Setembro – Woody Allen

Por Gabriel Dominato

Uma casa, uma noite e algumas pessoas, não é mais que isso que Woody Allen se utiliza para contar uma bela história permeada de personagens interessantes e bem desenhados que fluem em seus papéis de maneira ritmica, cada fala parece ensaiada para soar quase musical, o tempo é mantido do começo ao fim mesmo que este passe praticamente em tempo real.

Com grande inspiração na obra do realizador suéco Ingmar Bergman, Woody Allen delineia uma história sobre uma família de classe média alta com um cinzel delicado, encontrando um nível de inspiração que parecia há tempos procurar e que iria atingir mais tarde em filmes como Melinda e Melinda e Crimes e Pecados.

Lane (Mia Farrow) é uma doce garota indecisa quanto a seu futuro, como a maioria de nós não sabe o que quer da vida, se apaixona pelo publicitario e aspirante a escritor Peter (Sam Waterson), que por sua vez está apaixonado por Stephanie (Dianne Wiest), que vê-se impossibilitada de corresponder o amor do jovem por já ter uma vida com outro homem e filhos, além de ser amiga de longa data de Lane.

É claro que tudo isso pareceria um grande clichê se tais relações e personagens nos fossem apresentados e executados de forma convencional, mas é aqui que a câmera sutil e a direção sofisticada de Allen se sobressaí, com uma fotografia que lembra os filmes do mestre Ingmar Bergman como Gritos e Sussurros e Sonata de Outono, todo o filme tem cores fortes e quentes que aumentam o intimismo, e mais ainda porque basicamente o filme se passa dentro da casa da família.

Quase todos os personagens tem caracteristícas psicológicas muito próprias e bem desenvolvidas, embora alguns sejam mais contrastantes que outros, como Diane (Elaine Stritch), que é a mãe de Lane e tem a personalidade forte e um pouco caricata, lembra bastante a mãe de Sonata de Outono porém com senso de humor, ela quer que Peter escreva sua autobiografia, o que gera o ódio de Lane, que acha que Peter tem um real talento e que não deveria deveria ser desperdiçado nas lembranças desimportantes da mãe, sentimento também muito similar da filha no filme de Bergman. Peter por sua vez acha a ideia fascinante e melhor que seu atual livro.

Há todo um drama bem sutil desenvolvido entre a filha e a mãe e a relação conflituosa que tiveram quando Diane abandonou o pai de Lane, que marca as personalidades dos personagens e também serve de argumento para o desenvolver do drama que gira em torno de conversas e humor inteligente e de bom gosto.

A trama não é nada mais que isso, amigos e uma família num dia chuvoso de Setembro, e também vale mencionar que não precisa ser mais que isso, Woody Allen com duas grandes atuações de Mia Farrow e Dianne Wiest faz um desenvolver delicioso como só ele sabe, com o clima de Hannah e suas Irmãs, caseiro, aconchegante ao espectador, e de certa forma quase poético em algumas partes e o humor refinado de A Era dos Rádio e tantos outros, este é um filme que consegue se aproximar de nós e manter um diálogo bem próximo e de forma tão interessante que é impossível não querer participar dele.

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Uma resposta para Setembro – Woody Allen

  1. Adorei esse filme; o curioso é que na filmografia de Allen, até nos pastelões aparece essa inquietação com as fragilidades das relações humana, como na fala de Diane, que diz que sofre-se de amor por tê-lo e por querer ter, ou coisa do tipo. Gosto das obras de Allen por ser uma apaixonado por cinema e fazer obras que são tanto uma homenagem aos diretores, livros, peças e outras coisas mais que o autor ama, sendo assim, acho muito autêntico na sua proposta, no que cerca a fidelidade de ser um narrador de seu tempo, compartilhando com todos paixões universais, como o drama de encenarmos todos os dias nossas paixões e nada mais.

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