A Árvore da Vida – Terrence Malick

Por Gabriel Dominato

“A Árvore da Vida” do americano Terrence Malick, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes é uma obra-prima do cinema, mas muito mais que isso, é um triunfo da arte e da vida, uma obra carregada de um humanismo imenso e um ode ao amor, a tudo e a todos. Não há como medir elogios ao apresentar este filme, é de uma beleza tão extraordinária que capaz de se entranhar nas partes mais profundas do coração humano, contaminando-o com vida. Ver essa obra traz esperança de que nem tudo está perdido. Parece ainda haver uma ultima luz que se sobressai a qualquer escuridão, me remetendo ao poema “The Laughing Heart” de Charles Bukowski onde ele diz que “Pode não haver muita luz, mas há o suficiente para vencer a escuridão”.

A Sra. O’Brien (Jessica Chastain, em admirável interpretação) diz logo nas cenas iniciais que quando era pequena uma freira lhe contou que há duas formas de se atravessar a vida, pelo caminho da graça e pelo caminho da natureza e você deve escolher qual irá seguir. Todas as imagens do filme estão fortemente carregadas destes dois elementos. Há uma cena que representa a criação do universo, onde vemos o cosmos nascer e a vida a existir e se procriar, parecendo que tudo surgiu da graça, até que vemos então a natureza selvagem antes do homem enquanto os primeiros seres unicelulares se desenvolviam. Nesta dicotomia Malick representa perfeitamente as formas que a Sra. O’Brien cita, mas de forma absurdamente poética, em suas imagens, o diretor parece fundir ambas, como na cena de pássaros revoando sobre o céu de uma cidade, onde fica impossível separar a graça da natureza, onde uma parece complementar a outra. E a árvore da vida é mostrada de várias formas, de maneira metafisica com a criação do universo, com o nascimento de Jack (Sean Penn), e de forma material com a plantação de uma árvore, as simbologias para a vida e seu surgimento como forma natural ou pelo caminho da graça está permeada por todo o filme de forma excepcional.

As imagens atordoam, são de um rigor e sensibilidade tão imenso chegam espantar por ser algo tão incomum e por mostrar o que se é impossível de se filmar. Terrence Malick, com um hiato de seis anos desde seu ultimo filme “O Novo Mundo”, consegue comunicar o incomunicável de uma forma quase indescritível, é preciso se assistir a película – que no cinema toma proporções ainda mais gigantescas – para se compreender o motivo de tais elogios. Este é seu elogio a vida, a memória e a infância.

O filme trafega entre a vida atual de Jack (Hunter McCracken, Jack quando criança), sua memória e suas recordações do passado. Tudo se inicia quando a mãe, a Sra. O’Brien recebe uma carta que comunica a morte de seu filho, o mais sensível de três, que provavelmente morreu durante a guerra do Vietnam com 19 anos, dado a época histórica em que o filme é situado. Essa fato parece ser o definitivo para o afastamento da família. Mas voltando mais no tempo quando Jack ainda era uma criança, ele se depara com situações das mais cotidianas desde seu nascimento até se tornar uma criança, mas conforme cresce começa a ver coisas que lhe provocam grande dor, ele diz a certa altura “Pai, mãe, vocês estão sempre lutando dentro de mim, sempre estarão”, como prenuncio de que esse fato ficou para sempre inacabado dentro de si. A Sra. O’Brien parece representar o caminho da graça, não exige nada dos outros, é a personificação da paz e do amor, sendo este personagem que comunica para nós “Ame, ame a todos, cada raio de luz, cada folha”, e “Se você viver sem amor a vida passará rapidamente por você”, enquanto o Sr. O’Brien (Brad Pitt) parece representar o caminho da natureza, rígido, impassível, exige respeito e quer se amado por ser poderoso, seja pelo cargo que exerce ou pela autoridade que tem sobre a família. Esta criação deixa Jack e seus irmãos em um grande conflito existencial.

Jack começa a ver no decorrer de sua vida a doença quando vê um epilético, a dor quando um amigo seu tem o corpo queimado quando sua casa se incendeia, a morte quando outro de seus amigos morre afogado numa piscina. Ele fica em conflito sem saber qual caminho deve seguir pois tem ambos de modelo. Por fim percebe que se parece mais com seu pai, ele diz que não se parece com a mãe, e sim com o pai, é tão ruim quanto ele. Para expressar suas emoções reprimidas em casa extravasa quebrando janelas, fazendo brincadeiras perigosas com o irmão, até que um dia ocorre um acidente e ele parece ficar ainda pior, mas algo muda dentro de si. E isto se refletirá para sempre em sua vida.

