Crocodilo (1996) – Kim Ki-duk

Por Samuel Costa

Primeiro longa-metragem do sul-coreano Kim Ki-duk, Crocodilo (Ag-o, 1996) é um filme que, apesar de embrionário e diferente de seus atuais filmes,  já apresenta algumas das principais característica que acompanha a filmografia do diretor, dentre elas, personagens em situação de marginalidade da sociedade, violência e uma incipiente sensibilidade.

O filme conta a história de Crocodilo (Jo Jae-hyeon), um morador de rua que vive em baixo de uma ponte à beira do rio Han em Seul. Com ele vivem um senhor de idade e um garoto e são como um tipo de família. Um dia uma garota tenta suicídio ao pular da ponte, Crocodilo mergulha nas águas do rio Han e a salva. Pouco sabemos sobre ela, mas ela passa a viver ali junto aos três homens.

Se nos últimos filmes de Kim Ki-duk sobressai a sensibilidade, aqui é a violência que se destaca. Crocodilo é um homem violento, autoritário, que agride, estupra, trapaceia para ganhar algum dinheiro, sem mostrar nenhum sentimento de culpa ou remorso. A violência é a sua linguagem, é por meio dela que ele se expressa e se comunica com aqueles ao seu redor. A criança que vive com ele cresce de forma similar. Apresenta repúdio à personalidade arrogante de Crocodilo e o retorna com a mesma moeda ao tentar feri-lo e matá-lo. A vida à margem da sociedade não é fácil, é preciso criar estratégias de vivências, e nem sempre diz respeito à meios legais. Crocodilo e o garoto conseguem algum dinheiro graças à trapaças que pregam vendendo produtos enganosos nas ruas.

O senhor de idade e a garota que tentou suicídio apresentam o lado mais sensível nas relações. Mas no decorrer da trama todos mostram de alguma forma essa face, mesmo que para sobreviver na vida das ruas tenha sido preciso reprimi-la. A cena em que Crocodilo corta o próprio braço com uma garrafa quebrada é marcante por mostrar o quanto ele teve que aprender a ser duro e a reprimir as suas emoções para levar essa vida.

A proposta do filme é mostrar uma visão humanizada daqueles que vivem à margem, na violência e no crime. Porém a obra não alcança o esperado com sucesso. Ele deixa brechas e ambiguidades com o que diretor quer passar. Um dos pontos mais questionáveis e passíveis de crítica é quanto a participação da personagem feminina que tenta suicídio. Seu papel é eminentemente passivo e de sujeição à violência de Crocodilo, sobretudo, sexual. Certamente um dos principais aspectos negativos nesse filme é que o diretor se foca no personagem de Crocodilo e deixa a desejar na trama e questões que envolvem os papéis secundários.

Crocodilo é um longa de estréia com uma proposta atraente, mas que é mal construída e desenvolvida. Apresenta de forma incipiante aspectos do cinema de Kim Ki-duk que serão melhor trabalhados ao longo de sua filmografia. Feitas as ressalvas, é um filme interessante.

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Uma resposta para Crocodilo (1996) – Kim Ki-duk

  1. complexxos disse:

    Muito bom o blog! Ótima crítica
    Att

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