Abril despedaçado (2001) – Walter Salles

Por Samuel Costa

Abril despedaçado (2001) de Walter Salles é a adaptação para cinema do romance homônimo do escritor albanês Ismail Kadaré. O roteiro foi adaptado por Karim Aïnouz, outro grande cineasta brasileiro diretor de grandes obras como O céu de Suely (2006) e Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009). A versão original da história se refere a um contexto rural na Albânia onde a vingança é regida dentro de regras rituais. Na adaptação ao contexto brasileiro, muita coisa foi alterada, o filme aborda a guerra entre duas famílias no sertão do país, porém, em ambas as versões as regras que regem o conflito se pautam em uma lógica ritual.

O filme conta a história do conflito entre a família Ferreira e a família Breves no interior do nordeste por volta do ano de 1910. Essa rivalidade que teria se iniciado por uma questão de terra tomou a proporções maiores sob a forma de um ritual onde dar, receber e retribuir formam o eixo central para a continuidade do conflito. Tonho (Rodrigo Santoro) faz parte da família Breves e é o responsável por vingar a morte de seu irmão mais velho que teria sido assassinado por um dos Ferreira. A regra da vingança se pauta em uma gama de elementos simbólicos que devem ser seguidos e respeitados. Tonho só poderia vingar seu irmão se o sangue na camisa que este usava quando foi assassinado amarelasse. Esse é o símbolo que marca o dever de Tonho. E assim se faz. O sangue amarela e ele tem uma “obrigação” à cumprir em nome da honra da família.

Essa análise do conflito como um ritual se baseia, sobretudo, na teoria da dádiva de Marcel Mauss (1974), onde dar, receber e retribuir formam uma tríplice obrigação dentro de contextos onde as relações de troca geram vínculos sociais e sociabilidade. No caso do filme, as trocas são de rivalidade, referem-se a um ciclo baseado na vingança e na morte do membro de um integrante do outro grupo familiar. Nessa situação estamos lidando com o que Mauss define como dádiva agonística, ou seja, é quando dar, receber e retribuir tem a finalidade de rivalidade e pode ser analisada em alguns contextos de conflito. O que define essas trocas como rituais é que elas não podem ser realizadas como bem se entende e são regidas por uma série de aspectos simbólicos que configuram regras a serem seguidas. Para deixar isso mais claro elenco três desses elementos: a camisa ensangüentada do morto, pois só se pode vingar uma morte se o sangue da camisa amarelar dentro de um determinado período; a fita preta no braço, que simboliza que aquele que matou será o próximo alvo de vingança caso a lógica ritual assim determine; o período de lua cheia, pois uma das regras é que a vingança só pode ocorrer depois de um determinado tempo lunar. Outros aspectos podem ser notados, mas o que é relevante compreender é que dentro desse contexto ritual o crime não é realizar a vingança, mas sim quebrar as regras do ciclo. Em determinado momento um membro da família Ferreira, Mateus (Wagner Moura), quer a todo custo se vingar, sem respeitar o tempo e a lógica do ritual, seu pai o repreende dizendo que o sangue de cada um tem o mesmo valor e só se tem o direito de pedir o sangue que se perdeu. Dessa forma, quebrar a regra levaria à “desordem”.

Concluo que o ritual baseado na lógica da dádiva agonística dentro desse contexto que o filme nos apresenta é uma forma de controlar o conflito sem que ele leve ao caos e à desordem social. Longe de defender o conflito, muito pelo contrário, está análise tem por finalidade mostrar como os aspectos culturais e simbólicos estão presentes em todas as esferas da vida social, inclusive no que se refere à rivalidade. Como nos aponta Roberto DaMatta na apresentação do livro Os ritos de passagem de Arnold Van Gennep, “de fato, nós fazemos ritos quando amamos e fuzilamos” (p. 10, 2011).

 Refererências Bibliográficas

DAMATTA, Roberto. Apresentação. In: VAN GENNEP, Arnold. Os ritos de passagem: estudo sistemático dos ritos de porta e da soleira, da hospitalidade, da adoção, gravidez e parto, nascimento, infância, puberdade, iniciação, ordenação, coroação, noivado, casamento, funerais, estações, etc.. Petrópolis: Vozes, 2011.

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. In: _____. Sociologia e Antropologia. v. II. São Paulo : Edusp, 1974.

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Uma resposta para Abril despedaçado (2001) – Walter Salles

  1. Grande filme de Salles.
    Belo blog.
    Cumprimentos cinéfilos!

    O Falcão Maltês

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