O Massagista (2005) – Brillante Mendoza

Por Samuel Costa

Foi com uma feliz surpresa que conheci o trabalho de Brillante Mendoza, diretor filipino que entres vários prêmios já levou o de melhor diretor em Cannes em 2009. Totalmente ignorante sobre o cinema filipino (acredito que devo ter visto apenas dois ou três filmes dessa nacionalidade), me introduzi na filmografia desse diretor através de sua primeira obra, “O Massagista” (2005) (Masahista), por pura curiosidade. O que me chamou atenção foi a abordagem do elemento “ritual”, e as minhas impressões pós filme superaram as minhas inevitáveis expectativas que todos criamos. Portanto, a temática central do filme é o ritual, que está presente no nosso cotidiano nas mais diversas esferas de nossa vida. Nós os preparamos, executamos e nem sequer tomamos conta de tal fenômeno.

A história gira ao redor de Iliac (Coco Martin), um jovem que trabalha em uma casa de massagens para homens. Lá os rapazes fazem massagens eróticas em seus clientes e que geralmente são finalizadas com relações sexuais. Iliac é um tipo de garoto de programa, mas com um status mais “sofisticado”, ele possui a técnica da massagem, o que é de extrema importância para o decorrer de todo o ritual. Isso mesmo, podemos entender todo o processo da massagem como um ritual, com procedimentos, papeis, atuações e repetição. A vida cotidiana de Iliac é interrompida pelo falecimento do pai, entra em cena então outro ritual, o funerário.

É muito genial a forma como ambos rituais se intercalam na tela, e vemos como os dois são muito parecidos. Na massagem vemos claro os papeis do massagista, aquele que possui a técnica, as ferramentas e desenvolve os procedimentos, e o do cliente, que recebe como agente passivo os efeitos do ritual. No funeral, vemos também a interpretação de papeis que vão do filho que ajuda a vestir o corpo do pai às senhoras que jogam baralho no velório. Nesse último o ritual envolve muito mais atores e o efeito é coletivo.

O filme se refere a rituais, repetição, papeis, atuações, interpretações, mas não de forma pejorativa, como se essas “encenações” fossem uma farsa, não é isso. Os rituais estão em nossas vidas e nós estamos interpretando papeis todos os dias, seja na igreja, no trabalho, na escola, exemplos simples como almoçar junto a família na mesa pode ilustrar melhor isso. Essa ausência de julgamento é o ponto de genialidade que o diretor alcança. O que se leva em consideração é a eficácia de tal ritual, seja ela concreta, como na relação com o cliente, ou simbólica, como no funeral. Embora ambos os casos estejam permeados por elementos simbólicos (signos, significados) e materiais.

Não haver julgamento quer dizer que não há moralismo referente ao que é certo ou errado, mas o filme nos mostra que esses ritos podem sim mudar seus significados. Na cena em que o filho ajuda o funcionário à vestir o seu pai, um crucifixo é cortado da corrente que está envolto na mão do cadáver, vemos o rompimento com o significado religioso, mas de qualquer forma o ritual ainda representa a passagem da vida para a morte, sem falar que isso pode variar de um agente para o outro.

A câmera se movimenta constantemente e é como se fosse um personagem perdido no meio de todos esses ritos. É o olhar do expectador que se questiona “o que significa tudo isso?”, é um olhar um tanto vazio por estarmos na posição de quem não para pra observar esses rituais no nosso dia a dia, mas que os vivencia constantemente sem questionar. A trilha sonora é calma e os sons são crus. Ouvimos os carros, os ruídos, os insetos noturnos, o vento, o barulho da sobreposição de vozes, as gargalhadas, os choros, tudo isso contribui para o nosso estado de espectador observador. A fotografia é belíssima com tons escuros e luzes fortes e coloridas.

Um filme genial e original na sua forma de abordar. A simplicidade da técnica é sobreposta pela profundidade que a obra alcança em um tema nada convencional.

Anúncios
Esse post foi publicado em Cinema, Cinema do Oriente Médio, Uncategorized e marcado , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para O Massagista (2005) – Brillante Mendoza

  1. sokoisdead disse:

    Samuel, ficou muito boa essa análise, não só de cinema mas com um pouco de sociologia/antropoligia no meio, dando uma força maior aos argumentos!

  2. Stefany Feniman disse:

    Parabéns pela análise. Rica de detalhes em sua descrição, relacionando os elementos antropológicos de forma brilhante. Suscitou curiosidade sobre o longa-metragem, vontade de assistí-lo. Espero as reflexões sobre os demais filmes do diretor. Beijos, amigo!

  3. Disse tudo Stefany e Gabi! Nossa, o blog ta muito mara também! Abraços

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s