A Pele Que Habito – Pedro Almodóvar

Por Gabriel Dominato

Muito se falou da grande diferença do novo Almodóvar em relação aos anteriores. Ao assisti-lo achei inexistente tais diferenças. Tudo está lá: o vermelho carmin, o branco gelo, a personagem feminina de forte personalidade e um conflito. Talvez a única coisa que tenha mudado seja o conflito em si, mas não de todo, o desejo ainda é – creio que sempre será – a matéria prima de todo Almodóvar. Esteja lá no nível que for, será possível encontrá-lo, como o mais óbvio desejo em Má Educação até o mais subjetivo em Tudo Sobre Minha Mãe. Claro, deve-se ter a concepção de que desejo não abrange excluvisamente o terreno do sexual, porém em A Pele Que Habito é justamente por aí que se trafega. Outrossim, muito se taxou este novo filme de Pedro Almodóvar como terror, ou suspense, porém de forma alguma este filme se afasta do drama tipicamente almodovariano. Exclue-se todo o terror, no entanto pode-se admitir sim que o filme tenha pinceladas de suspense, mas tão infímas que não se vale a pena destacar tão óbvias ficaram ao expectador. O que quero aqui é destacar a relação doentia de desejo e poder entre os protagonistas.

A trama se passa em torno do cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas), que perdera a mulher Gal Ledgard (Blanca Suárez) em um incêncio, vivendo com sua filha traumatizada por um evento relacionado diretamente a sua mãe. Robert está desenvolvendo, contra a permissão da comissão de ética, uma nova pele que seria resistente a queimaduras e picadas de insetos, em palestra ele afirma que está sendo testada com DNA animal e que tudo corre muito bem, mas fato é que ele, em segredo, mantém uma cobaia nos confins de sua clínica, a qual funciona de forma ilegal dentro de sua própria casa. Lá dentro, Robert está recriando Gal no corpo de outra pessoa, através da aplicação da sua pele sintética e de seu profundo conhecimento em cirurgia plástica ele molda seu cobaia durante anos, desenvolvendo inclusive uma relação de amor, a qual se comentará depois. Remete logo ao Prometeu Moderno de Mary Shelley, onde o médico cria um monstro a partir do corpo de outros, a grande diferença é aqui Robert acerta onde o Dr. Frankenstein erra. Gal é perfeitamente recriada. Porém por algum motivo não se quer usar o nome de Gal, tanto é que o criador diz à criatura que agora ela se chamara Vera Cruz (Elena Anaya), apontando para um possível complexo de deus, onde se cria, nomeia e possuí o ser criado.

Vera então passa seis anos presa num quarto, sem contato com ninguém, exceto por Robert que ocasionalmente lhe traz ópio. Recebe tudo por um elevador manual, como revistas e comida. As paredes de Vera estão cheias de escritas, desde datas quando ela pergunta a Marilia (Marisa Paredes), a auxiliar de Robert, que dia é, a frases como “respire, respire”, que apontam para a condição psicológica do personagem, podendo se fazer uma leitura quase que completa desta ao se ler grande parte das mensagens escritas nas paredes, porém é algo difícil, visto que pouco nos é mostrado, e o que é o é de forma rápida, mas uma ideia se pode formar: Vera não está se sentindo bem em cativeiro.

Talvez seja interessante destacar a grande influência do cinema noir neste novo filme de Almodóvar, embora siga fiel aos tons quentes e as cores gritantes – principalmente o vermelho e o branco – ele se rende ao preto em diversas sequência, sendo um dos filmes de sua carreira mais escuros. E não apenas visualmente, a direção de atores também ficou voltada a este sentido, podendo se notar em Vera toda a beleza de uma femme fatale, e em Banderas a cara fechada dos vilões noir, faltando-lhe talvez apenas terno e um chapéu para a perfeita personificação.

Pouco depois, vemos Vera e Robert como amantes, a primeira vista parece-me legitimo o sentimento a ambos, porém ao fazer uma análise mais profunda encontro algumas dúvidas. Até um momento onde Vera vê a foto de como era num jornal que figura uma galeria de pessoas desaparecidas – porque Robert sequestrou a pessoa que iria ser o corpo para comportar Vera – ela parece de forma crível apaixonada pelo médico que a tornou no que agora é: uma mulher. Mas ao ver a foto parece tomar um susto e acordar para tudo o que passou, como se houvesse lhe ocorrido um bloqueio ou algo similar. Talvez não seja possível responder a tal dúvida, mas certamente ela irá deixar muitos curiosos, assim como eu.

Disse acima que se tornou no que é agora, porque antes não Vera não era uma mulher. Era Vicente (Jan Cornet), um jovem que conheceu a filha de Robert numa festa. Lá os casais se formaram e se espalharam pelo jardim, Vicente ficando com a filha de Robert. A início ambos se dão bem, porém quando a moça se recusa a transar com o jovem ele a agride a abandona desmaiada no jardim. Mais tarde Robert aparece e ela acorda aos gritos, repelindo que ele a toque. Uma amiga comentou algo muito interessante: porque ela repele o toque de Robert naquele momento? Se ele é o pai iria lhe representar proteção, abrigo depois do abuso. Mas não, é justamente o oposto, logo pode-se acreditar que haja entre eles um histórico próprio de abusos? Não se sabe. Mas ocorre que a filha por fim é internada numa clinica para se recuperar, e todas as vezes que é visitada pelo pai parece piorar, até que por fim se suicída. Robert então vai ao encalço daquele responsável pela morte de sua filha.

