A Floresta dos Lamentos (2007) – Naomi Kawase

Cartaz do filme "A floresta dos lamentos"

Cartaz do filme “A floresta dos lamentos”

Por Samuel Costa

Um ritual catártico sobre a vida, a morte e a redenção. Talvez essa seja uma das melhores formas de descrever, em poucas palavras, a experiência de assistir A floresta dos lamentos (Mogari no mori, 2007) de Naomi Kawase, filme japonês nomeado à Palma de Ouro e vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2007. A partir de elementos da filosofia budista e de um olhar bastante íntimo de Kawase, somos levados a uma viajem ritualística proporcionada pela magia do cinema e pelo talento e sensibilidade da diretora.

No título original em japonês, a palavra Mogari se refere ao tempo e ao lugar do luto. Na história, essa condição é vivenciada por duas personagens.  Machiko (Machiko Ono) perdeu o seu filho recentemente em um acidente do qual não temos muitos detalhes, o que sabemos é que o pai do menino culpa a mãe pela tragédia e esta se encontra imersa em um estado de sofrimento introspectivo. Ela começa a trabalhar em um abrigo para idosos próximo a uma floresta, onde conhece Shigeki (Shigeki Uda), um senhor traumatizado pela morte da esposa Mako, que faleceu há 33 anos. A princípio os dois não se dão muito bem e Shigeki rejeita Machiko de forma agressiva, porém, eles desenvolvem uma relação cada vez mais próxima e amigável. Juntos compartilham de uma experiência ritual sobre coisas paradoxalmente simples e complexas, singelas e grandiosas, como o luto, a vida e a morte.

Mogari no mori 2O percurso de Machiko e Shigeki é um ritual dentro do ritual. Em algum momento, os dois eventos se fundem, pois a câmera intimista é um convite para que nós não sejamos apenas espectadores, mas para que participemos e compartilhemos da experiência e catarse das personagens. E a proposta é eficaz. Qualquer filme pode ser entendido como uma narrativa performática ou como um evento ritualístico, mas a forma com que Kawase explora essa potencialidade, através da câmera, do corpo e da sensorialidade, está elevada a um grau fora do comum e totalmente oposta à velocidade e superficialidade características do cinema industrial. Alguns outros poucos diretores contemporâneos conseguem tamanha façanha de forma tão sensível, e entre eles não possos deixar de citar o brilhante Apichatpong Weerasethakul (Mal dos trópicos, Síndrome e um século e Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas).

Mogari no mori 3Kawase explora a sensorialidade, o toque de peles, o calor, o frio, o contato com a terra e com a lama, o cansaço, o som da chuva, do vento, dos animais, da água, do helicóptero, da caixinha de música e inúmeras outras sensações. As imagens e os sons nos inserem em um universo que engloba humanos e não humanos (espíritos, plantas, animais, etc.). Cultura e natureza é apresentado de forma indissociável e não como coisas opostas. Kawase propõe que nos vejamos integrados a algo maior do qual fazemos parte. Algo que está em constante fluxo e transformação. Essa ideia é central no filme e está expressa, sobretudo, na personagem Wakako (Makiko Watanabe), uma colega de trabalho de Machiko que afirma que “não há regras formais”, ou seja, o mundo está inserido em um fluxo contínuo de possibilidades e mudanças. E assim as personagens podem alcançar a redenção e superação do luto.

A floresta dos lamentos é um trabalho sensível que explora a sensorialidade e a potencialidade ritualística do cinema. A fronteira entre performers e audiência é rompida e Mashiko, Shigeki, o espírito de Mako, árvores, rios, chuva, sons, imagens e espectadores… todos interagimos neste belíssimo ritual cinematográfico.

Mogari no mori 4

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