Filmografia #1 – Andrei Tarkovski (1932 – 1986)

Por Gabriel Dominato

andrei-tarkovsky1Andrei Arsenyevich Tarkovski nasceu em 4 de abril de 1932 na União Soviética (país que teria colossal influência em sua filmografia,tanto no que tange a sua cultura e a seu povo, mas também negativamente, com sua expulsão do país e consequente exílio). Filho do poeta Arseni Tarkovski (do qual Tarkovski se utiliza na narrativa de alguns de seus filmes), Tarkovski filho se formou em geologia, formação a qual não chegou a exercer, se dedicando a partir de 1956 exclusivamente ao cinema, quando ingressa no Instituto Nacional de Cinema da URSS, o VGIK.

windowslivewriter2d3393a4c474-82d-1961thesteamrollerandtheviolinfoto1Ainda em seus anos de formação, Tarkovski dirigi uma adaptação de um conto de Ernest Hemingway “Os Assassinos”. Num primeiro momento, não se nota muito dos elementos que marcariam a carreira de Tarkovski. No curta, ainda não existe uma real assinatura por parte de Andrei. Elementos que vão caracterizar sua obra só iriam aparecer duas obras mais a frente, em “A Infância de Ivan” (1962). Antes deste, Tarkovski ainda realiza um média metragem, como trabalho de conclusão de seu curso de cinema na VGIK, chamado “Rolo Compressor e o Violinista”. De uma sensibilidade ímpar, já se pode começar a notar a precisão da direção de Tarkovski no que tange as relações humanas, suas emoções. Mas dois elementos chaves ainda não aparecem ainda: a memória e a infância. Toda obra que virá depois desta se pautará enormemente nestes elementos. Em alguns filmes como “O Espelho” (1975), esses elementos deixam de ser apenas isso, são todo o motivo do filme, uma sucessão de memórias que resgata vários períodos da infância do próprio Tarkovski.

infanciaCom “A Infância de Ivan” Tarkovski de destaca como diretor, ganhando o Leão de Ouro no Festival de Veneza (que é o prêmio máximo do festival). Aqui, vemos ainda uma linha narrativa bastante rígida e tradicional. Um menino frente aos terrores da guerra, amadurecendo, ao mesmo tempo em que temos flashbacks (dos mais belos já realizados na história do cinema) de sua infância, e a vida pregressa a guerra; em suma, de sua infância. Existe, a meu ver, uma grande preocupação muito grande com as raízes, as origens. Seja a infância ou o solo, como bom russo, existe algo de importante quando filma sua terra, não é apenas idílico, mas um sentimento de amor pelo seu significado. O que ficará ainda mais claro em sua condição de expatriado em filmes como “Nostalgia” (1983) onde nem mesmo o título o nega: saudade de sua terra e de seu povo, e “O Sacrifício” (1986) onde Tarkovski assume uma linguagem quase metafísica, é seu ultimo estágio estilístico, e o que mencionei quanto a linha narrativa de “A Infância de Ivan”, aqui já não existe.

solaris-bild1Tarkovski não se repetia, não repetia linguagem nem mesmo gênero, foi da guerra, ao drama, ao épico, à ficção científica espacial, ao metacinema. Aí está um dos méritos de sua genialidade, e o porque tantos o consideram de uma sacralidade absoluta no cinema. Alguns de seus filmes são tidos como os melhores já realizados até hoje e adorados por cinéfilos de todas as nacionalidades, servindo de referência a qualquer um que queira incursionar pelas veredas da realização cinematográfica. Mas não apenas visão cinematográfica, Tarkovski possuía uma extrema capacidade de contornar as intempéries que a profissão continuava. Nunca foi fácil encontrar financiamento para cinema, em qualquer região do mundo, mas em especial a URSS era dos lugares mais difíceis. Por dois motivos: governo e regime político. Um restringia a ideologia, o outro as verbas para produção. Tarkovski nunca se rendeu aos filmes propagandistas soviéticos, e por conta disso, sua produção sempre sofreu com financiamentos. Logo, operava com, literalmente, os restos. Seu filme “Andrei Rublev” (1966) deveria ser uma película colorida, mas só o que conseguiu para filmar foi filme P&B. Mas não se abateu a isso, realizou então de forma exemplar um filme de um rigor artístico abismal,  com talvez uma das fotografias mais estonteantes que se possa encontrar, principalmente comparado a outros filmes também em preto e branco.

