Weekend à Francesa – Jean-Luc Godard (1967)

Por Gabriel Dominato

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A obra de Godard era ruídosa. A cacofonia descortinava o cenário e apresentava ao público uma caótica visão do futuro, numa leitura tão premonitória que parece ter sido feito no ano passado. A atualidade do filme é premente, mas, se visto nos termos em que fora concebido, nos idos de mais de 50 anos, tal feito torna-se ainda mais louvável e admirável.

A cena que define a obra já é clássica e considerada das mais importantes do cinema: um engarrafamento quilométrico, onde centenas de, aparentemente, infindáveis carros estão parados numa avenida congestionada, businando e as pessoas paradas na rua, interagindo, num caos aparentemente ordenado; apenas o veículo de nossos heróis (sim, heróis, pois estamos num conto de fadas, de certa forma) se move, é a justificativa do travelling que se segue. Apenas por este poderia-se fazer esta análise. De um rigor técnico invejável até para os filmes mais movimentados de hollywood, as câmeras de Raoul Coutard deslizam como água. O apocalipse automotivo estará permeado durante todo o filme. Carros revirados e destruídos na beira das estradas. A única coisa que move os personagens são as pernas. Após o célebre travelling, os carros não mais moveram nada em cena, sendo sempre parte do cenário e não mais parte da ação. Godard precogniza o caos financeiro que a produção em série viria a causar, e que nos afeta justamente agora: estradas lotadas e impossibilidade de locomoção, mas isso somente no setor automobilistico.

2A narrativa se desenvolve com os protagonistas tentando chegar a uma casa no campo, o que, em minha visão não importa, a não ser que a motivação está muito próxima à critíca que se faz ao capitalismo no filme. Mas fora isso, a narrativa é apenas justificativa para a viagem. Weekend à Francesa é uma espécie de road movie, e talvez seja aí que resida o êxito de seu ritmo – que para o expectador convencional talvez pareça um tanto lento. A ação decorre dos encontros, aparemente aleatórios com figuras das mais diversas, como Emily Brontë, em um dos trechos do caminho, e as maravilhosas conversas que são travadas entre os heróis e estas figuras, tão belas e curiosas.

67266_f4Weekend à Francesa marca uma certa virada na carreira de Godard, que havia começado com o seu filme anterior Duas ou Três Coisas Que Sei Dela em 1966. É o começo de seu cinema politíco, que ao contrário do começo de sua obra, trabalharia com a crítica de forma muito mais densa e aprofundada. O que no começo era uma piada de humor negro (embora tenhamos momentos muito cômicos no filme, como quando uma personagem, num acidente de carro, frente ao marido morto só consegue dizer “Minha bolsa Hermes!”), agora se tornava cada vez um tapa na cara da sociedade francesa e, logo, mundial. Para muita gente o trabalho interessante de Godard vai até aqui, muitos o criticam por intelectualismo daí em diante, fato é que um filme como este mostra uma evolução e maturidade de um diretor que se tornaria cada vez mais controverso em sua carreira. Goste ou não do que vem depois, não há como negar que neste ponto da carreira, Godard era uma  das pessoas mais geniais no mundo do cinema no que tange aos termos de criação e linguagem cinematográfica.

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Uma resposta para Weekend à Francesa – Jean-Luc Godard (1967)

  1. Samuel Costa disse:

    Boa crítica Gabe, faz tempo que este filme está na minha lista. Sua descrição aguça mais a minha vontade de assistí-lo.
    Abraços amigo!

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