Bande à Part – Jean-Luc Godard

Por Gabriel Dominato

No filme “Os Sonhadores” de Bernardo Bertolucci, o personagem de Michael Pitt, Matthew,comenta sobre a cinemateca francesa, ele diz que foi lá que os mestres aprenderam sua arte, lá começou o cinema moderno e, deste, Jean-Luc Godard ao meu ver foi uma das principaís figuras, senão a central, sendo co-fundador da Nouvelle Vague ao lado de François Truffaut, o cinema mudaria radicalmente depois do fim dos anos 50.
Citados por muitos como um “Anti-Godard”, ou como “Um Godard para quem não gosta de Godard”, o filme tributo ao cinema policial americano, creio que em especial a Nicholas Ray, de quem Godard era um grande admirador, é uma aula de subversão ao genero do cinema policial, onde tudo são fragmentos, frases e pensamentos, em muitos momentos que parecem totalmente fora de concatenação, não é necessariamente os momentos chaves que vemos, a contraponto do cinema policial americano onde o que transcorre na cena é a ação que desenvolve o enredo, mas sim o oposto, o que fica no meio da trama rápida do cinema de hollywood, as vicissitudes, idiossincracias e tudo que é cotidiano, sempre há um reforço ao que é normal, mundano e ao especifíco, os detalhes, onde a vida de assaltantes e bandidos noir não são muito diferentes das nossas, não é badalada e glamourosa, é lenta e arrastada e cheia de digressões e pequenos momentos, são nesse a ênfase, não nos gloriosos, estes quando ocorrem são de um tédio enorme, de forma alguma é o ápice do filme, é só mais um detalhe, onde grande parte do cinema policial pretende chegar, o clímax, Bande à Part joga às favas, sem importância, ao menos não mais importante que o resto.

Tais detalhes são tão bem costurados que as cenas atemporais fazem-nos crer existir uma trama onde existe somente uma situação “Para os atrasados que agora chegam, oferecemos umas poucas palavras escolhidas aleatoriamente: Três semanas antes. Um monte de dinheiro. Uma aula de inglês. Uma casa na beira do rio. Uma garota romântica.”, o narrador chega ao ponto de resumir o enredo, e do ponto de vista puramente analítico é apenas isso, como dito antes, sua beleza está nos detalhes, em cenas que se tornaram imortais, sejam na própria homenagem de Bertolucci em “Os Sonhadores” ou em homenagens como a de Quentin Tarantino (quem não sabe sua produtora chama-se A Bande à Part). Em vários foruns de debates se encontram cinéfilos com sonhos de correr pelos corredores do Louvre e quebrar o recorde de Franz, Arthur e Odile, um trio que faz suspirar, com um sincronismo incrível, que permitiu graus de improvisação raros, cenas inesperadas e uma liberdade pouco vista no cniema; Godard tem um jeito de filmar seus atores e deixá-los maravilhosos, ainda que embebidos de toda uma matéria cotidiana e mundana, parece absorver todo o glamour noir, ou a mera potencialidade para tal destes atores e amplificá-la em 4:3.

Se falamos de beleza a fotografia de Raoul Cotard é uma deslumbre à parte (sem trocadilhos), planos tão simplórios são convertidos em pinturas em preto e branco de beleza impecável, destaque para uma Anna Karina de beleza quase pueril, parecendo ter rejuvenescido uns dez anos desde de “Vivre sa Vie”, seja por um sorriso delicado, o cabelo preso ou a ausência de maquiagem, Godard torna sua musa em algo inocentemente belo, com rosto luminoso e conduta tão delicada.

No começo dizia que dizem ser este um Anti-Godard, em certo ponto preciso concordar, não é aquele que mais se questiona filosófica ou intelectualmente, não existem posições politicas demarcadas ou mesmo muitas critícas sociais – caso haja alguma – porém existe certo magnetísmo que quem assiste é incapaz de se esquivar, sendo tragado pelo universo ambíguo, que parece transitar entre o extremo do comum a uma quase fábula, Bande à Part conquista de forma que me é inominável, não saberia apontar o motivo, talvez seja pelo minuto de silêncio, pela dança ou pelo Louvre – a muitos pode ser pela própria Anna Karina – mas seja pelo que for, este filme merece a atenção de todos que se consideram cinéfilos ou daqueles curiosos com a arte que chamam de Cinema.

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