Andrei Roublev 1966 réal : Andrei Tarkovski COLLECTION CHRISTOPHELEste “Andrei Rublev”, segundo longa metragem de Tarkovski mostra uma evolução vertiginante das habilidades do diretor, e também causa o atrito com as autoridades russas, que enxergam anti-nacionalismo na obra. Tudo assume uma proporção maior: é um épico que pinta uma Rússia do século XV com um primor inigualável, representando a vida do pintor homônimo, iconoclasta daquele país, de forma catártica, misturando um idilismo a algo místico.  Não é segredo que Tarkovski era um homem de grande espiritualidade, a partir deste segundo longa isso é facilmente notável, porém, de forma alguma ele assume um posicionamento ou tenta convencer o espectador. O divino em seus filmes, a graça, apenas o são, como elementos pertencentes ao mundo, aos seus mistérios, mas em momento algum são motivos, e isso torna seus filmes em algo epifânico.

stalker-21Em 1972 Tarkovski realiza seu “Solaris”, adaptação do romance do conterrâneo Stanislaw Lem (o primeiro de dois livros de ficção que adaptaria em sua carreira, sendo o próximo “Stalker” de Arcadi e Boris Strugatski, realizando com estes uma subversão ao gênero, onde a ciência fica em segundo plano, e ação é interna, foca-se o interior dos personagens, sendo os livros apenas um fundo narrativo, quase desnecessário, porém bastante funcional para a criação destas personagens). Este seria, talvez, o filme mais conhecido ao grande público, pois fora adaptado em 2002 por hollywood, levando o nome à mídia e causando curiosidade para com o trabalho original. Em seu próximo trabalho “Stalker” a narrativa ficaria ainda mais acanhada, bastante escondida mesmo, lá no fundo. O foco seria a relação dos personagens e seus desejos mais internos. Em “Solaris” Tarkovski já abordava o desejo. O planeta Solaris era capaz de trazer ao protagonista o que ele mais ansiava: sua mulher, que havia se suicidado. Perto de sua órbita, ela retorna para ele. Não apenas uma, mas várias vezes. Porém, em todas elas, ela encontra um novo jeito de se matar. Em “Stalker” existe uma zona capaz de realizar o desejo mais profundo de quem nela adentra, contudo, nesse caso, nem mesmo os personagens conseguem saber qual é este desejo, e por tanto, hesitam à porta do lugar miraculoso, sem nele adentrar, pois não sabem o que, uma vez lá dentro, iriam receber.

urlEste “Stalker” não é apenas uma fase de transição na carreira de Tarkovski, é o marco. O auge de seu brilhantismo. Por muita gente ele é considerado simplesmente a melhor obra já realizada no cinema, e sempre entra nas listas de melhores filmes de todos os tempos. Existe algo de poderoso, não apenas na imagem, mas na situação, ela encosta no limiar da condição humana, faz-nos indagar se aquilo que conscientemente desejamos é de fato nosso desejo mais profundo, entre tantas outras questões.

tar018Após Stalker, uma ruptura: Andrei, com problemas com as autoridades russas,  exila-se na Itália. Lá busca continuar a filmar, mas o hiato é grande, se passam quatro anos até que Tarkovski retorne para detrás das telas. É fato que prolificidade não era algo próprio dele, em toda sua carreira produziu apenas 7 longa metragens, e o hiato entre os filmes sempre foi bastante grande, lembrando que sua carreira começa em 1962 com “A Infância de Ivan” e vai até 1986 com “O Sacrifício”, ou seja, apenas 24 anos em atividade. Os quais foram interrompidos precocemente em decorrência de um câncer que sofrera. Seus ultimos filmes não se interessam em narrar uma história, e de certa forma até mesmo as relações entre as pessoas. É quase um solilóquio, um ensaio sobre algumas questões da vida. Algo semelhante ao que Godard passou a fazer no fim de sua carreira, mas enquanto em Godard o viés era visual, em Tarkovski foi mais introspectivo, mais sua própria alma, que a técnica.

sacrificioTarkovski morre na França, em Paris, em 1986, longe de sua terra, longe de sua família, esposa e filha. O Estado impede Tarkovski de voltar à URSS mesmo quando era sabido que lhe resta pouco tempo de vida. Mas ainda grava lá em parceira com a TV Rai “Tempo de Viagem” (1983), uma viagem nostálgica belíssima, com toda a sutileza e delicadeza de Andrei ao lado de Tonino Guerra, fazendo pesquisas e debatendo seu próximo longa “Nostalgia”. Em 1986 realiza seu ultimo filme “O Sacrifício”, agora na Suécia, um filme que se comunica com Bergman e até mesmo lhe empresta um de seus atores mais habituais, Erland Josephson. Aqui a reflexão parece mudar, embora haja nostalgia e memória, há também temas como o fim e a velhice.

Tarkovski realiza uma obra curta, ao longo desses 24 em ativa, mas de forma alguma sua brevidade pode significar desimportância, ao contrário, o que realiza nestes 7 longas, 1 média, 1 curta e 1 documentário é de uma grandiosidade monumental, da qual poucas cinematografias no mundo conseguem se igualar, e a qual lhe confere o título, a meu ver, de o melhor realizar russo e um dos melhores do cinema mundial. Sua obra carrega uma peso atemporal, que será sempre viável e sempre interessante a qualquer um que um dia se interesse por cinema. E para aqueles que respiram esta arte, será sempre fundamental.

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