funcionar bem em seus momentos isolados, não chegamos em momento algum perto o suficiente do personagem, quanto mais dentro dele. E aqui temos uma contradição com minhas palavras no começo, porque admito que o filme tem sim uma grande beleza e uma bela construção de personagens, a forma como são capazes de conquistar o público sem revelar todo seu interior, seria para mim um grande hesito dos Irmãos Coen, por fugirem do lugar comum e dos clichês batidos, mas como a premissa, seguindo a lógica do título, é uma análise interior de Llewyn, a meu ver, o objetivo não foi alcançado. Agora, se nos esquecermos disto, e olharmos somente para a construção dos personagens, pode-se dizer que temos em mãos um ótimo filme, permeado de pequenas falhas, mas ainda assim ótimo.

Inside Llewyn DavisO ritmo lento não é demérito para filme algum, porém, é sempre necessário grande desenvoltura ao se optar contar uma história desta maneira; quanto mais lento for a película, tão maior precisará ser o esforço da produção. Porém, Inside Llewyn Davis não tem todo este preciosismo, embora possua aquele tom, tão familiar aos fãs dos irmãos Coen, de absurdo lógico, e esse seja uma das partes fortes da película, o roteiro, que traz poucas novidades, assomado da execução que é boa, em partes, mas que poderia ser bem melhor, apesar disso, filme ainda pode figurar como uma ótima película, e estar ao lado de filmes como Fargo (1996) ou O Grande Lebowski (1998).

Inside Llewyn DavisRelevando a parte do desenvolvimento do enredo, encontramos uma parte técnica soberba, com uma fotografia delicadíssima, ajudando a esculpir esses personagens que parecem tão frágeis e que estão inseridos em contextos de grande vulnerabilidade, sendo reforçados por tons cinzentos, mesmo o dia, é sempre nublado, parecendo estarem sempre envoltos a uma tempestade que está para desabar a qualquer momento. Do mais, ainda a trilha sonora se utiliza, de forma muito bem justificada e cirurgicamente adequadas às cenas, dando um fôlego enorme para o ritmo do filme, sendo algumas das sequências mais memoráveis os números musicais, uma vez que ali, Llewyn, apoiado pela incrível voz de Oscar Isaac, revela seus sentimentos mais íntimos, deixando a dimensão do personagem ainda maior. Com grandes canções eternas do folk americano, a trilha sonora dá um ar de alívio nas situações angustiantes que estão vivendo os personagens, servindo como contraponto para suas ações cotidianas, que são apenas conflitos e incertezas. Aliando os dois elementos, encontramos uma grande obra audiovisual, no que tange aspectos técnicos, se percebe um grande cuidado no design de produção e sua execução enquanto som e imagem.

12Filmes como o novo dos Irmãos Coen é o que eu chamo de cinema de boa índole, que, nem sempre funciona, mas está a serviço de um bem maior. Enquanto exemplar de cinema talvez não seja uma obra prima, mas é perceptível a intimidade deles com a câmera, e a leveza com que ela opera, e se, talvez, o filme não funcione como um todo, possuí partes memoráveis nas quais os diretores conseguem capturar com mestria a sensação de incerteza e esperança velada, tão particular dos anos 1960. Fossem essas partes mais bem entrosadas entre si, com uma amarra mais convincente, o filme poderia ter nos levado a um lugar onde não muitos conseguem, mas infelizmente fica Inside Llweyn Davis restrito aquele campo do cinema que gosto de chamar de cinema de momentos, onde as partes são belas, mas o todo é apenas uma colcha de retalho, e isso não é de todo ruim, apenas não consegue constituir uma obra prima. Apesar de tanto, não deixo de recomendar o novo filme dos Irmãos Coen, que apesar de não ser brilhante, possui uma aura sensível que ainda se pode considerar, e cenas que, isoladas, funcionam muito bem. Podia ser mais, mas ainda assim, já é alguma coisa dentro da atual produção cinematográfica mundial, e isto, a princípio, já é um feito. Se você é daquelas pessoas que encara a vida como uma viagem, onde o que importa é o trajeto e não o destino, então Inside Llewyn Davis é um filme para você.

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Sobre sokoisdead

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