O Menino Peixe – Lucía Puenzo

Por Gabriel Dominato

Assisti a “O Menino Peixe” com grandes expectativas, afinal se tratava de um filme da grande diretora argentina Lucía Puenzo, responsável pelo belissímo “XXY”, um dos meus filmes favoritos da cinematografia argentina e o qual me fizera constituir grande simpatia e confiança à dupla Lucía-Inés, porém, infelizmente, minha decepção ultrapassou minha expectativa – que era muito grande.

O filme tem uma narrativa interessante, tentando fazer uma desconstrução cronológica da narrativa, se desprovindo do clássico recurso da linearidade, tão caro ao cinema tradicional. Porém aqui essa linguagem simplesmente não funciona como elemento positivo, embora devo dizer também não prejudique o filme, mostra-se completamente desprovido de um sentido prático ou artistico, como se pela ausência de um roteiro mais profundo – sobre o qual falaremos mais adiante – o artifício da desconstrução da cronologia fosse salvar as pendengas dramaturgicas e por fim amarrar as pontas soltas, o que para nossa infelicidade não ocorre.

Inés Efron, a despeito do roteiro e da mise-en-scène mediana, realiza uma atuação grandiosa como Lala, uma garota de classe média que é apaixonada por sua empregada, a imigrante paraguaia La Guayi (Mariele Vitale), que também demonstra excelente desempenho. Todavia, essas belas atuações só conseguem chegar até a verve de seus papéis – que conste-se aqui, não é muito grande – o que limita essas duas grandes atrizes, as condicionando a atuações que poderiam ser muito melhores pertisse o papel.

É louvável a vontade de Lucía Puenzo de nos mostrar o imaginário e folclore local daqueles lugares fronteiriços com o Paraguai, no entanto a forma como isso é mostrado é um demérito, nem tanto pela acronologia, mas pela forma como a decupagem se faz, tornando uma premissa poética em algo piegas. O menino peixe de que trata o tema é uma figura mitológica local para quem as mães que perderam seus filhos por afogamento atiram jóias e outros pertences num lago na esperança de que o menino peixe os traga de volta. Essa parte da história é das mais interessantes, e talvez uma das poucas que se salve. O resto é sobre um romance improvável de uma burguesa de classe média alta com uma empregada paraguaia, que juntas começam a roubar a casa do pai até por fim matá-lo para fugirem juntas. É exatamente nesse ponto que o filme descaminha e se une aos filmes trágicos do cinema pipoca, havendo daí em diante perseguições e até mesmo – pasmem vocês! – troca de tiros de Lala com um policial para salvar La Guayi.

Existe, a pesar de todo o resto, belas cenas no filme, o fundo lago com jóias entre o semblante do menino peixe nadando se destaca como a mais bela de todas. Entretanto pedem o peso devido a quantidade de outras cenas desnecessárias, cito por exemplo um momento que La Guayi quando vai presa diz “Esta é a realidade”, tentando mostrar ao espectador a realidade totalmente fantasiada de um cárcere feminino, onde de real não vê-se absolutamente nada, e vale a pena citar que mais tarde fica ainda mais absurdo e irreal, que cumina como a pior parte de toda a película, é a cena onde Lala invade a casa do delegado para salvar a namorada, matando o delegado e trocando tiros com oficiais no melhor estilo “Maquína Mortífera”, e saí apenas com um ferimento no tornozelo. E La Guayi afirma que isso é a realidade. Me vem lembranças de “O Cobrador” de Rubem Fonseca, onde o personagem diz no conto “Só rindo”.

“El Niño Pez” peca em mais aspectos que acerta, se tem uma fotografia muito bonita e atores formidáveis, a dramaturgia permeada de lugares comuns: a adolescente burguesa deslocada, o filho drogado, o pai ausente, a relação inter-classes entre Lala e La Guayi, o relacionamento homossexual, e mesmo nas coisas mais interessantes e novas há falta de profundidade, como a obsessão de Lala pela namorada, o ódio desenvolvido de La Guayi pelo pai, deixando uma sensação de superficialidade e neglicência para com o roteiro.

A parte mais interessante, ao meu ver, é a que passa no Paraguai, onde se mostra a cultura do povo paraguaio, desmistificando um pouco esse país através de mitos, isso é algo incrível, indo além do que temos geralmente no imaginário coletivo que são lojas a preços baratos em Guaíra. Há show de dança sertaneja – fato interessantíssimo, por se tratar do mesmo estilo de música que ouvimos aqui nas rádios, quase identico, só que em castelhano – acompanhada de coreografias populares – muito cômicas diga-se de passagem – e oferendas ao menino peixe. Toda essa parte merece destaque, pena não ter sido bem explorada, pois constituí ponto forte do filme.

Deve ser difícil carregar o fardo de “XXY” nas costas, seria difícil para Puenzo realizar outra obra tão densa e bela, mas de toda forma “O Menino Peixe” não se aproxima nem brevemente disso, parecendo não passar de um exercício de estreiante, coisa que Lucía Puenzo não o é, o que lhe confere maior responsabilidade, e, embora não esperasse outro “XXY”, não esperava que iria assistir algo tão mediocre vindo de uma dupla que tanto admiro Puenzo-Éfron. Uma pena.

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