O Passado – Asghar Farhadi (2013)

Por Maicon Firmiano

0“Quando duas pessoas se encontram após quatro anos e começam a brigar é porque ainda há coisas a resolver.”

Dois personagens em quadro. Se olham, se cumprimentam, e sorriem. Quando começam a conversar, a comunicação não acontece por estarem separados pela proteção de vidro do aeroporto. Criando paredes invisíveis, o diretor iraniano Asghar Farhadi observa um reencontro e as verdades não ditas que são trazidas com ele. O que fazemos para tentar fugir do passado?

1A trama de O Passado começa quando o iraniano Ahmad (Ali Mosaffa) chega à França para se reencontrar com Marie (Bérenice Bejo, ganhadora em Cannes por sua interpretação), sua ex-mulher, para finalizarem o divórcio. Daí adiante, as coisas se complicam. Segredos, brigas, olhares desconfiados surgem e tonificam uma tragédia de boas intenções, que é comandada pelas mãos confiantes do diretor iraniano.

A câmera de Farhadi e seu diretor de fotografia Mahmoud Kalari observam essas pessoas se escondendo de suas tristezas, contando uma história intimista sem se importar em procurar mazelas melodramáticas ou fazendo juiz de caráter de personagens com ações questionáveis.

2Na segunda sequencia após Ahmad e Marie entrarem no carro, a química do par já presta um serviço ao apresentar-nos o que esperar da dinâmica e da vida desse casal, nos vislumbrando um espectro de sentimentos acerca de sua relação. A distância e o silêncio, a dependência e o respeito. Como no momento em que Ahmad assume a direção do carro, após uma frustrada e nervosa Marie volta de seu “encontro” com uma das filhas. Há uma hierarquia emocional.

3O trunfo intrínseco da narrativa é seu roteiro, que parte de conflitos que em outros momentos poderiam ser considerados simples, para criar ações e reações que instigam o espectador e entregam uma progressão natural à trama. O texto, com sua alta carga de realismo e de ação cerebral, poderia descarrilar para o monótono facilmente, mas Asghar e as atuações precisas elevam o material a um estudo de personagens que atinge todas suas notas. E o faz com graça e respeito aos posicionamentos de seus protagonistas, sem se render a didatismos.

A iluminação e as cores de Kalari desenham os personagens através de cantos e posições ambíguos, sempre cobertos por sombras, mas constantemente próximos a pontos de luz. A câmera os encurrala, mas mantém uma distância saudável o bastante para diagnosticarmos que eles se inseriram naquela situação.

4Um trunfo da cinematografia de O Passado é o uso do amarelo e seus tons (na lavanderia, na casa de Marie e nos figurinos), uma cor difícil de ser iluminada em película. O amarelo, segundo o próprio Asghar, representa a dúvida e instabilidade na cultura iraniana. Ele elege a cor como tema visual que evoca ardor e dúvida, uma dualidade presente durante todo o filme da forma mais sútil e onírica possível, fugindo da abordagem verborrágica que o discurso poderia ter tido.

5A direção de arte do filme constrói uma arquitetura visual que reforça as inquietações do roteiro de Asghar, a começar pela localização suburbana da casa de Marie, que dá o tom à movimentação emocional dos personagens. O ambiente não é glamouroso, a Paris deles é uma cidade arenosa e cinzenta, um lugar complexo para caráteres complexos. A casa de Marie e outros interiores têm um layout também intrincado, uma formatação que conta uma história por si só graças a verissimidade que confere. A pintura na casa de Marie talvez seja a melhor aplicação do passado na narrativa, onde por mais que tentem, todos acabam se sujando com a tinta das paredes recém-pintadas. O passado acaba por ser derramado pelas suas vidas, mesmo com o esforço em limpar a sujeira.

6Diferente de seu trabalho anterior, “A Separação”, onde o ritmo da edição acompanha as explosões e texturas nervosas de cada ponta dramática da história, aqui Farhardi e sua editora Juliette Welfling observam a introspecção com mais respiros e contemplação.

7O diretor iraniano, vale lembrar, não dominava a língua francesa na época das filmagens, mas isso não o impediu de nos presentear com uma obra visceral. Mais uma carta de amor à complexidade moral de nossa sociedade, e ao cinema.

le-passe-poster

 

Anúncios

Sobre sokoisdead

Apenas um cinéfilo.
Esse post foi publicado em Cinema, Cinema do Oriente Médio, Cinema Iraniano e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s