Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos – Woody Allen

Por Gabriel Dominato

Woody Allen está num novo ciclo, depois de passar pela comédia mais escrachada de filmes como “Bananas” e “O Dorminhoco”, indo à comédia de relacionamentos em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, onde começa a desenvolver uma maturidade cinematográfica. Nos anos 80 vai para o drama e temas mais familiares no ciclo de sua carreira conhecido como Fase Bergman, até seus filmes mais recentes do início do anos 2000, quando rompe com Mia Farrow e inicia o novo ciclo com Scarllet Johansson. No século XXI um novo Allen parece ter surgido, às vezes pessimista como em “Tudo Poder Dar Certo”, agora com um humor um tanto mais sutil, mas não menos ácido quanto antes, porém, de certa forma, os novos filmes de Woody Allen tem um ritmo mais calmo, são mais ternos e tentam abraçar a humanidade e seus personagens, fadados a perderem no final, como diz na frase que abre e fecha o filme “Tudo é cheio de som e fúria, e no fim não tem sentido nenhum”. Ainda que nos veja neste beco sem saída, Allen ainda parece ver aquele pouquinho de coisas boas que residem ainda enterradas bem fundo dentro de nós, além de nos deliciar com belos pedacinhos do cotidiano.

A comédia familiar é mais uma vez o plano de fundo para “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos”, onde as separações são constantes – como nas outras obras de Woody Allen – e os novos amores sempre estão fadados ao fracasso, mas em sua condição humana, os personagens parecem nunca desistir.

Alfie (Anthony Hopkins) está se separando de Helena (Gemma Jones) após inúmeros anos de casamento, para viver uma vida de jovem, tentando negar a passagem do tempo. São pais de Sally (Naomi Watts), que é casada com Roy (Josh Brolin), escritor de um único sucesso tentando terminar seu último livro. Roy se apaixana por Dia (Freida Pinto), uma bela indiana que se muda para um prédio de frente com o de Sally e Roy.

Para aliviar a dor da separação da mãe, Sally a apresenta a uma vidente charlatã, que dá tranquilidade à mãe, enquanto seu próprio casamento está se desfazendo. Sally é graduada em Artes e começa a trabalhar na galeria de Greg (Antonio Banderas), por quem se apaixona perdidamente, ao mesmo tempo em que seu pai vai se casar com uma mulher com metade de sua idade. O adultério é tema recorrente na obra de Allen, e aqui não diferente de outros de seus trabalhos é visto não como algo absolutamente imoral, mas como um fato da sociedade moderna. Outro elemento interessante que vem se apresentando na obra de Woody Allen aos poucos desde “Tudo Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar” e de forma mais aberta em “Simplesmente Alice” é um quê pelo misticismo, ainda que no novo filme ele tenha caráter um tanto superficial e claramente declarado de ser falso, Allen reflete pela personagem Sally de que se a charlatã está fazendo mais bem para sua mãe que os remédios, então que um pouco de ilusão não é tão ruim.

Os problemas de relacionamento vão sendo explorados de forma às vezes cômica, às mezes melodramáticas, sempre tendendo a ruir no fim, a nova mulher de Alfie começa a traí-lo, Sally se separa de Roy, que começa a sair com Dia, e Greg começa a sair com uma amiga de faculdade de Sally. Por cima, esta seria a trama do filme, porém, é no olhar do diretor, tão único e cada vez mais sensível, ainda que nos momentos pessimistas, que se dá a energia e vigor de personagens que já foram muito debatidos e usados no cinema, mas ele consegue torná-los algo novo, com certa profundidade emocional, de forma que conseguimos nos identificar com os personagens ou reconhecer pessoas como eles em nossas vidas.

Vemos uma Nova York nada metropolitana, pelo contrário, poucas pessoas nas ruas e poucos carros passando, parecendo até mesmo outra cidade, talvez como Allen vê a grande maçã. As cenas contruídas com uma iluminação mais fraca e com cores não muito fortes, aliadas a uma música acústica de violão erudito, quase sempre criadas dentro de ambientes fechados, com poucas externas, dá uma visão mais intíma destes personagens.

“Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos” não foi muito bem aceito pelo público, mas é sem dúvida um ótimo exemplar de cinema, honesto consigo mesmo, sem grandes pretensões – como tem sidos todos os seus ultimos filmes – ou mesmo análises profundas dos personagens e das relações destes, esboçando apenas um retrato dos relacionamentos, familia e amor no século XXI, de forma sutil, comedida e como sempre em um Woody Allen, bem humorada.

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Sobre sokoisdead

Apenas um cinéfilo.
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2 respostas para Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos – Woody Allen

  1. william disse:

    o filme é ambientado em Londres.

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