Depois vemos Jack já mais velho, tem uma vida semelhante a do pai, embora não vemos muito dela, mas em seu lugar nos é apresentado o caminho tortuoso de sua memória, ele percorre um grande deserto, um caminho difícil, enquanto vai se recordando dos episódios de sua vida, até que por fim encontra todos os personagens de seu passado numa praia, irmãos, amigos, seus pais e vizinhos. Parece que ao se recordar de tudo e aceitar seu passado ele consegue a redenção para seu presente. A memória é genialmente representada por cenários belíssimos, mas um tanto taciturnos e tristonhos, porém ao fazer as pazes com todas aquelas pessoas, com suas memórias vemos uma nova vida renascer, a mesma semente que aparece no começo encerra o filme, como que plantando uma nova chance, um recomeço na vida de Jack, logo após de uma ponte, imagem das mais representativas do filme, onde correm águas por baixo dela, indo embora, deixando a ideia de que os temores da infância são agora águas passadas.

O filme transborda poesia pelas imagens e palavras, Terrence Malick não parece desejar com esse “A Árvore da Vida” fazer uma reflexão muito nova sobre a vida, mas sim reafirmar coisas que nos esquecemos todos os dias mas que temos grande necessidade de nos lembrar, coisas pequenas que a Sra. O’Brien nos lembra no decorrer de todo o filme. “Ame. Ame a todos. Tenha curiosidade. Perdoem”.

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Sobre sokoisdead

Apenas um cinéfilo.
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8 respostas para A Árvore da Vida – Terrence Malick

  1. Henderson disse:

    parabéns Gabriel, a minha febre não me deixou ver alguns detalhes sutis percebidos pelos seus olhos treinados e descritos aqui por você.
    Com certeza a minha análise do filme não sairia assim, se é que você me entende…

  2. Samuel Costa disse:

    Assisti ao filme hoje e realmente é muito bom, sobretudo, isso que você destaca na sua análise sobre essa sensibilidade e as coisas simples (e ricas, belas) da vida.
    Porém eu achei o filme um tanto pretensioso e muito focado em uma estética perfeita.
    No geral achei um bom filme e grandioso mesmo! No entanto é uma grandiosidade que por hora é forçada e exagerada pela estética e pretensão.
    As sequencias dos irmãos são incríveis! Bela análise Gabe!

    • Marcelo disse:

      que audácia questionar a pretensão de Terrence Mallick. Até porque em momento algum ele o é. Menos guri. Estuda mais cinema e a vida. Depois comenta. Embora eu o aconselhe a guardar para você. Sabe quem saber sua opinião? NINGUEM!

  3. Igor disse:

    Opa, tudo certo?
    Boa crítica!

