Django Livre (2012) – Quentin Tarantino

Por Samuel CostaDjango Livre 01

Entre polêmicas, indicações à prêmios e seu estilo marcante, Quentin Tarantino mostra mais uma vez que é um grande cineasta. Django Livre (Django Unchained, 2012), o novo filme do badalado diretor estadunidense, faz uma homenagem aos filmes de bang bang, especialmente aos faroestes italianos conhecidos como western spaghetti. O nome do personagem principal, Django (Jamie Foxx), é uma referência ao filme Django (1966), dirigido por Sergio Corbucci e estrelado por Franco Nero, este faz uma pequena participação em Django Livre. A obra foi indicada à cinco Oscar, Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Melhor Roteiro Original, Melhor Edição de Som e Melhor Fotografia, e venceu dois Globos de Ouro, Melhor Roteiro e Melhor Ator Coadjuvante (Christoph Waltz). Para além de premiações, o filme foi muito bem recebido pela crítica e pelo público em geral, embora tenha causado algumas controvérsias relativas ao tema da escravidão.

A vingança é um dos elementos mais presentes nas tramas dos filmes de Tarantino, em Django Livre não é diferente. Acompanhamos a trajetória de Django, um escravo livre, para resgatar a sua esposa Broomhilda (Kerry Washington) das mãos do sádico Monsieur Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). Podemos dividir a narrativa em duas principais partes, na primeira Django ajuda o Dr. King Schultz (Christoph Waltz), um caçador de recompensas, a encontrar e matar os antigos Django Livre  05proprietários de Django. Na segunda, depois de um período trabalhando juntos, ambos criam um plano e seguem em busca de Broomhilda. Como é de se esperar de um filme de Tarantino, a saga de Django é acompanhada de muita violência, sangue, referências à cultura pop e um humor ácido e sarcástico.

A crítica negativa ao filme de maior destaque na mídia veio do diretor estadunidense Spike Lee (Faça a Coisa Certa e Malcolm X), que afirmou ao site Vibe: “Eu não vou falar sobre o filme, porque eu não o verei. Tudo o que posso dizer é que assistir ao filme seria desrespeitoso aos meus ancestrais”. Depois via Twitter ele escreveu “A escravidão nos Estados Unidos não é um western spaghetti de Sergio Leone. Foi um holocausto. Meus ancestrais são escravos, roubados da África. Devo honrá-los”. Concordo que fazer filmes históricos, sobretudo, que envolvem acontecimentos tão violentos e cruéis como a escravidão nos EUA, é uma tarefa muito difícil, delicada e de extrema responsabilidade. O cinema nunca irá capturar ou representar o sofrimento de um povo em uma situação como essa. O filme que se propõe à isso certamente é desrespeitoso e oportunista ao minimizar e fantasiar a dor e o sofrimento de uma situação concreta. Porém, isso não quer dizer que dramas históricos não possam ser abordados pelo cinema, muito pelo contrário, temos inúmeros bons exemplos de filmes que não tentam representar a dor, mas criar reflexões e nos sensibilizar para diversos fatos históricos, situações de opressão e fenômenos sociais. Pois bem, dito isso, chegamos Django Livre 04ao ponto: Django Livre não é um filme sobre um processo histórico! Está longe que querer mostrar o que foi a escravidão nos EUA e sua proposta é narrar uma fictícia saga por vingança de um escravo livre. Sendo assim, a crítica de Spike Lee, que nem havia assistido ao filme, perde a consistência.

Django Livre dialoga com a realidade? É claro, o ponto de partida é a história, os negros foram escravizados e existe um processo de opressão. Porém, ao invés de tentar representar esse processo, o que não tem nada a ver com o cinema de Tarantino, o filme toma logo de início uma posição política e constrói uma vingança imaginária (simbólica) do oprimido, no caso, do escravo negro Django contra brancos proprietários de escravos. A proposta é similar à vingança feminina em À Prova de Morte (2007) e dos judeus em Bastardos Inglórios (2009), principalmente neste que também parte de uma situação histórica.

Outro ponto que é muito criticado nos filmes de Tarantino é a violência explícita e exagerada. Estaria o diretor banalizando a violência? Não creio, afinal, em que lugar do planeta as pessoas jorram sangue como chafarizes? É evidente o absurdo e surrealismo da vDjango Livre 02iolência presente nos seus filmes, esse é mais um dos elementos do universo fictício e imaginário criado pelo diretor. Quando Tarantino tenta mostrar uma violência mais crua, como nas lutas entre escravos promovidas por Calvie Candie, que fazem referência ao filme Mandingo (1975) de Richard Fleischer, a obra perde sua força.

O humor ácido é um dos pontos mais fortes em Django Livre. Uma das melhores cenas mostra os membros do que viria a ser uma iniciante organização da Ku Klux Klan em uma discussão a respeito dos furos dos sacos brancos que eles usavam na cabeça. Um começa a reclamar do trabalho mal feito pela mulher do outro e a sequencia simplesmente desencadeia no deboche e ridicularização dos integrantes do grupo racista. O humor é uma das principais armas da perspectiva crítica do filme.

As referências ao western, o roteiro, os diálogos muito bem construídos, o humor e ironia, as boas atuações, a bela fotografia e ótima trilha sonora, que vai de Ennio Morricone ao rap de Rick Ross (vale a pena conferir a trilha toda), fazem do filme um ótimo trabalho em seu conjunto. Django Livre não é, e nem pretende ser, uma referência para o tema da escravidão, mas sim uma divertida saga de vingança protagonizada por um escravo livre em busca de sua esposa. Tarantino mostra mais uma vez que conhece e sabe fazer cinema.

Django Livre 06

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