A Noite – Michelangelo Antonioni

Por Gabriel Dominato

Para muitos este filme, o segundo da “Trilogia da Incomunicabilidade”, é a derradeira obra-prima de Antonioni, sempre homenageado e citado por outros diretores. Estrelado por gigantes como Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau e Monica Vitti, este filme tem um poder quase hipnótico, realizado com um profundo humanismo e compreensão do ser humano e questões a este relevantes de forma magistral, como é comum nas outras obras do mestre italiano. Nesta obra Antonioni estuda profundamente a questão dos sentimentos e as barreiras na comunicação que surgem com o passar do tempo na relação dos casais – advindo daí o título da célebre trilogia -. Talvez este tema já tenha sido amplamente discutido no cinema e na literatura, porém é o brilhantismo que reside na sensibilidade e visão única que o diretor tem sobre o ser humano que dá destaque a película em questão.

Toda trama se passa no decorrer de uma noite, onde Giovanni (Marcello Mastroianni) e Lidia (Jeanne Mureau), vão a uma festa da alta sociedade milanesa, onde Giovanni, celebrado escritor, possuí diversos admiradores. Dessa premissa Antonioni passa a uma análise dos sentimentos do amor, traição e reconciliação entre Giovanni e Lidia, e o relacionamento que surge entre o escritor e a filha de um magnata (Monica Vitti). Tudo ilustrado em uma fotografia em um preto e branco das mais belas da história do cinema, onde cada plano parece um quadro minunciosamente pintado pela direção de arte e iluminação brilhantes, além da decupagem que Antonioni realiza, com cortes suaves e sagazes, através de sua equipe de edição. Utiliza-se ângulos ousados para a época, a Nouvelle Vague havia nascido apenas a dois anos, mas o diretor já dominara todos os artifícios e técnicas revolucionárias do novo cinema, usando de seu mister para realizar uma perfeita análise de cada cenário, gestos e emoções, expressões de seus atores e conduzi-los de forma que apenas um gênio de seu porte seria capaz de fazer.

Mas claro que nada disso importaria se não fosse aliado às atuações magnas do trio, que através da mise-en-scène e decupagem sensivel e habilidosa, dá vida a estes personagens, quase palpáveis e reais, e Antonioni parece realizar isso com uma facilidade espantadora, sua direção tem um pulso firme, mas o que transparece na tela é leveza e suavidade, de forma que depois que “A Noite” acabe com o amanhecer do dia, se torna quase impossível se desconectar daqueles personagens, que permanecem um bom tempo conosco após a película, residindo no imaginário do cinéfilo por muito tempo, possívelmente até o momento em que se assisti ao filme novamente, dando-lhe novamente vida e uma impressão definitiva na mente dos amantes do Cinema, o que sempre acontece com os grandes filmes.

Durante a noite uma banda de jazz toca incansavelmente, até mesmo debaixo da chuva e quando a alvorada chega, trazendo um clima soturno, típico da madrugada, e aqui em perfeita sincronia com a progressão dos sentimentos e emoções exploradas, ajudando a nos infiltrar por aquele par de horas nas vidas destas pessoas tão apaixonantes. A trilha exerce grande importância, dá força e vigor ao filme, e é utilizada sabiamente em momentos chave, onde completa a dramaturgia e acerta o espectador em cheio.

É preciso reconhecer: Antonioni atinge a perfeição em vários momentos, onde nada no plano poderia ser substituído ou melhorado, são irretocáveis, verdadeiros tesouros do Cinema, e cada vez mais raros, o que o teórico e diretor de cinema Andre Bazin chamava de “momento sagrado”, onde o diretor, por um segundo, captura a essência do real, que reside além das sombras e imitações que vemos no mundo, e alcança algo próximo do divino. O que Antonioni consegue várias vezes em “A Noite”.

Não só é um dos maiores marcos do cinema italiano, mas também do cinema mundial, sendo das obras-primas mais carregadas de sensibilidade, humanismo e compaixão ao ser humano, compreendendo o homem e suas relações como poucos, Antonioni nos presenteia com esta jóia de inestimável valor, que trás uma abordagem universal, poderia se passar em qualquer lugar do mundo, e com ela, nos faz olhar para nós mesmos e compreendermos um pouco mais sobre nossos próprios sentimentos e nossa dificuldade em nos comunicarmos, sendo hoje, me parece, mais atual do que nunca.

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