    O legal do Cinema é justamente como se dão os processos de representação e identificação diante de cada espectador e sua forma como percebe, recebe, sente e interpreta a obra. Digo isso porque comigo esse filme do Malcik funcionou de forma bem diferente.
    Incrivelmente mais pretensioso que Baraka (Ron Fricke) – embora este seja um documentário e tenha uma proposta bem delineada e executada -, A Árvore da Vida passou por meus olhos e ouvidos como um clipping de imagens e sons espetaculares da Natureza e do Espaço que caberia muito bem a um documentário do Discovery Channel (tirando as sequências em que temos as personagens em ação). Não que isso seja ruim, mas nesse filme não funcionou. A obra é muito bonita plasticamente, bem decupada e quase irritantemente limpa demais. Não há “transparência” nesse filme, mas também não há “opacidade” porque, pelo menos para mim, os planos e suas articulações, principalmente nas sequências discoverysticas, passaram vazios e aleatoriamente.
    Há uma estrutura no filme, há. Há uma proposta, por sinal muito bacana, há. Mas, na minha visão, ficou bem mal trabalhado e explorado. Acho que a força do filme é maior nas sequências da família e sua história do que no resto. O filme tenta transcender, mas não me convence a ir com ele. Diferentemente de Melancolia (que tem tudo a ver com A Árvore da Vida em termos de tema), eu fiquei sentado a projeção toda sentindo fisicamente que estava, de fato, sentado. Mesmo um filme que tenha como propósito nos distanciar da tela, ele é bom quando temos consciência disso, mas não nos distanciamos. No filme do Malick eu fiquei um tanto perdido, no mau sentido.
    A obra tem uma proposta linda e realmente instigante, mas ficou na proposta, que é nítida pelo menos. Até aparecerem os dinossauros no meio da primeira parte do filme, eu ainda estava me ajeitando na cadeira, mas quando os dinos surgiram na tela, primeiramente eu achei bizarro, porque nem o Godzilla é tão mal-feito e incoerente plasticamente e esteticamente, mas depois confesso que comprei a idéia do Malick nesse momento e fiquei esperançoso que o filme se transformasse num docudrama experimental ambientado em outro planeta (e vai saber ser eram mesmo dinossauros, tamanha a estranheza). Mas, infelizmente ou não, o filme voltou ao que estava sendo.
    Gosto da idéia, gosto da técnica (com exceção dos dinossauros), gosto da direção de atores e de outros atributos técnicos e artísticos, mas a montagem, o roteiro e a decupagem não se encaixam, pelo menos para mim. Tentei ao máximo filosofar junto com a obra a respeito a vida, da morte, da origem de tudo, da Natureza e do Homem, mas não rolou, nem depois no barzinho com os amigos após a projeção.
    E antes de fechar meu pensamento e minha opinião, só mais uma coisinha: não soa um tanto contraditório a personagem e o filme (como instância narrativa e filosófica, vide realizador), que se relacionam harmonicamente com a Natureza (representada em alguns planos por lindas borboletas) e pregam todo um respeito a ela já que nós somos Ela, fazerem churrasco? Pode parecer chatice minha dizer isso, mas eu acho importante. Por mais que AS personagens grelhem e comam animais mortos (sendo possível qualquer filme falar de respeito à Natureza com essas mesmas personagens, “antagonicamente” ou não), o filme se abole ao usar essas MESMAS personagens quando fala de amor à vida e à Natureza da forma que ele fala.
    Fiquei pensando sobre a religiosidade presente na obra, mas até que não ficou nada muito carregado. É um ponto de vista do Malick e eu respeito.
    Achei bem interessante o que você falou a respeito da aparente dicotomia Graça e Natureza e a futura fusão disso no filme. O plano dos pássaros é belíssimo e é o melhor exemplo para se representar isso. Só lamento que o resto da projeção não tenha explorado melhor essa idéia, por mais que tente se referir a ela. Como disse, a proposta é válida e linda, mas ficou muito no papel (e não digo roteiro). Há lampejos e esboços disso, mas não é o suficiente. Claro que gostar do filme ou não também vai muito da interpretação de cada um e de sua identificação com o que é projetado, mas não consigo enxergar esse filme de outra forma. Talvez vendo de novo, quem sabe.
    Achei bacana também o que você diz sobre a poesia através da da imagem e da palavra. É muito difícil fazer isso no Cinema, assim como, você também disse, comunicar o incomunicável. O filme tenta, é ousado, e isso é legal. Acho que o Apichatpong tem um pouco disso também, de falar – não simbolicamente como Malick , mas sensorialmente e conceitualmente – de questões tão obscuras e abstratas como a vida, a morte, o Homem, a Natureza e as relações entre tudo isso, porém acho o Joe mais bem sucedido nessa empreitada.
    Bom texto!
    Abs

    Igor

  4. Olá Igor, valeu pelos excelentes comentários, concordo com vários pontos que você afirmou, mas para mim o filme funcionou de forma diferente, por ser uma pessoa preponderantemente visual a obra de Malick a mim se torna arrebatadora, de forma que eu senti algo que talvez você e outros não tenham, embora minha verdadeira paixão sejam os diálogos, aqui consegui ver todas as imagens carregadas dessa dicotomia e com significados impressos, gostaria de ter feito algo mais bem trabalhado mas estou em semana de provas, quem sabe não faço uma segunda análise para tentar apresentar minha visão dos detalhes.

    Enfim, abraços e obrigado, espero que continue frequentando Blog, sua presença aqui é sempre bem vinda!

    • Igor disse:

      Olá Gabriel!
      Entendi.. foi o que eu disse, cada espectador sente e percebe a obra de uma forma diferente.. Tem espectadores mais visuais como você, mais sensoriais como eu, mais textuais como outros, enfim, ha uma enorme variedade e isso é muito bom pro Cinema. hehehe.. Mas é isso aí, vou continuar frequentando o Blog sim, gosto muito de ler as críticas e análises de vocês!
      Valeu pela recepção e parabéns, o blog é bem bacana.
      Abraços!

      Igor

  5. Jéssica disse:

    Olá! boa noite…
    Assisti ao filme…
    muito conteúdo,valeu muito a pena…
    eu sinto dentro de mim cada imagem,simples ,mas de muito valor!
    que as pessoas tenham a oportunidade de vê-lo…e absorver toda sua beleza..
    Seu Blog está ótimos..e as postagens muito bem elaboradas ..
    Parabéns Gabriel!!!

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