Nannan nünü (1999) – Liu Bingjian

Por Samuel Costa

“Nannan nünü” (1999) é um filme chinês do diretor Liu Bingjian. Não foi lançado no Brasil e é conhecido internacionalmente pelo título em inglês “Men and Women”. Polêmico e ousado, o filme trata de um assunto tabu na China, a homossexualidade, em decorrência disso foi censurado no país de origem. O diretor trabalhou com alguns atores que são homossexuais, um deles é Cui Zi’en, escritor chinês homossexual assumido que interpreta no filme Gui Gui, um locutor de uma rádio undergroud.

A história do longa se passa em Beijing, o jovem Xiao Bo chega a uma loja na qual havia sido indicado para trabalhar, mas não encontra lá quem ele esperava e descobre que o comércio pertence a uma outra pessoa. A dona da loja, Qing Jie, sem conhecê-lo, abriga-o em sua casa e este passa a trabalhar para ela na loja de roupas. A história é simples e se desenvolve em cima da questão da orientação sexual do rapaz. De fato passamos a maior parte do filme sem saber sobre sua sexualidade e no de decorrer disso ficamos atentos na relação deste personagem com Qing Jie (com quem cria uma amizade), o marido desta e A Meng. Ao mesmo tempo vemos alguns cenas com outros dois personagens, aparentemente não ligados à Xiao Bo, Gui Gui e Chong Chong, que desenvolvem uma espécie de revista sobre banheiros públicos.

O cinema oriental possui características que podem parecer estranhas a nossa visão ocidental em um primeiro momento, mas que é de uma intensa beleza e genialidade. Quebra com o velho cinema tradicional e com os cansativos padrões hollywoodianos superficiais e que prendem o público mais pelas piadas sem sentido, explosões ou dramas baratos do que por uma construção de um significado mais “profundo”, no sentido de ir além do entretenimento instantâneo. É claro que não podemos generalizar, não dizem que para tudo há exceções? E cada diretor, roteirista, ator, ou qualquer outro que participe da construção de um filme, tem uma visão diferente, uma forma singular de trabalhar. Portanto não sejamos ingênuos de achar que todo o cinema oriental, ou ocidental, é do mesmo jeito, mas podemos considerar que há diferenças bastante relevantes no que diz respeito às diferenças culturais entre oriente e ocidente e que influem no cinema. Portanto é preciso um certo grau de alteridade para compreendermos “Nannan nünü”, que possui um tempo e estrutura com o qual não estamos acostumados a priori.

O que mais encanta em “Nannan nünü”, e em muitos outros filmes orientais (e com menos frequência em filmes ocidentais), é a construção que nos parece lenta, mostrando situações cotidianas, simples e corriqueiras (o banho, a janta, o jogo de basquete, os diálogos). O que pode parecer chato e entediante é na verdade muito mais próximo da realidade e consequentemente nos diz muito mais a respeito dos seres humanos.  Isso não quer dizer que entretenimento seja ruim, mas que um filme como este alcança uma amplitude de reflexão bem maior.  E toda essa magnífica construção traz a tona uma questão e não fecha os olhas para a realidade: homossexuais existem, vivem na mesma sociedade que todos nós, têm relacionamentos como todos nós e são seres humanos como todos nós.

Além de todas essas qualidades, tema polêmico, ousadia, essa particularidade do cinema do oriente, o filme ainda conta com belas atuações, uma linda fotografia e surpresas e revelações durante a trama que estimulam uma reflexão sobre liberdade, gênero e ser humano. A humanidade é diversa e não podemos fechar os olhos a essa diversidade.

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