A Outra – Woody Allen

Por Gabriel Dominato.

Nos fins dos anos 80 Woody Allen já não era mais aquele diretor de comédia que havia se popularizado por filmes como “O Dorminhoco” ou “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, e uma safra de filmes belissímos surgiu nessa nova fase visivelmente influnciada pelo cinema europeu, em destaque por Ingmar Bergman (admiração a qual é declarada pelo próprio Allen e que comentei no último post).

“A Outra” conta a história de uma professora de filosofia, Marion (Gena Rowlands) em uma grande atuação, e o encontro acidental com outra mulher (Mia Farrow). O apartamento que Marion aluga para escrever, onde ela se isola do mundo, faz divisória com um consultório psiquiátrico, onde finas paredes e um duto de ventilação carregam as ondas sonoras das palavras dos paciêntes ao lado. Inicialmente Marion sente-se incomodada por ter seu trabalho atrapalhado, mas depois aos poucos vai se identificando com a jovem perdida, uma caracteristíca das mulheres nessa fase dos filmes de Allen, e várias lembranças vão sendo evocadas e o passado confrontado aos poucos.

A outra também se refere ao caso que seu marido está tendo com uma de suas poucas amigas que restaram. Em retrospecto Marion se vê uma pessoa fria e asséptica, e descobre isto da pior maneira possível, pela visão de várias pessoas que passaram em sua vida. E por fim admite até mesmo ser sua culpa. Mas não apenas a ela devemos jogar a culpa em sua totalidade, porque todos nós cometemos erros que irão refletir na vida de outras pessoas, assim como os erros de outros irão influenciar nossas vidas, e assumir a responsabilidade por esses erros é o que nos torna maduros.

“A Outra” é uma história sobre esses conflitos, delíneado com a sensibilidade habitual, Woody Allen nos convida para um filme intimista onde o âmago está por ser revelado, e é difícil não sentir uma ligação com Marion ou a outra, personagem de Mia Farrow, porque elas representam a fragilidade humana, ali nós podemos nos ver por trás daquelas máscaras, escondidos pelas barreiras racionais que criamos para nos proteger do mundo, e é sempre necessário um reexame de nós mesmos, derrubar tais máscaras, tal qual Marion parece tentar fazer. E isso nunca é fácil. Porém um grande alívio parece provir deste ato.

Este filme merece ser visto por quem gosta do bom cinema artístico, uma pérola curta e minimalista da vasta cinematografia de Woody Allen que tem um destaque todo especial pela trilha delicada e a fotografia de cores quentes e às vezes quase escuras, que pinta um retrato muito belo da sociedade na classe média alta americana dos anos 80.

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