Canções do Segundo Andar – Roy Andersson

Por Gabriel Dominato

O filme do ano 2000 do suéco Roy Andersson é uma sátira cheia de humor negro da sociedade ocidental, denunciando de forma dolorosamente descontraída o quanto esta é superficial e vazia, porém com uma simpatia por suas trágicas personagens, em especial aqueles que vão contra o ritmo louco do mundo.

São 46 planos estáticos, onde a câmera caminha em apenas um deles, embora cômicos alguns, todos são trágicos ao lembrarmos que a sociedade criticada lá é a que vivemos, somos parte dela e de suas idiossincrassias.

Quando ocorre certo fato, executivos de uma empresa precisam fugir, dá-se uma forte critica ao materialismo destes tempos onde o consumismo é a lei maior, na cena onde todo estão tentando embarcar, estão para perder o voo, pois trazem consigo dezenas de malas enormes que mal conseguem arrastar, como se precisassem levar consigo todos seus bens materiais, as únicas coisas que lhes parecem importantes.

Andersson parece completamente consciente da alma de seu tempo, ao mostrar sua visão de mundo sentimentos sua simpatia pelos desafortunados que são afetados por este tempo, há uma compaixão muito forte, o tempo todo nos dizendo “Amados sejam aqueles que se sentam”, como se quisesse nos convidar a parar, sentar e dar um tempo, é preciso parar nesses tempos loucos, o mundo está rápido demais, e todos os que se sentam são olhados torto.

O diretor constrói tudo metódicamente numa cidade que parece tão morta e fria como seus habitantes, superficial, fútil. Numa das cenas um enorme engarrafamento, uma garota fica perguntando “Como eu saio daqui?”, e esta é uma das principais questões que o filme suscita, como podemos ter um tempo para o que realmente importa? O filme não nos diz, mas incita que tomemos tempo para se sentar e refletir sobre isso. Noutra cena alguns executivos perguntam a uma garota numa espécie de entrevista se seria bom repartir o bolo que é pequeno entre todos e comer uma fatia muito pequenina ou ficar com a fatia maior e poucos comerem, fazendo forte critíca à divisão de recursos e renda que ocorrem em nossos tempos, a garota, símbolo da juventude, ao parecer se inclinar para a divisão do bolo, é atirada mais tarde de um penhasco. O preço de nossas ações é destruir o futuro de nossa juventude, nós a sacrificamos.

Outra questão é a fé, onde não é mais um valor espiritual, mas virou moeda de troca, um comerciante ao perceber que o aniversário de 2000 anos de Cristo estava por vir aposta numa jogada aparentemente perfeita na venda de crucifixos, mas por fim diz “Quem iria comprar um perdedor desses?”. Todos os valores critãos fracassaram, e o filme deixa isso bem claro, nenhum dos ensinamentos como amar o próximo restou, todos agem exclusivamente para a própria satisfação. No fim, ele joga todos os crucifixos fora, não valem mais a pena pois não mais trazem dinheiro,  é o valor economico em detrimento ao espiritual.
Espiritualmente, como seres humanos fracassamos, e todos os
nossos fantasmas nos assombram por todos nossos pecados,
podemos não percebê-los, mas estão todos ali, atrás de nós
nos seguindo dia após dia, como ocorre com o vendedor de crucifixos. Eles nunca irão embora, podemos tentar nos esquecer, mas nosso passado sempre nos assombrará pelas escolhas que fazemos agora.

Repleto de imagens e cenas simbólicas como a do poeta que perde a cabeça ao escrever poesia, num mundo onde esse tipo de sensibilidade é loucura, onde a mágia já não existe, como exemplo quando o mágico tenta serrar o homem para encantar a platéia o número artistico desaparece e a barriga do pobre coitado é realmente serrada. Não existe mais explendor, tudo é dolorido e real demais, e os prazeres foram todos perdidos ou vendidos (o que ficaria mais claro no filme de Andersson de 2006 “Vocês, os Vivos”, Canções do Segundo Andar traça um panorama vasto de interpretações e significados, cabendo ao espectador que faça suas reflexões, mas algo é certo, esteja onde estiver, este filme irá reverberar em sua cabeça uma vez que você o veja.

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Uma resposta para Canções do Segundo Andar – Roy Andersson

  1. fmaiorino disse:

    Republicou isso em ruminacaoe comentado:
    Otima Resenha sobre a obra prima de Roy Andersson, Canções do Segundo Andar!!! VALE A PENA CONFERIR

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