Riscado (2010) – Gustavo Pizze

Por Samuel Costa

Aconteceu no mês passado o 8º Festival de Cinema de Maringá e infelizmente eu consegui aproveitar pouco comparado a quantidade de filmes disponíveis esse ano. No entanto quantidade não é qualidade e eu tive sorte de conseguir ver uma sessão do filme Riscado (2010) de Gustavo Pizze. Primeiro longa de ficção do diretor e ele estréia com uma obra prestigiosa. A arte sobre a arte e o artista. Como viver de arte em um país como o Brasil? É sobre isso principalmente que Riscado vai construir a sua linha dramática: a beleza da arte em si própria, a paixão do artista, as dificuldades deste como um profissional, e em especial, o cinema.

A trama se desenvolve ao redor da personagem Bianca (Karine Teles), uma atriz que trabalha em eventos incorporando personagens como Marilyn Monroe, Bettie Page e Carmen Miranda, para conseguir levar a vida. Ela faz um teste para participar de um filme de produção brasileira e francesa e é aprovada para o papel protagonista. O diretor começa a se interessar pela vida de Bianca e incorporar a história da moça no roteiro de seu filme. Por fim o filme se torna a história de Bianca e esta, animada e encantada com os rumos que sua vida está tomando, participa ativamente não apenas como atriz, mas como uma peça chave para que o filme aconteça.

Bianca representa o artista apaixonado e encantado pela arte como algo intrínseco ao ser humano. É uma personagem que oscila entre essa beleza e as dificuldades da vida do artista no mercado de trabalho. Ela é a expressão do sorriso verdadeiro que surge da sua paixão, o choro de suas frustrações, o sorriso falso para a sobrevivência, de novo o sorriso verdadeiro da alegria de quando algo dá certo e assim por diante num caminho incerto.

É o filme dentro do filme onde um reflete no outro, e devemos estar conscientes que nenhum dá conta de abraçar de todo a realidade. Um filme é um filme. E essa característica ao mesmo tempo que diz respeito aquele espaço que o espectador não vê é também um espaço de liberdade do cinema, que cria e pode ir além da realidade para falar da realidade. E é isso que Riscado faz com grandiosidade: uma ficção para falar da realidade. Parece algo óbvio e bobo, mas usar essa “magia” cinematográfica de forma habilidosa não é tão simples assim. Ainda mais em tempos onde o cinema tem que se submeter às lógicas de mercado. Este é outro problema que muitas vezes envolve o trabalho do artista.

Riscado é uma homenagem a arte, ao artista e especialmente ao cinema. Mas ele não é indiferente aos problemas. É duro ao mostrar a desvalorização, o preconceito, o estigma e outras questões que cercam esse campo. A arte é intrínseca ao ser humano, mas parece que ela está cada vez mais sendo jogada para segundo plano na sociedade ocidental capitalista. O seu valor puro parece ser visto apenas como um hobby ou passatempo. É como se não fosse algo levado a sério. Mas ao mesmo tempo, felizmente, a resistência a essa visão é muito forte, e assim como esse filme, há diversos trabalhos e artistas lutando pelo reconhecimento da arte, e mais do que isso, mostrando o que é arte.

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2 respostas para Riscado (2010) – Gustavo Pizze

  1. Rafa disse:

    Demais! Adorei o filme e a sua descrição!
    =D

  2. Perdi o filme, mas depois de ler o comentário fiquei morrendo de vontade de ver.

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