O Rolo Compressor e o Violinista – Andrei Tarkóvski

Por Gabriel Dominato

A obra era para ser o trabalho de conclusão de Curso de Andrei Tarkóvski, mas acabou sendo mais, muito mais, O Rolo Compressor e o Violinista é a semente de tudo o que viria aparecer nos próximos filmes de Tarkóvski, com uma fotografia belissíma, tempos e cortes conscientes e atuações memoráveis, o cuidado é impecável em todos os aspectos, sabe-se até que Tarkóvski desejava contratar o fotógrafo que ganhara a palm d’or do ano anterior para fazer seu filme, para ver como para ele se tratava de mais que um trabalho de conclusão de curso, tudo o que iria consagrar este diretor num dos melhores de todos os tempos.

A história em si é bem simples, Sasha (Igor Fomchenko) é violinista e na frente de sua casa as ruas estão sendo asfaltadas, lá ele conhece um homem que dirige um dos rolos compressores, Sergei (Vladimir Zamansky). Com isso vemos uma bela amizade surgir, que será trabalhada com os elementos sutis e simbólicos que se tornariam marcas habituais do cinema de Tarkóvski.

Da atuação memorável de ambos e do afeto que se desenvolve entre os amigos, podemos apontar duas situações com as quais o diretor magistralmente nos mostra o carinho de um pelo outro, na primeira temos Sergei que pega o instrumento de Sasha pela primeira vez e sente-se maravilhado, é uma grande novidade a ele, mas depois percebe que é apenas madeira e é leve, porém é quando Sasha toca que ele parece sentir verdadeiro carinho, uma emoção indescritível passa a seus olhos, sabemos que ele gostou. Num segundo momento vemos Sasha impaciente, pois iria ver um filme com Sergei antes que ele fosse embora da cidade, não pode ir, fica triste, tenta lhe avisar com um aviãozinho de papel que atira da janela até onde haviam marcado de se encontrar, Sasha escreve numa folha de partitura “Não foi culpa minha. Minha mãe não me deixou ir”,
e arremessa, mas Sergei se vira antes de ver e o avião cai no chão.

No outro dia, Sasha vai ao encontro de Sergei, eles se despedem, mas sua amizade parece resistir. Não sabemos se um dia se encontraram, mas ficamos certos do sentimento.

Como disse, uma singela história, mas com a qual Tarkóvski consegue evocar sentimentos profundos, o som do violino não encanta somente a Sergei, mas também a nós, não queremos vê-lo partir também, e tudo porque Tarkóvski assim deseja, e pensar que este era o primeiro filme de um homem récem saído da faculdade de cinema. É majestoso ver as ruas e pátios de uma União Soviética retratados com tamanha beleza ao contrário do que mostram os filmes históricos.

Andrei Tarkóvski sempre presou pelas relações humanas, os conflitos e aprendizados, aqui cada um aprendeu algo de valioso com o outro, embora em seus meros 45min de duração, Tarkóvski consegue aprofundar muito estas relações, embora as que estão de fora da amizade também tenham valor, como a garota para quem Sasha deixa a maçã, os garotos que não gostam de Sasha mas não tem coragem de estragarem seu violino quando tem a oportunidade, tudo isso é demasiado simbólico e magistralmente trabalhado, tornando essa a porta de entrada ao seu mundo maravilhoso.

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