Potiche: Esposa Troféu (2010) – François Ozon

Por Samuel Costa

O filme mais recente do diretor francês François Ozon (8 Mulheres, Swimming Pool: à beira da piscina, O Tempo Que Resta) é excelente na escolha do tema, porém a forma como é desenvolvido oscila entre o muito bom e o irritante. O resultado é uma comédia acima da média, no entanto com uma abordagem sem sucesso. O papel da mulher na sociedade, política e família são alguns dos temas trabalhados, porém de forma  muito simplificada e ingênua talvez.

O filme se passa na França em 1977, a consagrada atriz Catherine Deneuve interpreta Suzanne Pujol, uma senhora que passa os dias em sua mansão escrevendo poemas e ouvindo canções românticas. Enquanto isso seu marido Robert Pujol (Fabrice Luchini) dirige a fábrica de guardas chuvas deixada pelo pai da esposa. No entanto, os negócios na fábrica não vão como planejado, os trabalhadores se organizaram, reivindicam uma série de direitos e fazem greve. Robert é um homem extremamente conservador, expressão dos interesses de uma visão política de direita, defensor de uma perspectiva elitista e da manutenção do capitalismo. Todos os personagens são estereótipos, e este é o estereótipo do patrão explorador.

Ao se agravar a situação na fábrica, os filhos do casal, Joëlle (Judith Godrèche) e Laurent (Jérémie Renier), e a secretária (e amante) de Robert, Nadèje (Karin Viard), também se envolvem na situação com suas opiniões e tentativas de ajudar. A filha é comparsa do pai, falsa e extremamente anti-comunista, o filho é um estudante de ciência política, apresenta uma ideologia de esquerda, mas no que ele realmente acredita para humanidade é a arte. Dentro desse enorme bagunça com misturas de interesses e ideologias, quem realmente vai ajudar a acalmar a situação em um primeiro momento, para o ódio de Robert, é o político comunista Maurice Babin (Gérard Depardieu). É nesse contexto em que Robert tem um ataque do coração e fica de cama, e Suzanne, para a surpresa de todos os outros envolvidos, assume a direção da fábrica. Mulheres no poder, aí está um ótimo assunto.

Primeiro, os pontos positivos do filme, que não são poucos. A obra possui um elenco maravilhoso, as atuações são impecáveis, com destaque para os consagrados Catherine Deneuve e Gérard Depardieu que interpretam um romance permeado de jogos e incompatibilidades políticas. Outro ponto fortíssimo é a forma como o filme é construído que dá base para o cômico da obra. O período retro é reconstruído de modo formidável, não apenas dentro da trama da ficção, mas também no formato que nos é apresentado tentando se aproximar dos moldes de cinema daquela época. Propositalmente o filme é feito de personagens estereotipados, o comunista, o conservador, o artista, a secretária, a filha fútil e a esposa troféu (e outros secundários). Esta última, a esposa, recebe essa taxação porque antes de entrar para o mundo do poder não conseguia transmitir qual era seu papel enquanto mulher, enquanto pessoa, todos a viam como passiva e incapaz. No decorrer do filme a idéia é que ela, e todos os outros personagens, confrontem esses estereótipos, porém o resultado não é satisfatório. O filme também traz como pontos positivos temas polêmicos, em segundo plano, tratados como se fossem a coisa mais comum do mundo, sobretudo, a tentativa de quebra do tabu que existe sobre o aborto e o incesto.

Na medida em que Suzanne toma conta da fábrica, em um passe de mágica tudo se transforma, tudo fica lindo e maravilhoso. O filme tenta passar uma imagem antipartidária e fugir das taxações de esquerda e direita, mas cai na ideologia de um possível capitalismo humanitário. Uma visão utópica, visto que a lógica do capitalismo não é o ser humano, mas o indivíduo, a competição, o lucro e a acumulação de valor.

Também ao tentar desconstruir os personagens estereotipados, o resultado é fraco e cai em algumas armadilhas. Laurent, por exemplo, apesar de ser um personagem interessante do ponto de vista ideológico, ainda assim é um estereótipo do começo ao fim, em nenhum momento há uma desconstrução de seu papel a conclusão de sua trama é a reprodução do que vemos em qualquer filme. Mas é a personagem principal que mais frustra. O diretor tenta apresentar uma personagem autentica, independente e ativa, e ele consegue até certo ponto, porém chega em um momento que se reproduz a imagem da mulher-mãe, ou seja, um outro estereótipo. Por que a mulher na política sempre tem que representar a mãe, nesse caso, do povo? Por que só se evidencia o papel materno e o paterno não? E as mulheres que não são mães? São menos mulheres? É claro que não! Minha contestação vai ao sentido apenas de que o diretor foge de um estereótipo para cair em outro. Porém, de outro ponto de vista, há um elemento positivo que muitas teóricas feministas vêm discutindo, que é a inserção de características tradicionalmente ligadas à feminilidade na esfera da política, como por exemplo, formas de expressão, comunicação e tomadas de decisão, ligadas à emoção e a parcialidade. No entanto, essa representação de feminino é insuficiente para representar mulheres em geral.

Em resumo este trabalho de Ozon é uma comédia legal, bacana, porém cheia de equívocos que parecem incoerentes com o tema e o propósito do filme. Vale a pena assistir pelo trabalho técnico, pelas atuações e alguns elementos da discussão do tema, porém deve ser visto com cuidado. Há de ser questionado seu viés político e a representação do papel feminino. O filme é “simpático” e divertido, mas deixa a desejar.

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Uma resposta para Potiche: Esposa Troféu (2010) – François Ozon

  1. Eu concordo com tudo que você disse Samuka, tive muitas dessas impressões quando assisti, mas você expôs de uma forma excelente e clara. Adorei a análise!

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