Danação – Bela Tárr (1988)

damnation003Bela Tárr, mais que a maioria dos diretores, entende o vazio humano e sua solidão; seu tédio. Todas as cenas deste Danação (1988) estão repletas de um vazio desolador, que iria se agravar cada vez mais ao passar dos anos, na feitura de cada nova obra, culminando por fim no seu filme mais pessimista O Cavalo de Turim (2011). Cada plano revela a ausência de salvação, como o fizera com o plano simbólico das aranhas tecendo sua teia invisível sobre todos em Sátátangó (1994), onde uma mão transparente, inexorável, torna qualquer chance de redenção remota e impossível, o mesmo sentimos neste primeiro filme, porém, não em forma de alegoria, mas crua e tangente. Por intermédio da fotografia em preto e branco de Agnéz Hranitzsky – longa colaboradora do diretor – se constrói um cenário, uma Hungria rural – sempre presente nas obras de Tárr -, sempre escura, entre sombras, desolada. O retrato do desespero do personagem central Karrer (Miklós Székely B.), em meio a esta escuridão que permeia todo o filme, toma propriedade através de uma direção de atores formidável.

Karrer, como todo personagem de Bela Tárr quer fugir, encontra-se em desespero, e parece encontrar a solução através da migração; observe-se Sátántangó onde querem o dinheiro para ir embora, ou ainda As Harmonias de Werckmeister onde a salvação vem de fora, pelo Príncipe e a Baleia. Mas tal como nos revela a teia da aranha, não podem fugir; embora não vejam estão paralisados. Este é o drama central de quase todas as pessoas no mundo do diretor: inamovibilidade.

damnation002A progressão das cenas ocorre de forma esplêndida. Os cortes e a montagem dão um ritmo que consegue transpor para as telas todo o ócio e solidão daquelas pessoas, em especial Karrer. Tanto quanto pela atuação, a mise-en-scenè constrói os sentimentos dos personagens, seu drama. Claro que é pela ótica de Bela Tárr que tais elementos ganham proporções colossais. Em certa altura numa das primeiras cenas dos filmes temos um travelling muito vagaroso mostrando nada além de copos num bar, tais copos assumem uma dimensão enorme: revelam o que será dito depois, toda a vida deste homem tem se dado dentro de bares, em cinco mais especificamente irá dizer o garçom. Este é apenas um exemplo de como Bela Tárr possuí uma forma grandiosa de focar as coisas, de dar tamanho ao que em outro cinema pode não parecer ter relevância.

Ao fim, quando a obra se encerra, notamos que algo de grande se acaba. É de um rigor tão intenso, como já o era em seu primeiro longa Almanaque de Outono (1984), que chega a assustar. Quando ocorre então quatro anos depois do primeiro filme a transição para o preto e branco neste Danação, o rigor parece ainda maior, e nos filmes que viriam se tornaria ainda maior, culminando em As Harmonias de Werckmeister. Muitos anos costumam se passar entre as obras do diretor, cada plano parece minuciosamente pensado, e depois, executado, o que explica a demora para cada nova obra – embora atualmente Bela Tárr tenha optado pela aposentadoria voluntária por dizer não ter mais o que dizer no cinema -, se justifica o tempo de produção, pois quando prontas atingem um nível que não muitas obras podem ser nominadas: primas.

damnation001

Anúncios

Sobre sokoisdead

Apenas um cinéfilo.
Esse post foi publicado em Cinema, Cinema Europeu, Cinema Húngaro, Uncategorized e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s