Aí então é que voltamos a Vicente, ele é o molde para recriar sua esposa Gal, porém agora chamada Vera. O doutor mantém o relacionamento em segredo assim como seu experimento, trocando o nome de Vicente para Vera, como se literalmente quisesse criar uma nova pessoa e ter uma relacionamento desfuncional com esta, ele a certa altura faz uma promessa se ela nunca iria fugir, e ela diz que não. Nesse ponto da trama surge Tigre – literalmente vestido a caráter por ser carnaval, sendo este um dos momentos mais cômicos do filme e rementendo aos primeiros e mais trashs filmes de Almodóvar -, filho de Marilia e fugitivo da polícia, que entra na casa e deixa a mãe de refém, e abusa de Vera. Robert chega em casa exatamente neste momento, e apenas observa no monitor que recebe as imagens das câmeras do quarto de Vera, o ato sexual de ambos, porém a primeira vista sem reagir. Depois pega o revólver da gaveta e segue ao quarto. Lá segue-se uma cena curiosa. Primerio ele mira em Vera, hesita, para só algum tempo depois mirar em Tigre, matando-lhe.

Com o tempo Robert desenvolve total confiança em Vera e a deixa sair com Marilia para fazer compras. Ela iria ver o mundo depois de ficar trancafiada de 2006 a 2012. Vai então, faz tudo nos conformes, porém ao voltar, já na cama com Robert diz estar machucada do abuso de Tigre e que comprara um creme para ajudar os dois a transarem. Ela vai, busca realmente o creme, mas coloca o revólver junto. Mata então Robert e Marilia e finalmente foge. Voltando para casa.

Lá reencontra uma antiga amiga Cristina, olha para a mãe e diz “Sou o Vicente”, e o filme acaba, estilo legitimamente almodovariano como o final abrupto, que porém soa tão suave, o que ocorre em Volver e Tudo Sobre Minha Mãe.

Antes de Vicente ser sequestrado por Robert ele chama Cristina (Bárbara Lennie) para sair com ele, porém ela iria sair com a namorada. Em outro momento, quando Robert está sendo ameaçado de ser denunciado ao conselho de ética, Vera se defende dizendo que não fora sequestrado, que sempre quisera ser uma mulher. Creio que aqui temos a cerne para ponderar todas as questões mais importantes que o filme levanta. Primeiro que ele pode estar dizendo a verdade, sendo Cristina lésbica e ele tendo uma aparente paixão por ela o único meio de ter uma relação com ela seria sendo uma mulher ele próprio. Segundo ele poderia mesmo ter se apaixonado por Robert por um possível Complexo de Estocolmo, porque até o momento em que vê sua própria foto no jornal parece não ter um sentimento de ódio pelo médido, depois deste fato sim. No fim restarão tão somente dúvidas. É claro que elas sempre estarão presentes nas grandes obras para que o expectador preencha as “lacunas” com suas próprias experiências de vida e morais e ética. O importante é se render durante estes 120 minutos a fantasia que Almodóvar propõe, pensar nela só depois.

Como disse no começo, essa conversa de que esse Almodóvar seria muito diferente dos outros é apenas isso, conversa, ele está com o mesmo vigor e estilo dos anteriores, apenas experimentando e acertando ainda mais, existe é claro um flerte com outros gêneros, mas chegar a taxar o filme dentro destes a meu ver é grande equívoco, A Pele Que Habito é um drama legítimo feito pelo revés da ficção cientifíca e do suspense, mais como metalinguagem do literal. Almodóvar se utiliza desses recursos apenas para discutir ética, amor, obsessão, e, principalmente, desejo.

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4 respostas para A Pele Que Habito – Pedro Almodóvar

  1. Grande Gabriel, realmente cada Almodóvar contém todos os almodovars.

  2. Paulo disse:

    Acho que houve uma pequena confusão, pois o médico tenta reconstruir sua esposa, que se chamava Gal, e não Norma, que é a filha. Tanto que o irmão do Robert se assusta, pensando que era a mulher que ele deixou no carro incendiando.
    Na minha opinião, o Vicente somente esperou a ocasião certa para matar o Dr. Robert, pois por culpa dele é obrigado a viver num corpo de mulher, mesmo sendo um macho convicto (ele só queria comer a Cristina, não queria ser mulher nada). Acho que este é o ponto central da história, apesar de todas os outros aspectos abordados no filme: o uso da ciência para propósitos antiéticos, as clínicas clandestinas para ricos, a vingança exagerada, o trauma da filha que pensa ter sido violentada pelo pai etc. Enfim, um típico Almodóvar.

  3. Lembro do rapaz comentar o seguinte olha, o filme não procede porque se baseia no micro para explicar o macro e nós sabemos que não assim, estão deturpando as teorias.

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