Simplesmente Alice – Woody Allen

Por Gabriel Dominato

Depois de duas décadas de vigor, Woody Allen parece um pouco cansado neste Alice (1990), vemos a inventividade do novaiorquino um pouco abatida. A personagem meiga e timída de Mia Farrow, embora bem executada como sempre, já não apresenta novidades como o fariam em “Setembro” e “A Rosa Púrpura do Cairo”, a grande diferença reside no fato de que naqueles filmes a personagem era apenas um aspecto da narrativa, neste todo o filme se sustenta sobre a personagem homônima.

O humor intelectual de Allen, sempre bem comedido, aqui encontra uma certa superficialidade e frieza, e em certas partes beira o clichê, como na figura do doutor Yang, um imigrante chinês acupunturista que dá a Alice Tait (Mia Farrow) ervas que lhe dão vários poderes, como voar, ficar invisível, ver espirítos.

Sobre a estória em si, Alice é uma mulher casada há 15 anos, parte da alta burguesia, num casamento já destituido de todo desejo e paixão, amiga de mulheres fofoqueiras que a subestimam, e para suprir a ausência do marido se entrega ao consumismo e a superficialidade, indo ao rumo diametralmente oposto do qual sonhara seguir quando criança, que era ser uma freita “uma santa”, nas palavras da próprias Alice. Um dia Alice tem dor nas costas e todos acabam recomendando este doutor Yang, que com as ervas vai curando os medos e timidez da personagem, que até consegue entrar numa relação extra-conjugal.

O relacionamento com o amante inclusive é a parte mais vigorosa do filme, onde vemos os efeitos das poções funcionarem e algumas situações cômicas e outras que beiram a beleza de seus filmes na “fase Bergman”, verdadeiramente sensíveis e de bom gosto, como é o caso do encontro com a mãe e sua revisita ao passado.

O filme se encaixa muito bem com aquela famosa frase “o filme funciona nas partes, mas não no todo”. De forma isolada o filme possuí sequências adoráveis e incríveis, mas no todo o filme não parece funcionar, o personagens e a classe burguesa são demasiadamente caricatos, o que não quer dizer que sejam fruto do sarcasmo, marca registrada das obras de Woody Allen, aqui ele está um pouco forçado, não muito sutil como se deve ser, e isso afasta aquela realidade de nós, e por isso não conseguimos nos identificar com eles nem compreendê-los, suas motivações e medos parecem vazios e tolos. Nos repelem ao invés de compelir.

Se Alice vale a pena ser visto? Sem dúvida, mas diria que só irão gostar quem já conhece Woody Allen das antigas, e vale a pena para conhecer a obra que abre terceira década de Allen como diretor. Como tal ele já cometeu deslizes no passado, é um equívoco perdoável. O motivo de não funcionar muito bem talvez seja porque os projetos anteriores do diretor foram muito significativos, em grande destaque no ano anterior ele havia lançado o celebrado “Crimes e Pecados”, uma de suas melhores obras, e tudo isso muito provavelmente fez “Alice” nascer nas sombras de um grande sucesso e sua simplicidade parecer tola ao ser comparada com aquela obra. A trilha sonora toda no jazz me faz lembrar que o filme, assim como o jazz, parece improvisado, todo feito na correria e levado pela primeira onda, sem tempo para refletir, e o que sair, saiu. É isso que parece para mim, um jazz que desafinou um pouco, mas considerando as musicas anteriores, essa nota errada não é tão desarmônica assim, mas não o deixa de ser também.

Ainda assim, o filme é capaz de ser uma história engraçada e interessante, é só quando comparamos com o restante da obra que esta deixa a desejar, pois não atingiu os padrões anteriores que pareciam ser sempre alcançados.

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