Paris, Texas – Wim Wenders (1984)

Por Gabriel Dominato

0Não são muitas vezes que uma obra cinematográfica consegue o estatuto de Obra de Arte Total, cunhado pelo alemão Richard Wagner, que se refere a uma obra capaz de reunir teatro, música e artes plásticas. O filme, vencedor do Festival de Cannes de 1984, do conterrâneo de Wagner, Wim Wenders, pode facilmente receber esta definição, sendo talvez um dos maiores filmes da história do cinema. A trama por si só tem um caráter simples, não sendo um demérito ao filme, muito pelo contrário, a simplicidade do roteiro se alia à profundidade conquistada por um desenvolvimento brilhante de personagens, somado a uma sofisticada direção de atores, criando aquela que viria ser considerada por muitos a obra prima de Wim Wenders e uma das grandes obras do cinema alemão contemporâneo. O rigor técnico da construção desta obra é descomunal, seja na visão tão distinta do diretor de olhar o mundo, a maneira pela qual se dão os grandes planos-sequência e que, muitos, já se tornaram referenciais de cinema, ou ainda os grandes planos-abertos que abarcam uma representação arenosa e desértica do personagem Trevor, que vai transitar pelo deserto simbólico e vazio da solidão, até reencontrar-se com elementos do passado que irão atordoa-lo.

2A forma como Wim Wenders dá forma à trama é excepcional, endossado apenas por uma migalha narrativa, ele constrói uma intricada relação, para não dizer confusa, entre dois irmãos: Trevor (Harry Dean Stanton) e Walt (Dean Stockwell). O primeiro, sem uma razão aparente some, fica anos à deriva em sua própria solidão – a qual Wim Wenders irá traduzir em suas imagens de forma palpável, melancólica e incontornável –, deixando para trás seu filho Hunter (Hunter Carson) e esposa Jane (Nastassja Kinski). É na construção e exposição das razões que levaram Walt a se refugiar em sua própria solidão que encontramos a virtuose de Wenders, ao filmar um personagem de dentro para fora e deixar inequívoca a situação da alma deste diante das câmeras. De seu regresso, a vida segue em um ritmo diferente, Walt tenta voltar à tona, ao mundo concreto, tornando a se comunicar e se apresentar como figura paterna para Hunter. Em uma das cenas mais comoventes, percebendo como os outros pais se vestiam, Walt vai buscar Hunter na escola vestido como aqueles, para tentar imprimir uma noção paterna para conquistar a confiança do filho. Mas é talvez no 1culminar, no monologo ao telefone que se compreende as dimensões colossais desta obra, quando por fim Wim Wenders apresenta a culminação de sua construção de personagens e deixa todos estupefatos, uma vez que a beleza da cena embarga em conteúdo semântico e visual, descontruindo quaisquer lugares comuns que o cinema costuma trazer em sua tradição clássica, reformulando o tema para o que parece uma fábula trágica, pois o tom e o teor mágico ainda pairam na atmosfera, no calor e na vastidão do deserto, na paisagem estéril, onde nada parece sobreviver, ao menos não partindo da ótica de Trevor, nem mesmo o amor, o que se confirma no destino sentenciado ao personagem, que sabiamente escolhido pelas mãos de Wenders, não dá mais que uma aparente redenção a Trevor, e o deixa ainda condenado àquela solidão na qual o encontramos no primeiro momento.

3O porquê do nome do filme é também outro momento sublime da narrativa, uma sacada de mestre, e que serve ainda como embasamento para o contraste do Trevor antes e depois de partir, uma vez que em uma curta sequência em super 8, das férias dos irmãos com as então namoradas, nos é apresentado um Trevor feliz e altivo, apaixonado por Jane, logo depois, voltando para o melancólico Trevor atual, envolto numa aura irremediável de solidão. Pouco se diz, se é que algo é dito, dos motivos que levaram Trevor a tanto, porém, a direção dos personagens é tão formidável

4Não me parece que sejam muitos filmes ao longo da história que mereçam a alcunha de obra-prima, existem sim uma infinidade de filmes excepcionais, outros excelentes, mas poucos chegam a este estatuto. O que Wim Wenders faz em Paris, Texas é uma aula magna de cinema, construindo um filme tão crível, tão belo, que o tempo testou e o consolidou.

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